sábado, 9 de janeiro de 2010

" 2ª viagem de exploração marítima da guarnição de Diogo Cão ", para Sul do Equador




Saída do Tejo – Setembro de 1485
D. João II, desejoso de apertar relações de grande amizade com o rei do Congo, Nzinga-a-Kuvu, de fazer regressar os homens de lá trazidos, de recolher os emissários, de prosseguir na descoberta do caminho marítimo para a Índia, enviou no segundo semestre de 1485,  a guarnição de Diogo Cão nesta segunda viagem, com duas caravelas.
Para o rei do Congo, Nzinga-a-Kuvu, uma embaixada com ricas prendas, ofertas de amizade e recomendações para rei do Congo renegar ídolos e feitiçarias abraçando a religião cristã.
Iam como missionários Fr. João da Costa e alguns seus súbditos do convento de Stª Catarina de Santarém. [história de Angola – Ralph Delgado e memórias relativas ao Convento de São José de Luanda, revista Diogo Cão do padre Ruela Pombo, IV série pág. 173].
Nesta 2ª viagem de exploração marítima, a guarnição levava a bordo (2) dois padrões de pedra calcária, diferentes dos da 1ª viagem de exploração, com as modificações neles operadas.
Escudetes virados para baixo, supressão da flor-de-lis, inscrições em português arcaico e latim respectivamente, de acordo com a reforma operada à Bandeira Portuguesa pelo monarca em Março de 1485.
Iniciada a viagem em Setembro de 1485, a guarnição dirigiu-se para S. Jorge da Mina, Gana, entreposto comercial.
Aparelhados em S. Jorge da Mina, rumou de seguida para o estuário do rio Zaire ou Congo [rio Poderoso].
A frota foi ter ao,Golfo del Judeo,Golfo do Judeu”, baía de Lekonde, 4º 10’ Sul. [ elementos do comandante Fontoura da Costa], [mapa - mundi de Henricus Martelus Germani de 1489].
Seguindo a derrota do Sul, entrou no “Golfo das Almadias”, baía de Cabinda, latitude 5º 33’ .Sul. Os habitantes da região pescavam em canoas.
O "Cabo" onde se encontra o actual farol costeiro da cidade de Cabinda, foi designado de cabo de S. Martinho, era o dia 11 de Novembro de 1485.
    ponta do farol de Cabinda
A meados de Novembro de 1485, entrou no estuário do rio Poderoso, rio Zaire ou Congo, onde aportou a M’Pinda, praça e residência da autoridade local, o Manisoyo, situada  a 10 km da ponta do Padrão.
Dando conta que os emissários enviados ao rei do Congo dois anos antes, Maio de 1483, não se encontravam em M’Pinda, o navegador decidiu zarpar rio acima até às imediações de Nóqui. 
itinerário fluvial da foz do rio Zaire até Nóqui
Acompanhou a guarnição  alguns guias do Manisoyo, aproximando-se o mais possível da residência do rei.
município de Nóqui, Angola
Chegados a Nóqui, enviou ao potentado de M’Banza Congo, 2 dos 4 africanos agora vindos de Portugal, bem vestidos e com ofertas, a falar a língua portuguesa, a fim de  anunciar à corte e ao rei do Congo Nzinga à Kuvu [Cuum], dos portugueses se encontrarem naquele local, juntamente com os seus vassalos, pedindo a libertação dos emissários, a troco da restituição dos restantes instalados a bordo.
Porém, enquanto esperava notícias, a guarnição seguiu adiante passando por Matádi.
Matádi -RPCongo
cachoeiras no rio Zaire a 2 Km a montante  do afluente do rio M'Pozo e da cidade de Matádi, RDCongo
Inesperadamente amainou o andamento das caravelas, surgiram enormes cachoeiras saltando a água em forma de catarata, a guarnição não podia avançar.
cachoeiras em Yellala,Matádi
Seguir até Quiloa que fica no outro lado da costa oriental africana no oceano Índico, através do canal desenhado no mapa de Fra Mauro,  onde a guarnição se encontrava, era praticamente impossível!
   mapa mundi de Fra Mauro
A guarnição estava muito próxima das cataratas de Yellala, 170 km, 92 milhas náutica da foz do rio Zaire.
De seguida, a montante de Vivi, foi ter a uns recifes, num sítio chamado “Nsadi – Qumbidinga” (rio de peixe), na margem esquerda, chegou a uma ponta que está a uns duzentos metros dos rochedos onde iriam efectuar as gravações.
Alguns homens descalços desembarcaram, era completamente impossível seguir calçados por  pedras escorregadias, de onde caindo, inevitavelmente iriam ao rio,  a morte seria certa.
Em enormes dificuldades conseguiram andar alguns metros, chegando a um ponto onde a todos faltou o ânimo para continuar.
 
