terça-feira, 3 de setembro de 2013

"Diogo Dias e João Afonso de Aveiro, navegantes do séc. XV"


Muitas vezes se diz  : ele é o maior;
Não há o mínimo de preocupação em saber se isso é verdade e tenta-se criar a nossa própria opinião. 
Por comodismo os outros dizem e nós aceitamos.
Assim faz-se uma pergunta: quem foi o maior navegante da época dos descobrimentos? Bartolomeu Dias ? Gama ? Cabral? Corte-Real? Diogo Cão?
Há um homem que está semi- esquecido no pó da história e na memória dos tempos  Diogo Dias ou Pero Dias !
Navegou no Golfo da Guiné e nas Costas da Mina
Acompanhou o irmão Bartolomeu Dias, na derrota do Cabo da Boa Esperança; 
Foi o escrivão da Nau S. Gabriel, (a nau de Vasco da Gama) na descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, tendo sido preso em Calicute , salvando a vida a custo;
Foi um dos primeiros portugueses a pisar a terra no chão do Brasil, na foz do rio Mutári,  baía Cabrália, na armada de Cabral (Pero Vaz de Caminha , na sua carta diz " era homem gracioso e alegre, saltou em terra e dançou com os índios ao jeito deles, ao som duma gaita" ). 
Quando a  armada de Cabral seguiu para a India, ele que era comandante de uma nau, na zona do Cabo afastou-se dos outros navios e foi  ter a uma grande ilha a que deu o nome de S. Lourenço e que hoje é Madagáscar
Tendo seguido a rota da India, na zona do Cabo Guardafui (Djibuti),virou á esquerda e entrou pelo Mar Vermelho (sendo por isso o primeiro comandante português a navegar nesse Mar). Perdeu-se? Um mareante com a sua experiência e conhecimentos náuticos e tendo já ido à Índia, perdia-se? Missão secreta?
Quando chegou a Lisboa, a sua nau só o trazia a ele e a mais sete companheiros.
Certo é que em 1503 os portugueses construíram a fortaleza de Socotorá, fechando assim a entrada - e saída - do Mar Vermelho.
Infelizmente nem uma rua, uma praça ou uma estátua existe em seu nome-
Para honrar estes homens temos o Brasil fiel depositário dos valores portugueses..
Depois de uma vida fantástica e generosa , merecia outro reconhecimento em Portugal.
 João Afonso de Aveiro
Há quem pretenda que João Afonso de Aveiro tomou parte na expedição de Diogo de Azambuja à costa de Mina.
A frota partiu do reino em 11 de Dezembro de 1481, e alcançou a Mina,  em 19 de Janeiro de 1482 (Rui de Pina, Chronica d'EI Rei D. João II, cap. II; Garcia de Resende, Chronica dos Valerosos, e Insignes Feitos DeI Rey Dom Ioam II, cap. XXV; João de Barros, Ásia, década I, liv. III; Doutor Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, pág. 189, nota 2, e A Exploração do Golfo da Guiné, na História de Portugal, ed. de Barcelos, vol. lII, pág. 549).
O cosmógrafo e roteirista Duarte Pacheco Pereira diz que a armada se compunha de nove caravelas e duas urcas (Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis; cf. Padre António Brásio, Monumenta Missionaria Africana (África Ocidental), vol. I, págs. 3 e segs.). Rui de Pina e Garcia de Resende não referem o número de navios; mas João de Barros indica dez caravelas e duas urcas e esclarece o seguinte:
«Assentado que se fizesse esta fortaleza [de S. Jorge da Mina] mandou El Rei aperceber huma armada de dez caravelas e duas urcas em que fosse pedra lavrada, telha, madeira, e assi todalas outras munições, e mantimentos pera seiscentos homens, de que os cento eram officiaes pera esta obra, e os quinhentos de peleja; dos quaes navios era Capitão mór Diogo d’Azambuja pessoa mui experimentada nas causas da guerra; e os outros Capitães eram Gonçalo da Fonseca, Ruy de Oliveira, João Rodrigues Gante, João Afonso, que depois matáram em Arguim, sendo capitão daquella fortaleza João de Mourca, Diogo Rodrigues lnglez, Bartholomeu Dias, Pero d’Evora e Gomes Aires escudeiro delRey D. Pedro d’Aragão, o qual entrou em lugar de Pero d’Azambuja, irmão delle Diogo d’Azambuja, por morrer de peste primeiro que partissem de Lisboa, que a este tempo andava nella, todos homens nobres, e criados delRey. E os Capitães das urcas eram Pero de Cintra e Fernão d’Afonso», etc. (João de Barros, lbidem, década I, liv. III; cf. Padre António Brásio, lbidem, vol. I, pág. 19).
