quarta-feira, 15 de maio de 2013

" Miguel Corte Real e a Pedra de Dighton "

Cultura
Em 1951 o micaelense José Dâmaso Fragoso encontrou na América três Cruzes de Cristo  idênticas às dos Descobrimentos portugueses


Pedra de Dighton esteve metida na água das marés,  20 horas por dia,  no Rio Taunton até 1963.  Foi a água das marés que protegeram as inscrições de serem destruídas por vandalismo.

A Pedra de Dighton é um vestígio da presença portuguesa nos EUA, teoria que foi fortemente defendida pelo recém-falecido Dr. Manuel Luciano da Silva, o homem que mais divulgou a importância dos portugueses na História da Humanidade.

Segundo esta teoria, a Pedra de Dighton tem inscrições inscritas com o nome do terceirense Miguel Corte Real e o ano de 1511, além de ter as cruzes de Cristo, símbolo do Portugal dos Descobrimentos.

Em 1951 o micalense José Dâmaso Fragoso encontrou na América três Cruzes de Cristo idênticas às dos Descobrimentos portugueses
 

A Pedra de Dighton foi encontrada na foz do rio Taunton, em Berkley, Massachusetts.
A teoria portuguesa foi primeiramente defendida, em 1918, pelo Professor americano Edmund Delabarre, que estudou durante 12 anos tudo o que existia sobre a pedra, sobretudo as teorias já existentes.
Não concordando com o que existia, o Professor Delabarre, a 2 de Dezembro de 1918, encontrou na Pedra a data de 1511.
De seguida, Delabarre distinguiu as letras MI e CORT, que o fizeram encontrar o nome de Miguel Corte-Real.
Delabarre conseguiu “ver” ainda o escudo português em "V".
A teoria portuguesa veio alterar o que se pensava do desaparecimento de Corte-Real.
Miguel Corte-Real era filho do 1º capitão de Angra, João Vaz Corte-Real, que, em 1472, descobriu a Terra Nova, ao lado de Álvaro Martins Homem.
Assim, os filhos de João Corte-Real cresceram com o sentimento de aventura e, em 1500, um dos filhos, Gaspar Corte Real, partiu rumo à Terra Nova, chamada então de Terras dos Corte-Reais.
No ano seguinte, no Verão, Gaspar partiu numa segunda expedição ao Atlântico Norte, só que não regressou.
O seu irmão, Miguel Corte-Real partiu, a 10 de maio de 1502, em busca de Gaspar, não voltando mais.
A teoria portuguesa de Miguel Corte-Real começou a ganhar forma, confrontando-se datas, e defendendo-se, a partir de então, que Miguel não tinha morrido, tinha desembarcado junto ao rio Taunton e que sobrevivera.
 
Em 1951, o micaelense José Dâmaso Fragoso, professor na New York University, encontrou três Cruzes de Cristo, idênticas às usadas pelos portugueses, nos Descobrimentos, símbolo de Portugal, o que veio cimentar a teoria da presença de Miguel na América.
Contudo, desde 1928, quando fundou a Memorial Society de Miguel Corte Real, que comprou terra adjacente à Pedra, que Fragoso estudava detalhadamente a Pedra.
O estudioso fundou ainda a revista intitulada O Mundo Português.
A teoria ganhava forma e passou-se a defender que os portugueses tinham sido os primeiros europeus a colonizar a América.

Foi nesse momento que o Dr. Manuel Luciano da Silva conheceu esta teoria e iniciou os seus estudos sobre a veracidade, autenticidade e significado das inscrições, sobretudo quando, a 2 de Novembro de 1959, juntamente com Charles Dupont, o Dr. Manuel Luciano da Silva tirou fotografias da pedra, decalcou as formas de símbolos que provavam a presença do terceirense junto ao rio Taunton.
Em 1960, no I Congresso Internacional dos Descobrimentos, em Lisboa, o Dr. Manuel Luciano da Silva apresentou a descoberta da quarta Cruz da Ordem de Cristo e reafirmou a teoria portuguesa da Pedra de Dighton.
Vista panorâmica do Museu da Pedra de Dighton. O edifico que tem a janelas pequenas chame-se Pavilhão e é onde está guardada a Pedra de Dighton dentro duma vitrine de vidro.  O edifício da frente é o Museu propriamente dito e contem  os painéis e os artefactos marítimos.
Apesar de alguma apatia por parte de muitos presentes no Congresso, o Dr. Manuel Luciano da Silva lutou e conseguiu que a Pedra de Dighton fosse retirada do rio Taunton e fosse criado um museu em torno da Pedra, em Massachusetts, do qual foi director, merecendo, ao longo dos anos, o apoio de muitos investigadores.
Publicou ainda Os Pioneiros Portugueses e a Pedra de Dighton, com o objectivo de difundir a presença dos portugueses, destacando os Açores, para a História americana.

Dighton Rock State Park
Atendendo aos vários estudos sobre a teoria, a Pedra de Dighton prova que Miguel Corte-Real chegou à América e que viveu lá, pois vários relatos deste período falam da presença de homens brancos, que chegaram àquelas terras “numa casa de madeira”, ou “num pássaro”, tendo-se estabelecido com os índios. Miguel Corte-Real marcou na rocha o nome, a data e as cruzes da Ordem de Cristo, para que alguém visse que ali tinha estado um português.
É pouco provável que tenha encontrado Gaspar, pois se assim fosse, teria deixado inscrito este facto na rocha.



