segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"descoberto pelos Portugueses até prova em contrário"

( em actualização......)

Artigo da autoria do Dr. Manuel Luciano da Silva, foi editado em Setembro de 1974 no seu livro " Os pioneiros Portugueses e a Pedra de Dighton". Refere-se à "Era dos Descobrimentos Marítimos Portugueses":
Muitos historiadores têm por vezes empregado erradamente o verbo "descobrir", considerando a descoberta uma rua de sentido único, que não é: 
Descoberta: implica movimento nos dois sentidos.
Se o navio parte da Europa com o fim determinado de descobrir terras desconhecidas e nunca mais regressa, nada foi descoberto.
Na hipótese de alcançar as novas terras e a sua tripulação viver ali a salvo mas não ter possibilidades de regressar à Europa para dar parte do seu achado, na realidade não houve nenhum descobrimento.
Correntes marítimas do Atlântico
Tivemos sempre a possibilidade de observar a Lua e os outros planetas, até há pouco tempo, mas não havia meio de os descobrir por não possuirmos os meios de lá mandar um astronauta para os explorar e regressar à Terra para informar.
Por exemplo: há provas arqueológicas dos Fenícios, Romanos ou Vikings terem um dia vivido nas Américas. Não há contudo, provas do seu regresso.
Consequentemente, não podemos considerar que tenha havido descoberta.
Descobrir - isto é, partir e voltar para contar - representa uma força de civilização que pela primeira vez se empreendeu cientificamente com a Escola Náutica do Infante D. Henrique.
Ninguém deveria aventurar-se a falar de descobrimentos náuticos sem antes estudar a fundo as correntes marítimas e o registo dos ventos do Atlântico
Como se sabe, a Corrente das Canárias tem a sua origem no promontório de Sagres onde o Infante D. Henrique instalara a sua Escola, e segue ao longo da costa africana, continua ao Norte do Arquipélago de Cabo Verde, transforma-se na Corrente Equatorial do Norte ou dos Ventos Alíseos, atravessa o Atlântico paralelamente ao Equador e desaparece no Mar das Caraíbas.
O coração do Atlântico Norte tem nome português: Mar dos Sargaços
Depois, a Corrente do Golfo, semelhante a um rio enorme, corre para a Europa, e na altura dos Açores divide-se em Corrente do Atlântico Norte e Corrente das Canárias.
Durante milhares de anos não se alterou esta dança do Atlântico. Todas estas correntes estabeleceram limites à volta da vasta área de sargaço, um mar sem costas, que constitui o coração do Atlântico, ao qual os portugueses chamaram Mar do Sargaço, nome por que é internacionalmente conhecido.

A corrente do Golfo mandada traçar por Benjamim Franklin, em 1769 
Benjamim Franklin foi quem, pela primeira vez, depois dos Portugueses, reconheceu a importância das correntes atlânticas na navegação. Na qualidade de Correio-mor delegado das Colónias, Franklin interessou-se pelas correntes que poderiam contribuir para aumentar a velocidade dos veleiros do correio destinado à Europa.
Para este fim, mandou levantar a primeira carta da corrente do Golfo em 1769.
Todavia, foi o Príncipe Alberto do Mónaco (1885-1887) quem fez os primeiros estudos oceanográficos das correntes e dos ventos do Atlântico. Mandando lançar em diversos pontos do Atlântico Norte garrafas e barris de diferentes tamanhos, demonstrou que todos esses objectos davam a volta ao Mar do Sargaço e todos eles eram impelidos na direcção do Continente Americano pelos ventos alíseos ou pela Corrente Equatorial do Norte.
Demonstrou também que nenhum desses objectos atravessou o Equador em direcção ao Atlântico Sul. As conclusões do Príncipe Alberto de Mónaco foram confirmadas pelo Instituto Oceanográfico de Words Hole, de Massachusett.
Corrente do Golfo sempre levou, do Novo Mundo, objectos estranhos até às costas dos Açores e de Portugal. Substâncias vegetais, troncos de pinheiro (não havia pinheiro nos Açores) e canoas serviam para mostrar aos navegadores a existência de terras desconhecidas lá para o Ocidente.