 
 rio Zaire/Congo em Matádi
Tinham na sua frente, por único caminho, um despenhadeiro de alguns metros de altura, cortado a pique sobre o rio, sem outra coisa a que se segurassem, que não fosse alguns fios de erva, capim, e as raízes de uma árvore, lianas!
Houve alguém que se arrojou a transpor aquele precipício, os que seguiram foram atrás.
Ao fim de algum tempo encontravam-se sob o rochedo onde iria ficar a inscrição.
Ali, em frente de tamanho espectáculo, vendo o rio, em baixo soltando rugidos de leão, avaliaram a intrepidez de tamanha façanha que acabavam de efectuar.
De seguida, gravaram as armas de Portugal, o escudo que começou a ser usado naquele ano de 1485, a cruz de Cristo e nomes de vários nautas deixando para a posteridade a permanência dos portugueses naquele lugar.
O escudo, os castelos, as quinas gravadas revelam ser posteriores à reforma decretada por D. João II (Março de 1485).
Inscrições portuguesas nas pedras de Yellala, rio Zaire ou Congo, foto década 1970
A partir de Março de 1485
D. João II retira das armas reais os remates flor-de-lis, foram suprimidas as pontas da cruz verde florestada da Ordem de Avis.
-Fundo branco.
-Cinco quinas azuis dispostas em cruz (as laterais apontam para baixo, como as do centro).
-As quinas possuem cinco besantes brancos (dois pontos – um ponto – dois pontos) -Bordadura vermelha.
-Sete castelos dourados na bordadura (por vezes oito castelos).
O Escudo português, constituído por cinco quinas todas viradas para baixo, uma cruz da ordem de Cristo e a inscrição de estilo gótico “Aqui chegaram os navios do esclarecido rei D. João II de Portugal – Diogo Caão, Pero Anes, Pero da Costa”.
Noutro rochedo dois nomes de estilo gótico: Álvaro Pires, Pero Escolar e uma sigla A, por baixo de Álvaro Pires.
Noutro rochedo os nomes de estilo gótico: João de Santiago, Diogo Pinheiro (por cima do D, o sinal de uma cruz reduzida), Gonçalo Álvares e Antão.
Neste rochedo as palavras de estilo uncial “ da doença”, precedidas de uma cruz , seguida do nome João ou Gonçalo Álvares!?, o que quer dizer que o nauta morrera por doença!
O estudo epigráfico desta inscrição revela ser posterior às outras inscrições. A letra, a grafia utilizada é diferente.
O sinal de uma cruz reduzida por cima do D de Diogo Pinheiro quer dizer que o nauta se encontrava afectado pela doença!
A guarnição  explorou o rio Poderoso, Zaire ou Congo até Yellala, não foi mais adiante pelo facto de obter notícias desoladoras, o rio é intransponível, das muitas cachoeiras, rápidos do percurso superior.
Deve-se notar que durante a época dos Descobrimentos há 3 períodos de marcação das terras descobertas a favor de Portugal:
No Primeiro Período usou-se a Cruz de Madeira Alta para os descobrimentos do Porto Santo, Madeira, Cabo Verde e Açores. Mas estas cruzes apodreciam.
No Segundo Período fez-se gravações em pedras ou rochas à beira dos rios ou nas praias - Pedras de Yellala em África e a Pedra de Dighton na América do Norte.
No Terceiro Período compreendeu a colocação de Padrões. Diogo Cão executou o Segundo e Terceiro Períodos.
Encontrando-se a guarnição próximos da residência, M'Banza do rei do Congo, Manicongo, cerca de 20 léguas para Sudeste, decidiu esperar por notícias, fundeando as caravelas em Nóqui.
A embaixada constituída por dois africanos já enviada ao rei, teve como objectivo principal restaurar a confiança do imperador congolês e recuperar os 2 emissários portugueses!
O monarca do Congo ficou encantado, ao ouvir da boca dos seus súbditos, já um pouco aportuguesados, notícias precisas a respeito dos portugueses.
Os recém chegados causaram muita admiração, respeito e alegria de toda a corte.
Segundo o cronista Garcia de Resende, o rei do Congo viajou da sua residência até Nóqui, onde se encontrava a frota do navegador, o qual “hindo polla dita cofta com assaz perigo, e trabalho, foi ter com a dita armada ao rio de Manicongo”.
Como exemplo cita-se o trecho seguinte no qual o cronista narra o acontecimento. “O qual hindo polla dita cofta com affaz perigo, e trabalho, foy ter com a dita armada ao rio de Manicongo, (…) o qual rio, e terra de Congo he de Portugal mil e fetecentas legoas, onde por fer tão lomge da outra terra de Guiné já defcuberta não fe poderão entender com a gente da terra, e levando muytas lingoas nenhua entendia, nem fabia aquella lingoagem”. (Garcia de Resende, Crónica de D. João II e Miscelânea, Lisboa: INCM, 1991, pág. 221)
Deste modo, o navegador  não foi à residência do rei do Congo, M'Banza Congo, S. Salvador. O cronista João de Barros propôs o contrário: Diogo Cão foi à M’Banza, residência, visitar o imperador do Congo?! Os capitães não se ausentavam dos navios a fim de não por em risco as guarnições e o sucesso do empreendimento.
O rei e a sua corte encontram-se a 20 léguas, 100 km para o interior das terras, em M’Banza [ residência] Congo, cinco dias de distância por lugares desconhecidos, era uma aventura muito arriscada para os portugueses.  Os emissários enviados ao rei dois anos antes, um dos quais Martim Afonso e outro Fernão Martins, ainda não tinham regressado da M’Banza real.
A guarnição  não sabia dos seus, se estariam cativos ou mortos!
Alguns dias de caminho em assaz perigo e trabalho, o rei do Congo, Nzinga-a-Kuvu foi ter com a dita armada ao rio do Manicongo, rio Zaire ou Congo, onde os navios se encontravam fundeados junto a Nóqui, local  de melhores  acessos.
Festivamente, o rei do Congo e a sua corte acompanhados de grande multidão e levado num estrado, nu da cinta para cima, com uma carapuça de pano de palma lavrada e muito alta, posta na cabeça, ao ombro um rabo - de - cavalo guarnecido de prata, foram recebidos amistosamente com grandes estrondos.
Seguiu-se os festejos ao som de trombetas, tímbales, trombas e outros instrumentos que usavam.
Efectuados os cumprimentos da praxe, o navegador ofertou ao rei do Congo, um rico tecido de damasco e muitos outros objectos, a mando de D. João II. Serviram de intérpretes os vassalos agora chegados, porque os portugueses não se “ entendiam com a língua da gente da terra “.
O rei por sua vez, ofereceu peças de marfim, objectos de arte, peles de animais, como sinal de uma futura amizade a encetar com o Rei de Os dois emissários regressaram às caravelas, houve contentamento de todos. Martim Afonso, já conhecedor da língua congolesa trouxe os conhecimentos culturais das gentes e das terras da região.
Cumpridos os festejos, o navegador prometeu numa próxima visita a encetar brevemente, levar consigo para Portugal uma embaixada congolesa.
 rio Zaire/Congo em Boma, RDCongo
Reiniciada a navegação seguiu para a foz do rio Zaire. Era a altura dar continuidade às instruções de D. João II, encontrar o tão desejado caminho marítimo para a Índia das especiarias,  estabelecer contactos com o reino cristão de Preste João, situado na Etiópia para uma futura amizade.
O monarca português desejava também uma forte aliança com reino cristão do Preste João, combater os inimigos da fé cristã, propósito à muito esperado, os árabes dominavam os mares de toda a região da costa oriental de África.
Chegados à foz, deixou na praça de M’ Pinda  os guias do Manisoyo.
Para nova investigação costeira do continente africano rumou para Sul do rio Zaire ao largo da costa, em direcção ao Promontorium Prassum, 15º 8’ lat. Sul, já que pela via fluvial não foi possível transpor o canal até Quiloa no oceano Índico.
Passou a guarnição pela Mazanga, ilhas de Luanda e Mussulo?
Um dominicano mestiço proveniente da Confraria do Rosário, em Lisboa, acompanhou o navegador nesta segunda viagem, acredita segundo o seu diário, ir ao encontro da sua família remota perdida no Congo.
O diário do Frei Jorge do Rosário refere explicitamente que ele, Jorge andava à procura da família Nsanda, cuja proveniência eram as suas origens da sua mãe negra forra de Lisboa, nele coincidem duas memórias de duas histórias: a da mãe, da família Nsanda, e a dos frades portugueses que o educaram cuja religião adoptou.
Descobriu dois jovens sobrinhos Nsanda Kabasa e Nsanda Kakulo, e a família Nsanda, na ilha do Mussulo!
A guarnição passando pela costa anteriormente já reconhecida, ancorou no "Golfo de S. Lourenço", [mapa - mundi de Henricus Martelus Germani de 1489 ], Porto Amboim, foz do rio Cuvo ou Queve lat. 10º 52’ Sul, para  abastecer  as caravelas de água potável o quanto bastasse.
cabo e baía de Porto Amboim
Seguidamente atingiu em  princípios de Janeiro de 1486 o “Cabo Zorto” [mapa - mundi de Henricus Martelus Germani de 1489] o falso cabo“Promontorium Prassum”, a  Ponta Redonda do Farol do Giraúl, cabo extremo Sul assinalado no mapa ou carta geográfica de Cristóforo Soligo, onde terminara a 1ª viagem de exploração marítima em Setembro de 1483.
Ponta Redonda do Farol do Giraúl
 Ponta Redonda do Farol do Giraúl, praia das conchas
  