Se pensarmos na data de 1511, não haveria muitos navegadores capazes de explorar, naquele momento, estes territórios tão bem como Corte-Real, visto a família já ter estado naquelas terras e de ter conhecimentos de náutica capazes de navegar até lá.
O Dr. Manuel Luciano da Silva morreu, mas o seu legado continua vivo.
A teoria tem sido aceite e divulgada por um crescente número de investigadores.
Um dos objectivos do antigo Director do Museu da Pedra de Dighton foi divulgar a teoria e já existem várias réplicas espalhadas pelo país, menos em Angra, um dos seus sonhos.
Apesar da morte do Dr. Manuel Luciano da Silva, a réplica foi concluída recentemente e será trazida para a Terceira, para ser colocada no Terceira Mar Hotel, com apoio dos Bensaude


É importante que se relembre o nosso passado glorioso e que se divulgue a vida, os feitos e os protagonistas da nossa História.
Celebrar os Corte-Reais, é relembrar o que demos ao mundo e o que ainda podemos dar, mas temos de gostar do que é nosso e preservar a memória e a História do nosso povo.
Não podemos continuar a esquecer o papel e a história da Pedra de Dighton e dos Corte-Reais… pois é o exemplo maior da nossa importância para a História da Humanidade… e do nosso ADN insular e “açórico”. (Título original: Pedra de Dighton - Vestígios da História)
FRANCISCO MIGUEL NOGUEIRA
Historiador e Investigador
Natural da Agualva, Terceira, residente na Praia da Vitória


GASPAR CORTE-REAL pelo Almirante Gago Coutinho (Separata do BOLETIM DA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA  11- Novembro 1933)

E' tradição muito antiga, repetida pelos cronistas e geralmente aceite, que Gaspar Côrte-Real, cerca de 1500, descobriu a Terra Nova,.
Da última das suas viagens não voltou, e os que o foram procurar tão pouco trouxeram notícias dele.
Para investigação das suas viagens apenas dispomos de poucos documentos, e esses incompletos, exagerados, ou mesmo contraditórios.
Por um lado, fazia-se segredo da navegação ocidental, possivelmente na zona de Espanha; por outro lado, ele não as pode vir esclarecer.
Partirei do estudo desses escassos elementos, assim como da aplicação do princípio geral -tantas vezes posto de parte na História da Navegação -princípio que é o de não esquecer que as viagens de descobrimento, seja das ilhas, do continente americano, ou do caminho marítimo para a Índia, foram realizadas em navios de vela, dependentes das rotas oceânicas que aos navios impõem os ventos gerais,
O presente artigo foi objecto de uma comunicação apresentada pelo eminente geógrafo e glorioso almirante Gago Coutinho, na sessão comemorativa do dia dos Corte -Reais em 2 de Julho do ano findo na S. G. L. tanto no Passado, como actualmente aos nossos veleiros. Além disso, é sabido, pelos roteiros da Índia e outros, que havia nos primitivos pilotos a preocupação de navegar pelas regiões cujo  ventos mais probabilidades ofereciam de assegurar a derrota. Assim, apesar de no inverno não ser essencial ir buscar barlavento à Guiné, para depois, com mais segurança, se monta a costa do Brasil, era aconselhada a todos os navios de vela a bordada de Cabo Verde ao Sueste, até às alturas da Serra Leoa.
O desconhecimento desses princípios levou os antigos historiadores a grandes erros: tal é o que se passa com Américo Vespúcio, que foi considerado grande descobridor, quando das suas cartas se conclui até que ele talvez nem fosse náutico I Enfim, para estudar as viagens de descobrimento, temos de nos imaginar dentro delas, dispondo apenas dos recursos da época.
E, nesta orientação, é de crer que Gaspar Côrte-Real, na sua primeira viagem ao Ocidente, ignorando o regime dos ventos ao Noroeste dos Açores, tivesse seguido o critério náutico mais prudente, qual é o de procurar ganhar Oeste indo pelas latitudes ao Sul das Canárias, onde dominam os ventos entre Norte e Leste, neste caso favoráveis.
* * * No fim do século XV, era em Portugal que se encontravam os mais experientes navegadores de alto mar. Porque havia mais de 80 anos que, com sucesso, os mareantes portugueses se ocupavam nas trabalhosas viagens de descobrimentos de além mar tal sucesso animou outras empresas, e, embora nos faltassem recursos para ocupar todo o mundo, o facto é que as viagens de Colon às Caraíbas mais excitaram os esforços portugueses.
De facto os nossos mareantes tinham-se provado capazes das mais difíceis viagens: Desde que, em 1470, se cortara o Equador, a navegação do Atlântico tornara-se-lhes familiar. Toda a costa de África fora rapidamente reconhecida; em 1488, Bartolomeu Dias, passando além do Cabo da Boa Esperança, entrava no Oceano Índico; e, em 1497, Vasco da Gama, depois da travessia do Atlântico Sul, em arco pelo largo, navegando três meses sem ver terra - o que ainda hoje seria considerado uma viagem grande, ia demandar o Cabo, e encontrava o caminho marítimo, que ligava Lisboa à Índia.
Por outro lado, era antiga a suspeita da existência de terras ao largo dos Açores, fundada, não só na tradição, como também no testemunho dos detritos vegetais que as correntes marítimas para lá arrastavam.
Foi esta suspeita que motivou as numerosas concessões de cartas régias, para navegar, não à procura do caminho da Ásia corno Colon propusera a D.João II mas das terras ou ilhas do Ocidente, a que se dera o nome de Brasil, Antília e Sete Cidades.
 Não sabemos que resultado prático tiveram essas tentativas, mas não eram auxiliadas pelos Reis, desinteressados dessas terras longínquas. E mais tarde, depois do Tratado de Tordesilhas, a convicção geral era que, no hemisfério Norte, nada nos ficara aquém do meridiano, ou J'aya entre a parte do Atlântico reservada a Portugal, e aquela que fora abandonada à Espanha.