A transcrição é feita da edição de Lisboa, de 1778 – e por ela haveria de concluir-se que João de Barros errou, por inadvertência, a contagem: excluído João de Moura, ali indicado como capitão de Arguim, os capitães das caravelas seriam nove, o que estaria de acordo com o relato de Duarte Pacheco Pereira.
Mas a edição de Coimbra de 1932, conforme a princeps, revista e prefaciada pelo Dr. António Baião, reza de outra maneira:
«...dos quáes nauios éra capitã mór Diógo Dazãbuja pesóa muy experimêtada nas cousas da guerra; e os outros capitães eram Gonçálo Dafonseca, Ruy Doliueira, Joã Royz Gante, João Afonso, que depois matáram em Arguim sendo capitam daquella fortaleza, João de Moura Diógo Royz jngres, Bartholameu Diaz, Pero Déuora, e Gómez Aires escudeiro deI rey dom Pedro Daragam», etc.
O capitão da fortaleza de Arguim passa a ser João Afonso.
É de notar que também aqui se verifica o caos da pontuação, pois se suprime uma vírgula entre «Joam de Moura» e «Diógo Royz jngres»...
A edição do ilustre Prof. Doutor Hernâni Cidade, além das que traz a princeps, põe uma vírgula depois de Arguim – o que, todavia, não lhe altera o sentido.
Sendo diversas as fontes e desencontradas as edições do cronista, surgem, muito naturalmente, os desacordos entre os que as utilizam: o eminente historiador dos descobrimentos Prof. Doutor Damião Peres, fundando-se em João de Barros, diz que a frota era constituída por dez caravelas e duas urcas (Prof. Doutor Damião Peres, locs. cits.); os ilustrados historiógrafos Luciano Cordeiro e Marques Gomes, em conformidade com a informação de Duarte Pacheco Pereira, afirmam que era composta de nove caravelas e duas urcas (Luciano Cordeiro, Diogo /página 7/ d’Azambuja, pág. 28; Marques Gomes, Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo da Índia, pág. 2).
O que se tem como certo é que João Afonso capitaneava uma das caravelas.
Seria este João Afonso o navegador João Afonso de Aveiro?
Luciano Cordeiro presume que sim. No seu estudo sobre Diogo d’Azambuja lê-se o seguinte:
«No commando dos navios figuram nomes dos mais prestigiosos na descoberta e aventura marítima do tempo. Eram os capitães das caravelas, Gonçalo da Fonseca, Ruy de Oliveira, João Rodrigues Gante, João Afonso, certamente o de Aveiro, João de Moura, Diogo Rodrigues, Bartholomeu Dias, o que seis annos depois havia de dobrar o Cabo da Boa Esperança, Pedro d’Évora e Gomes Ayres. Dirigiam as urcas Pedro de Cintra e Fernão Affonso» (Luciano Cordeiro. Ibidem, pág. 28).