  
 baía de Moçâmedes, Namibe, promontórios da Ponta Redonda do Farol do Giraúl
Chegado à  Ponta Redonda do Farol do Giraúl rumou para Leste e pouco depois  verificou a surpresa inesperada .
A orla marítima  após a Ponta Redonda do Farol do  Giraúl, 1 km para Este e 2,5 Km para Nordeste, ao atingir o actual porto mineiro do Saco Giraúl, faz uma inflexão. Decorre para Sudeste, Sul, Oeste e Nordeste até à Ponta Grossa ou Ponta do Pau   descrevendo um  semi arco de 15 Km, formando uma enorme baía.
Entrando numa larga baía, princípios de Janeiro de 1486, actual baía de Moçâmedes, Namibe, vislumbrou-a em toda a extensão  a perder-se de vista.
 baía de Moçâmedes, Namibe.
Que desilusão!
Navegar para Nordeste ou Oriente a partir dali é totalmente impossível.
baía de Moçâmedes, Namibe
Com efeito, enquanto a guarnição  seguia em direcção a Sul, em Roma, pelo resultado alcançado pela  viagem anterior (1482-1484), na Oração de Obediência que o Rei D. João II enviou ao papa Inocêncio VIII , o embaixador Vasco Fernandes de Lucena em 11 de Dezembro de 1485, afirmou:
Tradução do Latim:
o ano anterior tinham os portugueses chegado até perto do “ Promontório Prassum”, onde começa o Golfo da Arábico. «A tudo isto acresce a esperança bem fundada de explorar o Golfo Arábico, onde reinos e povos que habitam a Ásia, mal conhecidos de nós por notícias muito incertas, praticam escrupulosamente a fé santíssima do Salvador, dos quais, a dar crédito a experimentados geógrafos, já a navegação portuguesa se não encontra senão a alguns dias de viagem. Efectivamente, descoberta já uma parte enormíssima da costa africana, chegaram os nossos no ano passado até perto do Promontório; foram explorados os rios, praias e todos os portos que desde Lisboa, numa extensão de mais de 45 centenas de milhares de passos, estão enumerados com exactíssima observação do mar, das terras e dos astros…” (o texto latino destas afirmações ocupa, na 1ª edição da Oração de Obediência – Roma, 1485, as últimas linhas da 10ª página e as primeiras da 11ª).
costa marítima da baía da Baba à baía dos Tigres
Para Sul da Baía de Moçâmedes Janeiro de 1486:

Iludidos por aquela orientação da costa, ilusão que certamente não foi só do navegador, a guarnição seguiu adiante.
Com terra à vista, navegando ao longo da costa para Sul da Baía de Moçâmedes,  observou a “Terra fragosa” [mapa - mundi de Henricus Martelus Germani de 1489].
 costa marítima a Sul de Moçâmedes
No dia 18 de Janeiro de 1486, desembarcou numa enseada  acessível e desértica,  e num cabo de rocha escura, designado de “Cabo Negro “ , latitude 15º 40´ 36,5" Sul e longitude 11º 55' 38,4" Este,  15 km , 8 milhas náuticas  a Norte da actual cidade de Tombua, Porto Alexandre.
 baía do cabo Negro
 cabo Negro
No  cabo Negro, implantou um padrão seguida de celebração de missa, dirigida por Fr. João da Costa.
 
 padrão original do cabo Negro, sociedade Geografia Lisboa
 
 réplica do padrão do Cabo Negro, foto década 1950
Para Sul deste cabo a costa é igualmente baixa, constituindo uma baía, onde desemboca o rio Curoca, geralmente seco, excepto por ocasião das chuvas torrenciais caídas no planalto da Huíla.
costa marítima a Sul do Cabo Negro, foto obtida do Pinda 
A aridez da região, o tipo das rochas e os acidentes geográficos, provocados pelos agentes erosivos, dão ao ambiente aspectos impressionantes e tristes, a contrastarem com o do leito do rio Curoca que se apresenta revestido de plantas herbáceas resistentes às tiagens cuja cor se distingue no imenso areal circundante.
  região do arco rio Curoca, 20 Km da foz
Nas margens do rio Curoca vivia ou vive a interessante tribo dos Kwadi ou Mucuépes, numa única aldeia com habitações coliformes recobertas de excrementos de bovinos.
região do arco rio Curoca, 20 Km da foz
Os Kwadi cuja origem se desconhece possuidores de uma língua estranha e sem paralelo com as outras populações têm elevada estatura, cor negra, cabelo encarapinhado, nariz achatado e são dotados de outras características físicas semelhantes à de alguns povos ...(falha de som)... de Angola.
 costa marítima do Pinda ao cabo Negro, vista para Norte
Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
Jaz a ponta preta e o monte negro norte e sul, tem vinte e cinco léguas na Rota". "Este monte está sobre o mar e não é muito alto, porque a terra em redor é de muita areia e tem um mato baixo e raso que faz uma mostra mais preta que toda a outra terra, por isso lhe puseram nome monte negro".Esta costa é quase deserta  e muito pouco povoada o qual monte se aparta em latitude da linha equatorial contra o pólo antárctico quinze graus e vinte minutos"
costa marítima do cabo Negro a Porto Alexandre
A seguir entrou na “Angra das Aldeias”, Porto Alexandre actual Tombua, latitude 15º 48’ Sul, a que foi posto este nome, porque a guarnição  achou duas grandes aldeias de habitantes.
Segundo a tradição, foi nesta Angra das Aldeias que no regresso da  expedição, levou alguns habitantes para Lisboa, repatriados posteriormente na expedição de Bartolomeu Dias!. A baía é notável porque oferece uma inflexão esplêndida da costa dum abrigo e porto seguro e exuberância piscatória das suas águas.
baía de Tombua, Porto Alexandre
Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
“…. oito léguas adiante do monte negro se faz uma grande angra que entra uma légua e meia pela terra dentro que se chama angra das aldeias e este nome puseram porque no tempo que Dieguo Cão descobriu esta costa por mandado del Rei Dom João que Deus tem, achou dentro nesta angra duas grandes aldeias e por isso lhe pôs o dito nome; os negros desta terra são gente pobre que não se mantêm nem vivem senão de pescaria que aqui há muita, e que fazem cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar, lançando-lhe por cima areia e assim aly passam sua triste uida, são Idolatras e nesta terra não há proveito. Do monte negro até aqui se corre a costa nordeste e sudeste e tem as ditas oito léguas na Rota e toda esta terra ao longo do mar é baixa…”

A terra continua sem quaisquer espécie de arvoredo, estendendo-se o areal a perder de vista. Não foi possível encontrar água ou qualquer abastecimento, além do peixe, em que a costa é riquíssima.
Navegando à vista duma costa coberta de dunas e correndo nordeste sudoeste com a "Angra das Aldeias", a quinze léguas, a guarnição  achou uma enseada,  que chamou  Manga das Areias”, Baía dos Tigres, lat. 16º 30’ Sul,  estendendo-se por terra a dentro cinco ou seis léguas, com doze a quinze braças de fundo
 costa marítima de Porto Alexandre,Tombua à Baía dos Tigres
 
dunas na baía dos Tigres
Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
“… além da angra das aldeias é achada uma enseada que terá duas léguas em largura na boca que se chama a manga das areias e esta se estende por dentro pela terra cinco ou seis léguas e na mesma boca e dali por dentro tem doze e quinze braças de fundo e esta terra é deserta e nenhum arvoredo tem porque tudo é areia e dentro desta manga há muita pescaria e em certos tempos do ano vem aqui do sertão alguns negros a pescar os quais fazem casas com costelas de baleias cobertas com seba do mar, em cima lançam areia e ali passam sua triste vida; esta manga das areias se corre com angra das aldeias nordeste e sudoeste e tem quinze léguas na Rota; A qual mangas se aparta em latitude da linha equinocial contra o pólo antárctico dezasseis graus e meio".