* * *
Esta mesma crença nas terras de Oeste levou um veneziano, residente em Inglaterra, João Cabotto, a tentar, no fim do século XV, .a descoberta da terra das Sete Cidades
Sobre as viagens de João Cabotto, sabe-se muito menos que a respeito das dos Côrte-Reais.
As suas viagens foram duas. 
Da primeira vez partiu de Bristol com um pequeno navio de 18 homens de tripulação, em .Maio de 1497.
Conta-se que começou por navegar da Irlanda para o Norte, até que encontrou gelos flutuantes. Só então aproaram a Oeste, tendo navegado 400 ou, segundo outra informação, 700 léguas. Viu-se terra, da qual foram costeadas 300 léguas.
O clima era temperado, e havia muito peixe. Desembarcando, não encontraram gente, mas só vestígios dela, como armadilhas de caça e uma agulha de fazer rede de pescar. As marés tinham pequena amplitude. De volta para Inglaterra avistaram duas ilhas por estibordo; chegaram  com três meses de viagem.
É de crer que os rumos indicados sejam da agulha magnética; mas, com o importante nordestear que ela tinha naquela época nas regiões a Oeste da Irlanda, não é fácil conciliar esta navegação, que deveria ser nos mares do Norte, muito frios, com a informação sobre o clima temperado.
João Cabotto, depois do sucesso desta primeira viagem,em que se supôs ter atingido as Sete Cidades propôs-se dirigir outra, continuando ao logo da terra já descoberta, sempre para Oeste, até se aproximar da ilha Cipango que ele situava na região equatorial, e que supunha rica de joalharia e de especiarias.
Partiu, de facto, no verão de 1498 com carta de Henrique VII, e parece que com cinco navios, de armadores particulares; ignora-se quantos navios voltaram, quando foi, e onde estiveram.
Somente, por um despacho de 25 de Junho de 1498, do Embaixador Espanhol em Londres, Pedro de Ayala, consta que Cabotto tinha feito um mapa mundo tendo partido em busca das ilhas do Brasil e das Sete Cidades, naturalmente marcadas por ele no seu mapa. Ligando-se com esta informação, chegou até nós o planisfério do piloto espanhol La Cosa, feito em 1500.
Neste mapa, entre as longitudes 30 e 60 graus W de . Greenwich., aparece desenhada uma costa, corrida de Leste a Oeste, e ligada com uma outra costa vaga, a qual passa cerca de 150 léguas ao Norte de Cuba.
Esta última parte da carta não se pode identificar com verdade, e corresponde portanto a uma conjectura; mas as 300 léguas em Leste, da mesma costa, têm alguma nomenclatura e cinco bandeiras inglesas, além da legenda, Mar descoberta por ingleses.
Daqui se conclui que o cartógrafo teve informações sobre a descoberta de uma costa, anteriormente a·1500, provavelmente por João Cabotto.
Mas o desenho é tão vago que não deve corresponder a um reconhecimento hidrográfico. 
Nota-se que não há nesta carta indicação da existência, nem da ilha da Terra Nova, nem da península da Flórida.
Donde se pode inferir que o navegador só avistou terra fora daqueles dois pontos. 
Nota-se mais, com admiração, que, apesar de a terra ao Norte de Cuba estar toda francamente a Oeste do marco de Tordesilhas, lá estejam, em um mapa feito por um espanhol, bandeiras inglesas indicando mais alguma coisa que a simples descoberta. Como explicá-lo?
Enfim, encontram-se mais notícias sobre as viagens de João Cabotto, em Pedro Mártir, que, cerca de 1511, escreveu as Décadas.
Nelas reproduz informações recebidas de um filho de João Cabotto, Sebastião Cabotto, que foi piloto-mor em Espanha.
Este contou que, tendo partido com dois navios e trezentos homens navegou tanto ao Norte que em Julho havia gelos flutuantes, e o dia durava quase 24 horas.
A terra estava livre, e foram-na contornando para Oeste e um pouco para o Sul, até atingir a latitude de Gibraltar, e a longitude de Cuba.
O país tinha alguns habitantes, e também ursos.
No mar havia tanto peixe, principalmente Bacalhaus que por vezes retardava a marcha dos navios! · Este mesmo Sebastião Cabotto, em 1544- quando toda a costa atlântica da América já era conhecida fez um mapa, ainda existente em Paris, no qual escreveu «prima terra vista» em um cabo, que é provável identificar com o actual Cabo Breton.
Mas não se pode confiar nas suas declarações de maravilhosas descobertas, por ele ser reconhecidamente mentiroso e desonesto, a ponto de se atribuir as navegações reconhecidamente de outros, como a do estreito de Magalhães, e até as do próprio pai, João Cabotto.
Não nos restam pois elementos para poder afirmar por que pontos da América teria passado Cabotto, não havendo tão pouco indicação de ele ter sido o descobridor da Terra Nova.
 * * * 