AS VOLTAS DA NAVEGAÇÃO

Um método fundamental para navegar à vela é fazê-lo dando uma volta ou um grande círculo.
Durante o primeiro período (1416-1434), os navegadores portugueses tinham receio de aventurar-se para o mar alto, até que em 1434 dobraram o Cabo Bojador na costa ocidental de África. Partir de Lisboa em direcção à costa africana era relativamente fácil porque seguiam a Corrente das Canárias e os ventos.
Para regressarem a Portugal, viam-se obrigados a dar uma volta a considerável distância da costa. Em cada viagem, navegavam cada vez mais para ocidente no Atlântico aproveitando os ventos dominantes nas Canárias, agora à sua direita (primeira parte da volta), indo depois apanhar a Corrente do Golfo em direcção a Portugal Continental (segunda metade da volta).
Com esta técnica os navegadores continuavam a executar uma série de voltas cada vez mais largas fixando as actuais rotas marítimas convencionais.

1 - Volta da Mina ( actual Gana )
2 - Volta dos Açores
3 - Volta do Mar do Sargaço
 
Em 1537, Pedro Nunes, navegador e matemático português, deu à publicidade os primeiros pormenores àcerca das voltas da navegação ou rotas em círculo amplo.
A descoberta do Mar do Sargaço e das ilhas mais ocidentais dos Açores fez-se no regresso de viagens à África.
Os navegadores portugueses em breve descobriram ser muito mais fácil navegar no alto mar do que ao longo das costas onde as correntes marítimas e os ventos não tinham regime fixo.
A Madeira, os Açores, as Canárias e Cabo Verde tornaram-se estações interplanetárias, pontos de partida para a descoberta dos continentes desconhecidos.
Os conhecimentos adquiridos pelos Portugueses durante as primeiras viagens através do Atlântico Norte deu-lhes a chave com que, de descoberta em descoberta, com método e perseverança, puderam também abrir as portas do Atlântico Sul.
Foi o mestre caraveleiro Bartolomeu Dias quem dobrou a Cabo da Boa Esperança em 1487 por ter verificado ser-lhe impossível navegar contra a Corrente da Guiné, em vez do que resolveu seguir a rota de Sudoeste (Corrente do Brasil, num grande arco, à procura de vento mais favorável.
A sua viagem veio a constituir no Atlântico Sul a imagem invertida da Rota do Sargaço no Atlântico Norte.
Navegar em arco já resolvera muitos problemas no Atlântico Norte no tempo do Infante D. Henrique. No regresso, Bartolomeu Dias seguiu a Corrente de Benguela, paralela à costa ocidental africana, seguindo em direcção ao Equador, continuando pela Rota Convencional Sargaço - Açores até Lisboa.
A sua grande façanha foi ter sido ele o primeiro a completar a gigantesca rota marítima em forma de oito abrangendo os dois   Atlânticos.
Ainda hoje, muitos estudiosos que nada sabem da ciência náutica, ficam espantados ao saber que Vasco da Gama, na sua primeira viagem à Índia, seguiu a corrente do Brasil. corrente que constituiu o arco de Sudoeste da rota marítima em forma de oito que levou ao Oceano Índico.

Os navegadores Corte Reais eram familiares com a técnica de navegar em arco muito antes de Bartolomeu Dias ou Vasco da Gama, desde 1472, quando João Corte Real voltou da descoberta da Terra Nova, pela qual ele recebeu, em prémio, o governo de metade da Ilha Terceira, empregando a família Corte Real todas as suas energias na busca da passagem de noroeste para a Índia.
Assim, a partir da Ilha Terceira, os navegadores portugueses chegaram à América do Norte fazendo um arco a Noroeste, que cortava a Corrente do Golfo. Na viagem de regresso entravam no corpo central da Corrente do Golfo que os levava directamente aos Açores.
Quanto mais se conhece as forças oceânicas - correntes marítimas e ventos - que um dia impeliram as caravelas através do Atlântico  - mais convencidos se fica de que a descoberta da rota marítima para a América - do Norte e do Sul - foi feita à força pelos navegadores portugueses e portanto a mais fácil de todas as descobertas.
Convém acentuar que, enquanto a Europa se encontrava "entretida" ou envolvida em guerras políticas e religiosas - Portugal, durante mais de 70 anos (1415-1492) fazia sozinho a descoberta do Atlântico. Quando as outras nações da Europa tomaram consciência da importância dos feitos dos Portugueses, tentaram entrar em competição na corrida dos descobrimento, mas nunca puderam ultrapassar a experiência nem apagar a vantagem que os marinheiros portugueses tinham adquirido durante os seus muitos anos de exploração marítima.
Quando os Portugueses dobraram o Cabo da Boa Esperança em 1487, tinham já obtido tal aperfeiçoamento na arte de navegar no mar alto, que nenhuma outra nação pode alcançar o seu alto nível de ciência de navegar.