Albano da Silveira, investigador e historiador de grandes méritos, parece não ter sobre isso quaisquer dúvidas, pois se exprime deste modo:
«...n’este anno de 1486 João Affonso d’Aveiro, que fôra um dos capitães da armada de Diogo de Azambuja, descobria terras e assentava pazes no reino de Benim, situado além da Mina, cujo serviço elle mesmo viera relatar, trazendo como segura prova um Embaixador d’aquelle Rei» (Albano da Silveira, Memória chronológica acerca do descobrimento das terras do Preste João das Índias, cit. por Marques Gomes, lbidem, pág, 4).
Não sei se fundamentando-se apenas em João de Barros, Luciano Cordeiro e Albano da Silveira, que transcreve, se em quaisquer outras fontes, Marques Gomes afirma também, em tom de segurança:
«João Affonso antes das suas emprezas em Benim, de que resultou D. João II redobrar de esforços para encontrar o caminho marítimo da Índia, tomara parte na expedição de Diogo de Azambuja à costa da Mina em 1481 e bem assim na segunda (sic) de Diogo Cão às costas africanas em 1484» (Marques Gomes, lbidem, pág. 2).
Foi, ao que parece, reproduzindo Marques Gomes que o escritor aveirense Rangel de Quadros asseverou ter sido João Afonso de Aveiro um dos capitães da frota de Diogo de Azambuja (Rangel de Quadros, Aveirenses Notáveis, fI. 102).
Mais recentemente, o erudito Prof. Edgar Prestage, cuja autoridade desnecessário se torna encarecer, escreveu, sem quaisquer hesitações:
«Em cumprimento da sua missão, Diogo de Azambuja largou de Lisboa a 12 de Dezembro de 1481, acompanhado por alguns dos mais notáveis marinheiros e descobridores daquele tempo, entre os quais Bartolomeu Dias e João Afonso de Aveiro» (Edgar Prestage, Descobridores Portugueses, 2.ª ed., pág. 238).
Fiado nestas notícias, julguei poder afirmar-se – e disse-o algures – que João Afonso de Aveiro havia tomado parte, como capitão de uma das caravelas, na expedição de Diogo de Azambuja à Costa da Mina (Cf. João Afonso de Aveiro - Introdução a um estudo sobre o famoso navegador aveirense, pág. 16, nota 2). Revendo agora o problema, continuo nesse convencimento, mas não devo ocultar que podem opor-se-lhe algumas objecções. João de Barros informa que os capitães das caravelas eram «todos homens nobres, e criados delRey». Isto não significa que fossem «filhos de algo» ou que eles próprios houvessem conquistado – mesmo a seguir ao feito e, portanto, à data em que João de Barros escreveu – quaisquer títulos nobiliárquicos. A expressão tem o alcance da empregada, exactamente em relação aos capitães da frota, pelo cronista Rui de Pina: «homens muy honrados, e criados del Rey», semelhante à usada por Duarte Pacheco Pereira «homeës muy honrrados e».
Aqueles «homens muy honrados» eram, quase todos, simples marinheiros, a um tempo modestos e valorosos: chamava-se-lhes assim por serem homens de coragem e persistência, argutos e sabedores, extraordinariamente aprumados e verdadeiramente peritos na sua arte.
Nisto consistia a sua nobreza – e assim se compreende que o João Afonso que capitaneava uma das caravelas fosse o humilde e afamado piloto João Afonso de Aveiro.
Há um facto sumamente importante que – a confirmar-se a identidade das pessoas – parece corroborá-lo.
Em 25 de Fevereiro de 1497, um João de Aveiro, querendo obter o mestrado de determinada caravela, apresentou-se nos casos do «almazem» da Guiné e aí requereu essa mercê, na presença dos célebres escudeiros e navegadores João de Lisboa e Bartolomeu Dias, cujos testemunhos, e especialmente o deste último, invocava para prova da sua competência. Este João de Aveiro era, segundo a douta opinião do Padre António Brásio, o celebrado navegador João Afonso de Aveiro (Cf. Litoral, ano V, n.º 253, de 29-VllI-1959).