No estudo das viagens de Gaspar Côrte-Real começaremos por analisar os documentos que sobre elas nos restam. O mais antigo, de que dispomos, é a carta datada de 12 de Maio de 1500, de doação de D. Manuel a «Gaspar Corterreall », da jurisdição sobre quaisquer ilhas ou terra firme que, pela 'ob'l·a que que?' ainda agora conthenuar•, novamente achar. Nesta carta fez-se referência a trabalhos anteriores de Gaspar Côrte-Real, com homens e navios, à sua custa, para o descobrimento de « algumas ilhas e ter a firme • . Não podemos deixar de deduzir daqui que obedecendo ao mesmo espírito de forte suspeita sobre a existência de terras no Atlântico Ocidental, desde a concessão feita por D. Afonso V em 1457, ao Infante Fernando, até às concessões de 1475, a Telles, e a de 1489. a ,João do Estreito e Dulmo- Gaspar Côrte-Real já, antes de 1500, tentara também a navegação em busca das terras do Ocidente. 
Como estes navegadores são em espírito açorianos, deduz-se que era exactamente nos Açores onde a suspeita das terras de Oeste era. mais forte, fundada naturalmente no facto de lá irem dar à costa frequentes vezes detritos vegetais, que a corrente do Gulf-Stream trazia. do Golfo do México. Daquela carta de D. Manuel pode deduzir-se que Gaspar CôrteReal foi o primeiro navegador ocidental bem sucedido nas pesquisas, porque a sua insistência em as continuar à sua custa é sinal de já ter encontrado algumas terras novas. 
Um outro documento, mencionado por Varnhagen em 1854, revela-nos que, em 21 de Abril de 1501, G. Côrte-Real recebeu dos fornos nacionais 72 quintais e meio (290 arrobas) de Bizcoyto, a que hoje se chama bolacha de embarque. Côrte-Real só partiu, portanto, cerca de fins de Abril, para a viagem de 1501, da qual não voltou. Aquela quantidade de biscoito, dividida por três navios, aos quais não podemos atribuir uma tripulação total muito inferior a cem pessoas, representa mantimentos para cerca de três meses; de onde se deduz que, desta vez, Gaspar Côrte-Real já não ia à aventura, mas em demanda de terras de recursos, conhecidas.
Há ainda no  Esmeraldo de Duarte Pacheco, a vulgarizada afirmação de que, em 1498, D. Manuel «mandou descobrir ha parte ocidental», onde há uma grande terra firme com muitas e grandes ilhas adjacentes, que se estende a mais de 70 graus de latitude Norte e, no hemisfério Sul, a mais de 28 graus, sem se lhe conhecer o fim, está situada «além todo o oceano, ao Ocidente de Portugal e de terra, antes não navegada, pelos navios de D. Manuel e, dente em Veneza, uma carta na qual se refere a dois dos navios de Gaspar Côrte-Real chegados a Lisboa poucos dias antes. Relata que se tratava das caravelas que no ano passado (1500) D. Manuel enviara à descoberta de uma terra ao Norte. Fora encontrado a 2000 milhas de Lisboa, entre o Noroeste e o Oeste, um país completamente desconhecido, do qual teriam percorrido 600 ou 700 milhas de costa, sem lhe encontrar o fim, pelo que julgaram tratar-se de terra firme. Esta terra seria continuação de outra encontrada , l'anno passato, (1500 ?) ao Norte,.na qual não teriam podido desembarcar por causa dos gelos. Por indicação dos grandes rios encontrados, os navegadores julgam-na, não uma ilha, mas um grande continente, muito povoado, ligado com as Antilhas e o Brasil. Aqueles navios teriam trazido para Lisboa cerca de cinquenta pessoas, entre homens, mulheres e crianças, de aspecto semelhante a ciganos. Pasqualigo faz referência  a duas viagens de 1500, uma, na qual se descobriu terra ao Norte, e outra, a dos navios chegados em 1501, com índios. Deve haver confusão porque sabemos que em 1500 houve só uma viagem, e em 1501 outra, tendo ambas sido iniciadas no verão e tendo durado poucos meses. Existia também, em Lisboa, possivelmente como comerciante, um italiano, Alberto Cantino, que escrevia ao Duque de Ferrara. Na sua carta, de Outubro de 1501, conta a chegada dos navios de Côrte-Real, enviados ao Norte, nove meses antes. A relação que faz da viagem, é em parte fantástica: de Lisboa teriam navegado durante quatro meses seguidos na mesma direcção; só no quinto mês encontraram massas de gelo que os não deixam prosseguir.
Depois navegam mais três meses para Noroeste e Oeste, até que, entre estas duas direcções, avistaram um grande país, com muitos rios grandes.
Em terra havia frutos excelentes e pinheiros de tal dimensão que seriam grandes para mastros do maior navio. Havia lobos, tigres, etc. Apoderaram-se de cerca de 50 habitantes, que Cantino viu em Lisboa.
O navio teria feito a viagem de volta em um mês, sendo a distância directa, até Lisboa, de 2800 milhas. Aparte o exagerado dos sete meses ao mesmo rumo, sem tocar em terra; ambos estes correspondentes julgam que os navios de Côrte-Real voltavam de uma viagem iniciada, ou no fim de 1500 ou no princípio de 1501, quando é de supor que Gaspar Côrte-Real, já conhecedor de que as terras livres para os descobridores portugueses se encontravam em altas latitudes, não iria iniciar as suas viagens no inverno, mas sim no verão.
Assim aconteceu também com as viagens de 1502 e 1503 em busca de Gaspar Côrte-Real e de Miguel Côrte-Real.
Parece que ambos aqueles correspondentes italianos foram vitimas de informações falsas, sendo a viagem de 1500 aquela em que se descobriu  na terra defendida por gelos a Gronelândia das cartas da época -e a de 1501 aquela da qual consta o abastecimento de bolacha em Abril, e que era já para uma terra em parte conhecida, a Terra Nova dos já citados mapas da época. 