Na segunda metade do século XVII, havia em Angola um povo conhecido por “Ovakwambundo”, em tão atrasado estado cultural, que comia a carne e o peixe crus, assim como todos os alimentos de que usava, semente de gramíneas, casca de certas árvores, raízes, etc., muito provavelmente por desconhecimento do processo de produção do fogo e da falta de combustível para ele; que até a carne de carnívoros aproveitava; que este povo vivia na faixa marítima do deserto do Namibe, nas imediações do paralelo 17º, onde deixou vestígios das suas habitações em pequenas construções circulares com lajes, que ainda hoje se pode observar; que também utilizavam, quando o mar lhos oferecia, e noutros locais mais pobres de materiais de construção, os ossos de baleia para estrutura dos seus abrigos, que, impelidos para o Norte, certamente por pressão de outros povos invasores, vindos de Leste, se fixaram nas proximidades da baia de Porto Alexandre onde nem habitações construíram, limitando-se a utilizar as cavidades que as dunas formam na parte oposta ao lado de onde sopram os ventos; e que, finalmente, aqui, nestas novas paragens, o grupo se extinguiu como unidade étnica, quando a indústria da pesca se estabeleceu e as suas aptidões de gente de longa vivência do mar, puderam ser aproveitadas.”
"Ovakwambundo" um povo pré-banto que habitou a região compreendida entre o vale do rio Curoca e o rio Cunene, desde há muitos séculos, provavelmente empurrados pela invasão dos Bantus,  que existiu até final do séc. XIX, princípios do séc. XX.

“Os negros, referidos por Duarte Pacheco Pereira, aquando da 2ª   viagem da guarnição de Diogo Cão em 1486 à “Manga das Areias”, actual Baía dos Tigres,  eram elementos deste grupo  étnico, pois o tipo de habitações que descreve coincidem com as encontradas por Willian Messum e Alexandre Magno de Castilho e as estudadas pelo Dr. Alberto Machado da Cruz.
 habitações dos Ovakwambundo
O gentio que em 1665 José da Rosa levou para Luanda, encontrado pelo paralelo 18 não deixa dúvidas que eram  povos pré-bantos pelo tipo de linguagem que utilizavam e também o facto de comerem tudo cru evidenciando  não utilizar o fogo, característico desta etnia.
João Pilarte da Silva na sua viagem do Jau ao Cabo Negro, efectuada em 1770, dá-nos conta de que aquele povo falava por estalos, o que provavelmente estariam na presença de elementos desta gente.
Um pormenor interessante, é o  facto das duas negras daquele gentio que levavam consigo terem falecido de bexigas.
Sabe-se que as bexigas era o nome pelo qual seria conhecida na altura a varíola, facto que também J. Pereira do Nascimento refere no seu livro “Exploração Geográphica e Mineralogica no Districto de Mossamedes em 1894-1895, como tendo sido uma das causas da extinção dos Ovakwambundos.
Acontece que em certos povos,  viveram muitos anos isolados,  tornando-se muito vulneráveis a vírus provenientes de outros continentes, como aconteceu nas civilizações da América do Sul, a varíola, era nessa altura muito comum entre os europeus e a gente que com eles contactava.
Embora o Dr. Alberto Machado da Cruz não o refira,  esta também terá sido uma das causas da sua extinção, a par daquelas por ele apresentadas.
Em todas as narrativas há imensas coincidências que o deixam convicto de que estão na presença de uma única e só etnia, que por pressão de outras civilizações desapareceu, restando talvez algum do seu sangue correndo nas veias de alguns Quimbares de Onguaia e de Tombua.
Para melhor compreensão consultar:
http://xamalundo.blogspot.pt/2014/08/ovakwambundo-o-povo-do-nevoeiro-eraeu.html
 baía dos Tigres, região do Iona
ponta das Pedras, baía dos Tigres
Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
"seis léguas adiante da margem das areias faz a terra uma ponta baixa toda coberta de areia que se chama a ponta das pedras e este nome lhe puseram porque quase no rosto desta ponta e assim além dela estão muitos e grandes penedos e até que se corre esta costa nordeste e sudeste e toma a quarta de leste e oeste e tem as ditas seis léguas na Rota; e esta terra é muito baixa e má de conhecer mas quem quiser haver conhecimento dela veja como se aparta da linha equinocial dezasseis graus e dois terços contra o pólo antárctico; e esta é a melhor conhecença que tem". "Jaz a ponta das pedras e o cabo negro norte e sul e tem dez léguas na Rota; e este cabo é muito baixo e a terra em redor dele é toda harca senão quando sobe a ponta deste cabo está uma malha negra, e por isso lhe puseram este nome de cabo negro o qual não parece cabo senão quando homem está uma língua em mar dele e sendo três ou quatro léguas em mar parece tudo costa direita; esta terra é trabalhosa de navegar e o seu inverno é do mês de Abril até fim de Setembro; as naus que vão para a Índia sempre se metem em mar e se arredam desta costa duzentas e cinquenta léguas e mais em maneira que não chegam a ela".
 costa marítima da foz do rio Cunene a cape Cross, Namíbia
A navegação a partir de agora tornar-se-ia mais difícil. Os trabalhos de bordo seriam mais penosos por causa da calema larga que se quebrava contra a costa.
Prolongando a navegação para Sul, passou sem dar por isso a foz do rio Cunene.
 rio Cunene
À latitude 18º 26’ Sul, reconheceu a “Ponta Verde” [mapa mundi Henricus Martelus Germano 1489].
 ponta Verde, Namíbia
Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
" adiante do cabo negro dezanove léguas são achados uns “mendoos” [dunas] de areia ao longo do mar em que haverá seis ou sete montes da dita areia e estas são alguns tanto mais altos que a outra terra e esta costa toda é deserta e sem gente e do cabo negro até aos “mendoos” dunas se corre norte e sul têm as ditas dezassete léguas na Rota os quais mendoos dunas se apartam em latitude do círculo da equinocial contra o pólo antárctico dezanove graus".