 
Arco de navegação da Terra Nova das rotas dos Corte Reais
Não só Portugal tinha pilotos para as suas próprias necessidades como também para os ceder a outrem. Para poderem levar a cabo as suas empresas marítimas, outras nações viram-se obrigadas a recrutar pessoal entre os experimentados mestres portugueses ( Estêvão Gomes, Fernão de Magalhães e João Cabrilho, por exemplo),
Basta dizer que cinco dos navios espanhóis da armada de Magalhães eram pilotados por navegadores portugueses.
A navegação contra o vento, ou em ziguezague, faz-se muito melhor com a vela latina
Quando se pensa que quase dois terços do Mundo foram descobertos pelos Portugueses, tem-se  o dever de começar o estudo de qualquer descoberta controversa com a seguinte advertência; " Foi descoberto pelos Portugueses até se provar o contrário ".

Fonte:

Lusitanian Express
Cabo das Tormentas 1488
luis.d.lopes

Desde o século XIV que os marinheiros portugueses navegavam ao longo da costa africana até ao arquipélago das Canárias, já então sobejamente conhecido. Quanto mais para Sul se navegava mais complicada era a viagem de regresso pois quer os ventos quer as correntes eram contra 
É fácil deduzir que o descobrimento da Madeira (1418) e dos Açores (1425) está directamente relacionado com o regresso das expedições portuguesas das viagens de exploração do norte de África, nomeadamente as que se dirigiam às Canárias. Com o passar dos anos foi naturalmente aumentando o conhecimento sobre os ventos e as correntes e percebeu-se que o regresso a Portugal seria muito mais fácil através de uma volta de mar (que mais tarde iria dar origem à Volta da Mina) que levasse as embarcações para oeste até à longitude dos Açores, navegando então para norte até alcançar a latitude deste arquipélago e daí navegando para levante até se atingir a costa de Portugal.
Em 1434 Gil Eanes dobra o Cabo Bojador e as voltas de mar cada vez se fazem mais ao largo, conforme mais se navegava para sul, chegando esta volta eventualmente a atingir os 40º Oeste de Longitude.
É interessante notar que em 1452 as ilhas das Flores e do Corvo são descobertas, o que nos permite concluir que por essa altura os processos de navegação associados à volta pelo largo já estavam sobejamente amadurecidos. Convém também referir que o povoamento dos Açores (Santa Maria) só se iniciou em 1439 apesar de ter sido descoberto doze anos antes, mostrando claramente a dificuldade em navegar de forma rotineira para este arquipélago. A solução passava seguramente por viagens iniciadas com rotas para o sul, eventualmente até com escala na Madeira. 
Tendo em consideração a passagem do Cabo Bojador em 1434 e o início do povoamento dos Açores em 1439, podemos então com muito segurança estabelecer que a meio do século XV as viagens pelo largo, de regresso a Portugal, já eram uma prática normal na época.
O esforço inicial português na exploração da costa africana teve participação apreciável dos genoveses, especialmente no que respeita às expedições às Canárias.

As agulhas de marear utilizadas nas nossas embarcações seriam seguramente genovesas, com ferros ferrados fora da flor-de-lis por um ângulo provavelmente igual a meia quarta visto a declinação em Génova ser cerca de seis graus leste.