Mas há um outro documento que fornece informações mais concretas, por serem geométricas, sobre as viagens à América do Norte, anteriores a 1502. 
Aquele mesmo negociante italiano, Alberto Cantino, pelo qual se .conhecem informações, sobre as viagens portuguesas, dirigidas ao Duque Ferrara, enviou-lhe de Lisboa, em fins de 1502, um grande planisfério de dois metros de comprimento que ainda hoje existe - no qual, há maneira usada nos portulanos, estava desenhada a parte então conhecida da Terra. 
O seu título é: «Carta da nauigar per le isole nouamente tr ... » O portulano foi, sem dúvida, desenhado em Lisboa. Ele inclui pretensas descobertas espanholas a Leste do Amazonas, porque no Cabo Santo Agostinho estão desenhadas as quinas e a Nomenclatura -espanhola está toda para Oeste do meridiano de Tordesilhas; l'e produz a hidrografia portuguesa, derivada das viagens de Vasco da Gama, de Cabral, com a volta a Lisboa de Gaspar Corrêa, e até a viagem de 1501 ao Brasil, pois além da Baía de Todos os Santos  apresenta ao Sul um cabo correspondente ao Cabo Frio, e a ilha Quaresma ? (Fernando Noronha). Neste portulano são frequentes as expressões portuguesas, e são várias as legendas em português. Entre as Antilhas, a nota 'Has antilhas dei Rey de Castella », é também uma expressão essencialmente portuguesa, porque foram os portugueses, e não Colon, quem primeiro aplicou àquelas ilhas o nome actual, derivado da Antília dos mapas antigos. Não podemos portanto duvidar de que o portulano, chamado de Cantino, concentra o que se sabia em Lisboa sobre as viagens, quer de nacionais quer de estrangeiros. Mas o que lá aparece de novo não pode deixar de ser considerado como resultado da recente hidrografia portuguesa, e não de viagens espanholas clandestinas, das quais em Lisboa não podíamos conhecer o que faziam espanhóis, os quais, de resto, nessas viagens sem licença, não faziam hidrografia. A ilha de Cuba foi copiada das cartas de origem espanhola, como a de La Cesa, pecando a sua latitude pelo mesmo erro de La Cosa e de Colon, pois «é tan alta como en Castilla'. No portulano está também, às 370 léguas previstas pelo tratado de Tordesilhas, desenhado o meridiano que separa as duas zonas de expansão marítima, definido pela expressão portuguesa: «Esta he o marco dantre castella e portuguall » Três terras aparecem pela primeira vez, desenhadas neste portulano: 
-Ao Norte a Gronelândia) cuja costa foi reconhecida na extensão de 350 léguas. A sua forma aproxima-se da verdade. A latitude da sua ponta sul é 63°, ao passo que a real é 60°. Esta terra tem as quinas e uma legenda, que mostra tratar-se de uma descoberta portuguesa, não tendo os mareantes lá desembarcado. Afirma tratar-se da. ponta da Asia.
-A Terra Nova) cuja latitude real varia entre 47° e 52°, ao passo que no mapa ela aparece aumentada a mais do dobro, pois varia. entre 50° e 62° Norte. Esta terra -já com forma de ilha- está toda desenhada para Leste do marco quando realmente a Terra Nova tem a sua costa mais Leste na longitude 53 graus, isto é, 5 graus a Oeste da jaya. Na dúvida antiga sobre as verdadeiras longitudes, assim mandava a boa política; uma legenda do mapa, conta que foi Gaspar Côrte-Real quem a descobriu, tendo mandado a. Portugal « homes e mulheres», mas freando lá com outro navio; nunca mais veio. 'Aqui há muitos mas tos». De facto, é esta a primeira vez que a Terra Nova aparece cartografada como ilha, como ela realmente é. A sua nomenclatura é portuguesa, como o mesmo Cabo Raso de hoje, na ponta Sueste. 
I- Enfim, ao Norte da ponta Oeste de Cuba, começa no mapa uma terra, a qual, tanto pela sua nítida identificação com a península da Flórida, como pela abundância de nomes, sugere forte indicação de uma visita real de navios ao continente Norte-Americano. E o Cabo que no mapa corresponde à ponta da península, indica que se trata de uma viagem de inverno. Enfim, as setenta léguas, que a península tem de Norte a Sul, cito aproximadamente a diferença das latitudes reais da Flórida.
As três saliências características da costa ao Norte da Flórida, os cabos Haterras, Cod e Breton, têm no mapa são visivelmente a mesma posição e os nomes: Cabo Santo, Cabo da boa ventura e Costa del mar bravo
Outros pontos têm também nomes portugueses, como Cabo do Montinho, Costa Alta, etc. 
O desenho da península da Flórida, com as suas setenta léguas, de Norte a Sul, aproxima-se da dimensão real; o mesmo acontece à diferença de latitude entre os dois pontos extremos da costa norte-americana da carta de Cantino, que é de 21 graus em lugar de 22 graus. O erro capital do mapa antigo está na latitude da ponta Sul da Flórida realmente de 25 graus, em lugar dos 38 de Cantino. Da mesma maneira, está errado o desenho da costa ao Norte da Flórida, a qual está traçada Norte-Sul, quando ela realmente corre ao Nordeste. O crítico é levado a concluir que os navegadores que, de facto, visitaram aquela costa e trouxeram dela informações verdadeiras, nunca poderiam cair em tais erros. 