À latitude 20º 14’ Sul o “Golfo das Baleias”, [mapa mundi Henricus Martelus Germano (1489)].

Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
"Jazem os “mendoos” e a angra de Rui Pires norte e sul e de meio caminho em diante toma a quarta de nordeste e sueste e tem vinte léguas na Rota, e esta terra toda é muito baixa e areia e deserta e nesta angra caberão seis ou sete navios pequenos e a um tiro de bombarda da terra podem poisar em fundo de oito braças tudo limpo a qual angra se aparta em latitude contra o pólo antárctico vinte e meio".

Esmeraldo Situ Orbis” – Duarte Pacheco Pereira:
"Jaz angra de Stº Amaro e os areais norte e sul e tem 12 léguas na Rota e esta costa é deserta por ser toda areia e por isso lhe puseram nome os areais os quais se apartam da linha equinocial em latitude contra o pólo antárctico vinte e dois graus e vinte minutos".

cabo da Cruz/Serra, Cape Cross, Namíbia
À latitude 21º 46’ 18,7” Sul e longitude 13º 57' 10,5" Este, a guarnição atingiu um cabo, “Cabo Padrão da Serra/Cruz”, onde ergueu outro padrão, o mais meridional de todos, num sítio que hoje se chama actualmente Cape Cross, sinalizando o último ponto e a primeira presença europeia, em terras situado a cerca de 130 km da cidade de Swakopmund, Namíbia.
cabo da Cruz/Serra, Cape Cross, Namíbia, colónia de focas
Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
"Dez léguas adiante dos areais parece uma ponta que se chama o cabo do padrão (Cruz = Cross); o qual tem um padrão de pedra com três letreiros…f….(constam apenas dois letreiros um em latim e outro em português arcaico) o qual cabo se corre com os areais norte e sul e tem as ditas dez léguas da Rota como dito é e esta se aparta da linha equacional em latitude contra o pólo antárctico 22º 45´(real 21º 46’)(diferença de 1º grau), e esta terra é baixa e má de conhecer e o melhor conhecimento que tem ali são as alturas do pólo antárctico e graus em que se aparta em latitude da linha equacional".
padrão original do cabo da Cruz/Serra, Cape Cross, Namíbia
Texto latino:

A mundi creatione fluxerunt ani 6684 et a Christi nativitate 1485 quum excelentissimus serenissimusque Rex d. Johanes secundus portugaliae per iacobum canum ejes militem colunam hic situari jussit

Texto português:

Era da criação do mundo de bjm bjc lxxxb e de xpto de IIIclxxxb o eycelente esclarecido Rei dom Jº s.º de Portugal mandou descobrir esta terra e poer este padram por dº cão cavº de sua casa.
Correntemente:

“Era da criação do mundo de 6685 e de Cristo 1485 o excelente esclarecido Rei D. João II de Portugal mandou descobrir esta terra e pôr este padrão por Diogo Cão cavaleiro de sua casa”.
A partir de Março de 1485:
D. João II retira das armas reais os remates flores-de-lis, suprimidas as pontas da cruz verde florestada da Ordem de Avis.
-Fundo branco.
-Cinco quinas azuis dispostas em cruz, as laterais apontam para baixo, como as do centro.
-As quinas possuem cinco besantes brancos (dois pontos – um ponto – dois pontos) -Bordadura vermelha.
-Sete castelos dourados na bordadura (por vezes oito castelos).
réplica padrão cabo da Serra ou da Cruz, Cape Cross, Namíbia.O original foi levado para Berlim, em 1893. Em 1986, o governo da Namíbia mandou construir um memorial, juntamente com uma réplica daquele padrão.
A guarnição avistou para o interior do deserto do Calaári, uma grande serra a que chamou de “Serra Parda”, 2560 metros de altitude, a 80 km, 16 léguas de distância para Este de Cape Cross!
Mais a Sul fica a Ponta dos Farilhões e Plagia da Sardinha, 22º 26’ lat. Sul. A expedição terminou neste lugar?
Os 22º 26’ de latitude Sul distam 30 Km a Norte da cidade Swakopmund .
 costa dos Esqueletos, de Cape Cross a Wellis Bay, Namíbia
Um cabo redondo ou pequeno promontório a 90 km, 48,6 milhas náuticas a Sul de Cape Cross.
Farilhões significa “ilhota escarpada ou pequeno promontório”, mas segundo a tradição significa "rochedos vulcânicos de cor negra".
A orla marítima para Sul  do Cabo da Serra ou Cruz até à ponta dos Farilhões, descrita  por  Alexandre Magno de Castilho, em 1866, no roteiro da costa ocidental de África:
"Passada a ponta da Serra se encurva a beira mar até ao cabo ou ponta dos Farilhões, a qual é pedrada,  baixa, coroada de um outeiro arenoso.
Está a 30 milhas do cabo da Serra, em 22° 9' Sul e 23° 20' Este,  remata pela banda do Norte a baía dos Farilhões.
No rosto dessa ponta,  assentes em parcel que tem 6 milhas de Norte a Sul,  se prolonga até umas 5 e meia para Oeste da costa, se mostram os dois Farilhões, rochedos vulcânicos, negros, situados a meia milha da terra, para Oeste da boca do rio Swakop, que desce de Este,  corre por entre dois picos altos e solitários, pertencentes às montanhas Blaauwe, e para Noroeste do monte Colquoum; é este monte o mais elevado daquela cordilheira, está em 22°33'Sul e 23 49' Este, tem 1000 metros de alto.