Na viagem de regresso a Portugal, a volta pelo largo que os portugueses introduziram, nomeadamente quando se atingia o limite em termos de longitude, as proas dos navios várias vezes seriam na direcção de Norte. Nas singraduras em que as proas fossem exactamente Norte (360º), um piloto mais atento, através de simples observação visual, teria notado que o norte da agulha (ou a flor-de-lis) não coincidia com a estrela Polar (mesmo não tendo em conta o seu regimento). De facto, nas proas para norte, a declinação magnética seria nula ou mesmo de Oeste pelo que a diferença entre a proa (360º) e o norte geográfico poderia ser quase igual a uma quarta.
Vejamos um quadro muito resumido, de comparações de rumos de agulha com rumos verdadeiros, de uma hipotética viagem da Lisboa às Canárias com regresso a Lisboa por volta pelo largo, utilizando uma agulha genovesa com um factor de correcção igual a 6º.
A flor-de-lis e os ferros fariam um ângulo entre si igual a seis graus, que é o valor estimado da declinação em Génova para a época (séc. XV), 
 Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV)
Em Lisboa, após instalada a agulha a bordo, utilizando a mesma como referência, podia ser observado o seguinte: 

Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV), em Lisboa
Tendo como referência a flor-de-lis (figura nº 44) poderíamos observar que a Polar (norte geográfico) culminava ligeiramente à direita, e a ponta norte da agulha apontava ainda mais para a direita (devido ao factor de correcção incorporado em Génova, seis graus).
Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV), em Lisboa
Nas proas a norte, quando a declinação era nula ou mesmo de Oeste (dependia da longitude atingida na volta pelo largo), o rumo verdadeiro afastava-se da agulha cerca de 8 graus, cerca de ¾ de quarta. Estando a Polar a uma altura situada no intervalo [20º, 40º], de acordo com a latitude, seria muito fácil observar visualmente que a Polar se encontrava por estibordo quase uma quarta. (fig. nº45)
 (ângulos exagerados para facilidade de leitura)

 Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV), a 40º Oeste de Longitude, latitude dos Açores, navegando para Norte, declinação 2º Oeste
Mesmo considerando que fosse ignorado pelos pilotos que a Polar não estava exactamente situada no norte geográfico, o ângulo de afastamento da Polar (do Norte Geográfico) face à proa navegada seria sempre possível de ser observado. É evidente que este processo de avaliação visual seria mais correcto, quanto às conclusões alcançadas, se fosse conhecido o momento da passagem meridiana da Polar, isto porque em termos práticos a Polar descrevia um círculo no céu, em torno do Norte Geográfico, com um raio aproximadamente igual a 3.5 graus. Como já foi dito, esse facto só foi considerado nos cálculos náuticos com o aparecimento dos regimentos da Polar. São conhecidos diversos Regimentos do século XVI, mas não se conhece qualquer referência ao assunto em textos anteriores ao mesmo século. Apesar deste facto, podemos afirmar que a utilização de regimentos da Polar é seguramente muito anterior ao século XVI.
Claro que através da passagem meridiana do Sol seria também possível obter uma ideia muito concreta sobre a variação da agulha mas a utilização do Sol na navegação astronómica só deverá ter começado no último quartel do século XV, portanto uns trinta ou quarenta anos depois do início da utilização das voltas pelo largo. A vantagem de observar a Polar quando a embarcação navegava para norte (ou para sul) residia no facto de ser um processo muito simples, expedito, visual, sem recurso a cálculos ou conhecimento mais apurado.
A constatação que a Polar não estava alinhada com a proa (direcção) da embarcação quando esta supostamente navegava para norte, numa primeira instância teria sido efectuada de forma inadvertida, mas certamente que se terá transformado num processo corrente através de sucessivas e continuadas observações. Mais tarde, com a introdução dos regimentos da Polar, os pilotos passariam a ter um processo mais rigoroso que lhes iria permitir, através de continuadas observações da Polar, concluir pela existência de um afastamento angular entre as agulhas e o norte geográfico, variável de acordo com o local de observação.

Parece-nos correcto afirmar que seguramente vários pilotos terão observado este fenómeno, que era mais evidente quanto mais para oeste fosse efectuada a volta pelo largo.


Em conclusão, diremos que o fenómeno da existência da declinação magnética poderá ter sido observado pelos pilotos portugueses de forma evidente e consistente a partir de 1440 com a introdução da volta pelo largo, isto cerca de 50 anos antes de Colombo, a quem usualmente é atribuído o primeiro testemunho sobre o fenómeno (o noroestear e nordestear das agulhas).

1 comentário:

  1. Esta postagem é muito boa! Estou a procura de um livro para presentear um sobrinho. Pensei num livro sobre náutica lusitana para não-especialistas, e na busca cheguei ao seu blog. Estou na cidade de São Paulo/Brasil. Se puder indicar algum livro, agradeço. Paulo Araújo

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