Assim, apesar da origem portuguesa da carta, ela não deve ter sido copiada dos mapas oficiais, os quais havia forte razão para reservar: aquela navegação fora, em grande parte, evidentemente além do meridiano de Tordesilhas, e portanto no hemisfério reservado à Espanha. 
A cópia, da qual os desenhadores particulares extraíram o mapa de Cantino e os outros posteriormente enviados para o estrangeiro, derivou de informações não oficiais, ou provavelmente tendenciosas; e assim:
-A Terra Nova foi deslocada cerca de cem léguas para o lado da Europa, afim de ficar toda dentro da zona portuguesa;
- A Flórida e a costa americana foram arrumadas ao Norte de Cuba, pelo que ficaram sofrendo do mesmo erro espanhol nas latitudes das Antilhas.
E a costa girou para Norte, talvez para a afastar da Terra Nova, a fim de dar aos primeiros descobridores espanhóis a impressão de que a Terra Nova, exageradamente a leste da Flórida, era sem dúvida portuguesa.
Qual a origem destas informações, sobre um reconhecimento, só conhecidas em Lisboa? Não se pode tratar da viagem de João Cabotto, da qual, nem nos mapas de La Cosa, nem nas suas notícias, há referência à Terra Nova ou à Flórida. Tão pouco podem aquelas informações derivar da famosa primeira viagem de Vespúcio, em 1498, a qual, pela sua completa inverosimilhança, está fora da questão.
De resto, não se encontra possibilidade de Vespúcio ter passado para o Norte das Bermudas; e, para mais, tendo a viagem sido feita, ou inventada, a bordo de um navio espanhol, não se poderia ignorar em Espanha a existência da península da Flórida, que falta no mapa de La Cosa.
E tanto assim é, que ·a costa em discussão, apesar de estar cerca de 300 léguas a Oeste do marco, não tem bandeiras espanholas. Ainda mesmo que os descobridores tivessem sido navegadores espanhóis clandestinos, não deixariam de informar o Rei de Espanha àcerca de tal sucesso, pelo qual ele os premiaria. De resto, é certo que esta parte da costa era desconhecida em Espanha, porque a Flórida só foi visitada por Ponce de Leon em 1512, sendo a visita considerada como descoberta (oficial), recebendo então a costa nomes geográficos diferentes dos do mapa de Cantino. De tudo se conclui que esta parte da costa norte-americana, incluindo a Flórida, só era conhecida em Lisboa, onde foi copiada para Cantino, não provavelmente de padrão oficial, mas de decalques menos regulares. 
E ela tinha sido descoberta, não por espanhóis ou outros, mas por portugueses. E, sem grande esforço de generalização, pode conjecturar-se, com toda a probabilidade de acertar, que a Gronelândia, a Terra Nova, a costa da nova Escócia e, enfim, a Flórida, são descobrimentos em resultado dos esforços do único navegador português que, no Atlântico Norte, se mostrou capaz de viagens tão extensas: Gaspar Côrte-Real.
Em resumo: 
Chegaram até nós informações de haver na península antigas suspeitas, muito fundamentadas, da existência de terra a Oeste. Daqui se originaram várias concessões de licenças para ir descobrir essas terras.
Já em 1452, Diego de Teive, navegara ao Sudoeste dos Açores, sem nada lá encontrar. 
Em Maio de 1486, Fernão Dulmo e João do Estreito obtiveram de D. João lI "mercee e real doacam das -ilhas ou terra firme que lograssem descobrir, navegando além dos Açores cinquenta  ou mais dias". Daquelas mesmas suspeitas resultaram as viagens de Cabotto e de Colon. Mas estas viagens, muito pelo Sul, não desfizeram as suspeitas portuguesas acerca das terras ao Ocidente dos Açores.
Contudo, sabia-se que Colon navegara mil léguas além das Canárias, e só aqueles que estivessem decididos a uma navegação tão larga poderiam tentar a aventura. E ainda teriam de navegar por conta própria, porque o Rei se desinteressava das navegações que não diziam respeito ao comércio da Índia, ou um pouco ao da Terra  de Santa Cruz.
Para mais, o tratado de Tordesilhas, limitando a zona dos descobrimentos portugueses, no Atlântico, pelo meridiano que passava só 370 léguas a Oeste das ilhas do Cabo Verde, reduzia as esperanças de sucesso no Atlântico Norte aos navegadores portugueses.
Eis a explicação de só haver indicações seguras de um navegador português Gaspar Côrte-Real,  ter tentado depois de Colon a aventura da busca das terras a Oeste dos Açores. 
Dominado Gaspar Côrte-Real por esse antigo desejo dos açorianos, ele teria decidido clandestinamente, por causa do Tratado com a Espanha, tentar também a viagem ao Ocidente, esperançado em  encontrar terra ao Norte das Antilhas - as quais se sabia estarem a mais de quinhentas léguas dos Açores no campo livre, onde não estavam operando os navegadores espanhóis, entretidos na exploração do continente descoberto por Colon em 1498, que é hoje a América do Sul