Não causa a mínima estranheza que tivesse de oferecer a prova de que era «bom piloto e bom marinheiro», pois que tal seria formalidade /página 8/ necessária ao deferimento da pretensão.
O Bartolomeu Dias indicado como garante das aptidões de João de Aveiro foi, não qualquer outro dos que então usaram esse nome, mas um dos capitães da armada de Diogo de Azambuja – e exercia, ao tempo, o cargo de «recebedor do almazem da Guiné» (Torre do Tombo, Chancelaria de D. Manuel, liv. 6, fol. 11, cit. pelo Prof. Doutor Damião Peres, lbidem, pág. 216). Muito logicamente se concluirá que podia certificar as altas qualidades de João de Aveiro pelo que dele conhecia da expedição à costa da Mina, em que ambos tomaram parte – e daí que o João Afonso referido pelo cronista seria o João Afonso de Aveiro (ou João de Aveiro) que mais tarde descobriu o reino e terras de Benim. Conclusão tanto mais aceitável quanto é certo que este não fez parte da frota de Bartolomeu Dias que dobrou o Cabo da Boa Esperança; os capitães das caravelas eram então, além daquele, João Infante e Diogo Dias ou Pero Dias; e os pilotos chamavam-se Pero de Alenquer e João de Santiago (Prof. Doutor Damião Peres, lbidem, págs. 213 e segs.).
Convém prevenir desde já que, ao contrário do que se afirma num trabalho recente (Dr. Francisco Ferreira Neves, Naturalidade e família de João Afonso de Aveiro, navegador e poeta do século XV, págs. 10 e 20), não se encontra de modo algum averiguada a época do falecimento de João Afonso de Aveiro – problema melindroso que, em lugar mais ajustado deste estudo, tentarei, na medida das minhas possibilidades, esclarecer.
Acontece, porém, que João de Barros acrescenta ao nome de João Afonso, que capitaneava um dos navios da armada de Diogo de Azambuja, esta indicação: «que depois mataram em Arguim». Ora tanto Rui de Pina como Garcia de Resende afirmam que João Afonso de Aveiro faleceu em Benim – e Elaine Sanceau, certamente porque os cronistas registaram que a terra era «de muito perygo, de doenças» ou «muyto doentia» afoita-se a precisar que ali «morreu de febres» (Elaine Sanceau, D. João lI, pág. 261).
João de Barros não o ignorava, pois repete que João Afonso de Aveiro faleceu na feitoria de Benim: «... e entre as pessoas de nome, que nella faleceram, foi o mesmo João Afonso d’Aveiro que a primeiro assentou» (João de Barros, lbidem; cf. Padre António Brásio, lbidem, vol. I, pág. 54).
Não pode, razoavelmente, confundir-se Arguim com Benim, aliás povoações bastante afastadas, nem uma morte violenta com uma morte natural – pelo que haveria de concluir-se que o João Afonso que tomou parte na armada de Diogo de Azambuja e mataram em Arguim era pessoa diversa do João Afonso de Aveiro que faleceu em Benim.
Atrevo-me, porém, a supor aqui uma das frequentes confusões de João de Barros.
O cronista indica como capitão de uma das caravelas um (João Afonso, que depois mataram em Arguim sendo capitam daquella fortaleza». Seria, portanto, posteriormente à expedição de Diogo de Azambuja que um João Afonso, capitão da fortaleza de Arguim, ali foi morto. Esta distância no tempo permite admitir um equívoco derivado da identidade dos nomes.

A hipótese ganha em consistência quando se considere que o João Afonso que capitaneava uma das caravelas era, necessariamente, um marinheiro, ao passo que o João Afonso capitão da fortaleza de Arguim seria, muito naturalmente, um chefe militar. Por via de regra, os navegadores iam a descobrir e os capitães militares a assegurar as descobertas, consolidando direitos de soberania e fixando bases de comércio (Cf. Luciano Cordeiro, lbidem, pág. 29).

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