foz do rio Swakop, Namíbia
Perto da beira mar, à latitude do Colquoum, uns 12 metros acima do nível do oceano, está uma lagoa.
Não é ainda conhecida a hidrografia da baía dos  Farilhões, o que todavia pouco importa, por ser lugar desabrigado, e ficar apenas 30 milhas mais para Sul a muito amparada baía de Walwich.
Sabe-se porém que há na entrada daquela de 18 a 23 metros de fundo,  que anda por 12 milhas a distância entre as pontas extremas, sitas  uma da outra.
Passada a baía dos Farilhões, se apresenta a costa arenosa e baixa; quanto mais para Sul tanto mais as dunas de areia vão recuando para o sertão, por modo que nas vizinhanças da baía de Walwich é a terra plana até muito para o interior.

Esmeraldo Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira:
" Jaz o cabo do padrão e a praia das pedras norte e sul e tem doze léguas na Rota e esta praia será de 5 ou 6 léguas ao longo do qual a maior parte dela é toda cheia de penedos e no cabo dela há uma angra muito pequena e esta jaz debaixo do trópico de Capricórnio? Pontualmente? e por isso se aparta em latitude do círculo polar equinocial contra o pólo antárctico 23º 33´; toda a costa é deserta e toda a terra são areias e costa de muita infinda pescaria e para diante trabalhosa de navegar; e no mês de Junho, Julho; Agosto se acontece acudirem aqui os ventos norte e noroeste com que para o cabo de Boa Esperança à popa fazem caminho".

O mapa de Henricus Martellus Germanus, refere que depois do Cabo do Padrão vem a Praia das Sardinhas e por último a Serra Parda, onde hoje se encontra a actual cidade de Walvis Bay 22º 57’ 33’’ lat. Sul.
A expedição terminou neste local?  Em Walvis Bay, ou nas suas imediações 30 km para o interior não existe nenhuma serra. Centenas de dunas compõem o cenário paisagístico do seu interior, chegando algumas a atingir 300 metros de altura.
Depois do Cabo do Padrão da Serra, a guarnição navegou  mais umas centenas de milhas da costa para Sul até  à "Ponta dos Farilhões", reconhecendo  a   "Piagia da Sardinha", Praia da Sardinha, e a "Sierra Parda", Serra Parda onde  a terminou a expedição marítima .[mapa de Henricus Martellus Germanus, 1489],
O termo exacto da viagem, deve-se a uma legenda de um mapa de 1489 de Henricus Martellus Germanus, cujo texto legenda, sugere que o navegador aí morreu. Se assim aconteceu, foi esta a razão porque os barcos não avançaram mais para Sul?!
Em 1884 a Namíbia foi proclamada por Bismarck, protectorado da Alemanha, após o fim da 1ª guerra (1914-1918), passou a ser um protectorado da África do Sul
No tempo da Alemanha de Bismarck, em 1893, Beder, comandante do cruzador alemão Falte, recolheu num cabo que algumas cartas antigas chamam Cabo do Padrão, modernamente tem o nome de Cape Cross, um padrão que levou para a Alemanha.
Encontra-se no museu do Institut fur Deutsche Geschichte, Berlim- Leste, sendo o único de todos os Padrões de Diogo Cão que conserva a cruz como cimeira original.
A cruz de pedra que o descobridor português colocou na actual Costa do Esqueleto em Fev./Mar de 1486, foi assim no final do século XIX 1893, retirada para Berlim pela então potência colonial, a Alemanha, mais tarde substituída por uma imitação réplica.
Em 1998, o governo da Namíbia, Sudoeste Africano, pediu às autoridades alemãs a devolução do padrão erigido há 512 anos, no litoral daquele país africano pela guarnição de Diogo Cão, a fim de exibi-lo na Expo-98, em Lisboa, o que não chegou a concretizar-se.
Em plena Costa dos Esqueletos, no local que hoje a cartografia refere como Cape Cross, surge uma réplica do padrão que ali foi deixado em 1486 por Diogo Cão, o primeiro navegador europeu a chegar à Namíbia e atingir as proximidades do Trópico de Capricórnio (23º e 27’ lat. Sul).
"Para o visitante, é difícil de imaginar a reacção da armada de Diogo Cão ao encontrar uma colónia de focas, chegando a reunir cerca de 100 mil animais.