Em Portugal sabia-se que eles estavam passando todos por Cabo Verde, donde rumavam ao Sudoeste.
O vestígio mais acentuado que existe dessas viagens anteriores a 1500 é o que se deduz da carta datada de 2 de Maio de 1500, pela qual D. Manuel, concede a Gaspar Côrte-Real, jurisdição sobre todas as ilhas que ele descobrir, reconhecendo D. Manuel que ele «em dias passados trabalhou à sua custa com navyos e homes » para  busca e descobrimento, algumas ilhas e terra firme. 
Houve portanto uma viagem, provavelmente no ano anterior, da qual o sucesso foi fraco, embora Côrte-Real tivesse descoberto terras. 
Parece subentender-se que tais terras eram além do marco e portanto inúteis a Portugal.
Não deveria Côrte-Real ter hesitado em buscar terras ao Norte das Antilhas (Caraíbas), por se saber que os espanhóis andavam explorando ao Sul. 
Nesta primeira viagem, ignorando-se ainda qual o regime dos ventos nos mares de Oeste, e conhecedor Côrte-Real, como os açorianos, dos ventos ali de Oeste dominantes, e dos temporais que com frequência de lá vinham, natural era que, prudentemente, partisse no fim do inverno, para contar com a boa estação de primavera e de verão, para as suas explorações do mar de Oeste até então desconhecido. 
Além disso, ele não poderia deixar de obedecer à antiga norma, que fez a superioridade das navegações portuguesas: procurar o mais vantajoso caminho marítimo para a região onde se pretendia buscar terras. Assim, Côrte-Real começaria por ganhar Oeste pelas latitudes ao Sul das Canárias, onde era sabido que se encontravam ventos dentre Norte e Leste, que permitem rapidamente navegar para o Poente. 
Foi provavelmente desta maneira que ele foi encontrar terra ao Norte de Cuba, a Flórida; tê-la-ia então ido contornando por a julgar uma ilha, dando-lhe a nomenclatura que hoje lemos na carta de Cantino. A' ponta da Flórida teria dado o nome - tão repetido nos mapas antigos -Cabo do fim de .Abril.
Ele teria pois tentado dar a volta àquela terra que supunha uma ilha; mas afastava-se para Oeste, pelo golfo do México, e, afastado já algumas centenas de léguas do meridiano, ter-se-ia visto obrigado a desistir e a voltar para Oeste. Cem léguas ao Norte daquele Cabo de Abril a costa começou francamente a orientar-se para Leste, e Côrte-Real tê-la-ia contornado a seguir, na, esperança dela atingir o meridiano em que o Atlântico voltava a ser português. Ele teria assim ido reconhecendo a costa do Continente, coberta pela nomenclatura da carta de Cantino; e, navegadas cerca de quinhentas léguas, teria sido atingido o actual Cabo Breton, ao qual teria chamado costa do  bravo
Ali de novo a terra virava para Oeste e é natural que Côrte-Real, depois de a seguir alguns dias, a tivesse abandonado, encontrando depois a costa Sudoeste e Sul da Terra Nova, até ao Cabo Razo
Mas a viagem ia adiantada, e dela já resultavam elementos, visto que havia a impressão de se ter chegado a terras novas no mar português. Escasso, provavelmente, de recursos, Côrte-Real iniciara a viagem de regresso. 
Nesta viagem, feita já no verão, ele teria reconhecido os ventos então dominantes ao Noroeste dos Açores, os quais, sendo do Sudoeste, permitiam fazer por ali uma nova viagem de exploração; e reconhecera também que a terra de Oeste, donde vinham parar aos Açores os detritos vegetais, existia, sim, mas estava duzentas ou trezentas léguas além da 't'aya. 
Embora descoberta por portugueses, aquilo era terra espanhola! 
O resultado desta primeira viagem, fora prometedor: interessara D. Manuel, que lhe deu a carta de jurisdição, sem receio dos protestos de Espanha, por se tratar de buscar terras das que, pelo Tratado de Tordesilhas, eram portuguesas. E os amigos de Gaspar Côrte-Reais, entre os quais seu irmão Miguel, forneceram fundos para o armamento dos navios. Assim ele teria partido de novo em Maio de 1500, com duas caravelas aquelas a que se referem Galvão e Pasqualigo- no bordo do ocidente. 
Porque desta vez, já conhecedor dos ventos gerais a Oeste dos Açores, e partindo no verão, Côrte-Real já conhecia as possibilidades da viagem directa e não pelo Sul para o ponto da costa onde no ano anterior interrompera. o seu reconhecimento, costa. que não ficava a. Oeste, mas a. Noroeste dos Açores. 
É esta a derrota hoje usada pelos lugares da pesca do bacalhau, que partem, geralmente, também no princípio de Maio. Mas uma persistência de ventos de Sudoeste, vulgares ali no verão, tê-lo-ia obrigado a prolongar a bordada do Noroeste, e assim Gaspar Côrte-Real fora descobrir a costa Sueste da. Gronelândia, à qual se referem as cartas de Pasqualigo e de Cantino, e que no mapa deste último aparece como descoberta. portuguesa.. 
Essa terra. era defendida por gelos só dela se tendo aproveitado a água. doce. 
Convencidos de que esta terra, até ali desconhecida, estava na zona atlântica portuguesa foram-na seguindo até à ponta Sul e, contornando-a., continuaram para. o Noroeste. 
Mas era uma terra desolada, e muito fria para. poder ser aproveitável. 
Depois de a terem acompanhado durante cerca de trezentas léguas e talvez mesmo sem lá se ter desembarcado, de acordo com o que se lê na. carta de Pasqualigo -convencido de que se tratava de uma. ponta da .Ásia (vindo, não do Ocidente, mas do Norte, por cima do pólo ), Gaspar Côrte-Real decidiu virar ao Sudoeste, em busca da continuação da. terra encontrada no ano anterior.
Despreocupado da fantasia de um novo caminho para a. Índia por ali, à mercê dos ventos tão variáveis, que ali dominam, rapidamente Gaspar Côrte-Real teria atravessado o actual estreito de Davis e, após navegação de menos de cem léguas, a costa do Canadá, hoje chamada do Labrador teria sido descoberta. 
Como esta costa corria a Sueste, aproximava-se do campo das descobertas aberto aos portugueses. 
E seguindo ao longo dela, da costa Leste da actual New-Foundland-de acordo com o mapa de Cantino, e com as numerosas informações antigas, nos cinquenta graus de altt6'l'a~ de António Galvão -a Terra Nova, depois chamada Terra dos Côrte-Reais, teria sido descoberta, se é que a sua costa do Sul não o fora. já, pelo mesmo Gaspar Côrte-Real, na sua viagem do ano anterior. 
Ali encontravam-se recursos, frutas, muitos rios, madeira boa para mastros e vergas. Mas o inverno aproximava-se, e de novo Gaspar Côrte-Real se viu obrigado a retirar para os Açores
Desta vez trazia melhores informações: tudo que havia a Oeste fora reconhecido, desde a Flórida à Gronelândia, nas suas duas viagens. 
Aquela terra que mais probabilidades tinha de poder pertencer a. Portugal à qual ele pôs o nome de Terra Verde- era de clima relativamente temperado, era povoada e susceptível de ser ocupada por portugueses. O enigma do Ocidente, da Ilha das Sete Cidades, estava agora desvendado! 
Depois deste resultado concreto, no ano seguinte, 1501, 'desejoso de descobrir mais desta província e conhecer melhor o modo do trato delan, partiu de Lisboa Gaspar Côrte-Real, em Maio, conforme conta Damião de Goes, e embora contra as informações de Cantino e Pasqualigo, que ligam as duas viagens de 1500 e 1501, falando em uma fantástica navegação de sete meses sem local nem terra. Levava, como se conclui do recibo ainda existente, bolacha para três meses, para os três navios que o acompanhavam. Já não ia a descobrir, mas a explorar a costa, e podemos admitir que, sabido que a Ilha da Terra Nova  toda desenhada a oriente do meridiano de Tordesilhas, no mapa de Cantino tem de perímetro apenas trezentas léguas, Gaspar Côrte-Real, pelo menos desta vez, a teria contornado completamente. 
Mas da viagem de 1501 só dois navios voltaram, com meio cento de índios, habitantes de uma terra a cerca de 600 léguas de Lisboa, e que era 'continuação da terra descoberta o ano passado ao Norte', escrevia Pasqualigo. 
Eram estes os primeiros norte-americanos que vinham à Europa. 
Gaspar Côrte-Real nunca mais voltou; e, procurado em 1502, por seu irmão Miguel- assim como os dois foram procurados em 1503, por ordem de D. Manuel tão pouco houve notícias deles.Somente, da insistência com que os buscaram, podemos deduzir que se sabia onde tinham ido. 
Recentemente, perto de Providence, apareceu uma inscrição na Pedra de Dighton- da qual o professor americano Delabarre concluiu que Miguel Côrte-Real ali estivera governando os índios. 
É' de conjecturar que ele lá se demorasse em busca do irmão, e talvez continuando as suas explorações, de acordo com a carta de D. Manuel, de Janeiro de 1502, que lhe concedia participação nas descobertas do irmão, e nas outras que fizesse. U
Um naufrágio tê-lo-ia impedido de voltar; e a sua influência e os seus recursos poderiam tê-lo feito rei de uma colónia de índios, vassalos de Portugal. 
Se a descoberta do continente norte-americano, por ser mais de 370 léguas a Oeste do Cabo Verde, foi inútil para Portugal; se a descoberta da Gronelândia com o seu clima, os seus nevoeiros e os seus solos, foi desprezada. . . já o mesmo não aconteceu com a chamada Terra dos Corte-Reaes- hoje New Foundland-terra Nova que, durante cerca de um século, teve estabelecimentos portugueses, e foi uma capitania nossa. 
Mas Portugal não podia açambarcar o Mundo: esta (descoberta da América do Norte, por Gaspar Côrte-Real foi-nos inútil, porque a América Portuguesa era o Brasil, e colossal foi a obra que, durante três séculos, os portugueses lá realizaram. 
Assim concluo este meu ensaio de aplicar ao estudo das viagens dos Côrte-Reais a técnica náutica. 
E solicito dos estudiosos a sua atenção, para as conjecturas com que contribuo para a Homenagem que devemos a esses grandes navegadores, dois dos muitos que não voltaram a ver a Serra de Sintra, sem que, contudo, os seus descobrimentos, nos quatro quadrantes do Atlântico, deixassem de contribuir para nossa Glória e Grandeza do pequeno pais em que nasceram.


Portugal. Lisboa, 1933- Maio e Junho. Gago Coutinho

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