No século XV, a tribo Herero saiu da Etiópia, com os seus rebanhos, e atravessou a África até à Namíbia. Os Himba, Ovahimba, que hoje vivem no Sul de Angola, são descendentes dos Herero, e mantiveram as tradições centenárias quase intactas. Uma delas é o hábito das mulheres de cobrirem o corpo com um óleo avermelhado, mistura de banha de boi com uma pedra local, que protege a pele do vento e do sol. As mulheres Himba despendem todos os dias várias horas a cuidar da sua beleza. 
mulheres Himba
As Himba também comandam uma sociedade poligâmica, em que cada mulher pode ter relações sexuais com vários homens. Os Himba vivem próximos ao Rio Cunene, que marca a fronteira entre a Namíbia e Angola, mas circulam livremente entre os dois países. Para eles, não existem fronteiras. Vagam pelo deserto como os leões e os elefantes, chegando a caminhar até 80 quilómetros em busca de água para o gado. Tanto esforço vale a pena: o gado bovino é o principal símbolo de status de uma família Himba, e seu roubo é punido com a morte
A costa da Namíbia é uma terra inóspita que se esparrama por 1600 km ao longo do Sudoeste da África. 
O mar de dunas, a névoa desorientadora, a falta de água, os horizontes intermináveis e os leões estão sempre à espera de uma presa indefesa.
 deserto do Calaári, Namíbia
O deserto da Namíbia ocupa uma faixa litorânea de cerca de 50 km de largura .Surge depois, uma vasta região semi-árida e montanhosa, igualmente remota e hostil. É um dos desertos mais antigos do mundo.
Há 80 milhões de anos, a areia vem sendo pacientemente depositada ao longo da costa. Quase toda a areia da Namíbia vem do mar, carregada pelo aluvião do Rio Orange, ao Sul, até ao Oceano Atlântico.
Da foz é levada pela corrente marítima e pelo vento até ao litoral da Namíbia. O resultado deste longo trabalho é um interminável manto de dunas que se debruça sobre as águas frias do Atlântico e redesenha o mapa da Costa do Esqueleto a cada dia.
Praias, baías e ilhas que os navegadores portugueses mapearam já não existem mais.
Algumas das dunas chegam até 300 metros de altura. São, pelo que se diz, as mais altas do mundo. Isso tudo seriam belas praias tropicais se chovesse mais do que os 15 milímetros por ano que gotejam sobre a Costa do Esqueleto (a precipitação anual da Amazónia é de 2500 milímetros por ano).
No lugar da chuva, quem dá as caras por ali é uma névoa espessa que, toda manhã invade o deserto e se alastra até 50 km sobre o continente. 
plantas espinhosas do deserto do Calaári, Namíbia
Obra do singular encontro da fria Corrente de Benguela com o ar quente do deserto, a névoa, em seu caminho, vai se depositando nas poucas espécies de plantas que vivem no deserto.
Plantas essas que servem de alimento a animais como elefantes, girafas e antílopes. 
É assim que a vida se sustenta no Namibe.
Uma das plantas vem se alimentando dessa forma há milhares de anos, é a Welwistschia mirabilis, apelidada por Charles Darwin de “ ornitorrinco do reino vegetal”. A planta, endémica do Namibe, é um milagre da evolução.
Só com a névoa matinal, cada exemplar pode viver cerca de 2 mil anos. Por causa da sua estranha forma – apenas duas folhas rígidas e fibrosas acopladas a um caule grosso e achatado – os botânicos consideram a Welwitschia uma espécie de árvore anã.
Welwitschia Mirabilis
Outra planta que sobrevive bem às duras condições do deserto é o melão! Nara (o ponto de exclamação significa um estalido com a língua no idioma falado pela tribo nama). Com sua raiz de 40 metros de profundidade, a planta tira do lençol freático toda a água de que precisa para viver. 
melão! Nara
Névoa pode ser bom para insectos e plantas, mas para quem está disposto a tentar escapar das armadilhas do deserto pode ser o fim.
Imaginemos alguém perdido no meio de uma névoa costeira que não lhe permite ver um palmo adiante e que, para piorar, vem acompanhada pelo ronco gelado do vento sudoeste que sopra sobre as dunas.
Agora imagine-se como seria para os antigos navegantes enfrentar um mar revolto repleto de recifes e bancos de areia e no meio da neblina. É fácil supor por que a Costa do Esqueleto é considerado um dos litorais mais traiçoeiros do planeta. O litoral inteiro da Namíbia está tomado pelo deserto.
Não se espere encontrar a foz de um rio derramando água fresca e farta sobre o oceano. O litoral da Namíbia tem apenas dois rios perenes: O rio Cunene ao Norte, faz fronteira com Angola, e o rio Orange ao Sul, que delimita a divisa com a África do Sul.
Entre  ambos, só o deserto e o seu punhado de rios sazonais. O que já basta. Os especialistas chamam a esses rios de “ oásis lineares”, responsáveis por abrigar quase toda a vida do Namibe.
Também aparecem leões, vêm do semi-árido, caminhando lentamente pelo leito dos rios até chegar à costa. E, como a vida animal não é tão abundante como a da savana, adaptaram-se ao cardápio disponível.
Acabaram por descobrir uma nova fonte de alimento nas focas e nas baleias encalhadas, ocupando as praias da costa do Esqueleto. Refeições que compartilham com hienas e chacais, ali em Cape Cross os leões vão à praia.
Defendida por um mar turbulento que atira qualquer barco contra a costa, tem sido ao longo dos séculos cenário de vários naufrágios, que hoje são recordados pelos muitos restos de navios que surgem presos nas armadilhas da areia da praia. É a presença destes destroços que dá origem ao nome desta longa linha de areia que se estende até Angola, Costa dos Esqueletos. "[Bartaburu, Xavier - Revista Terra - Namíbia].


É a seguinte a legenda da carta de Henricus Martellus, de 1489, da qual consta que Diogo Cão, tendo colocado um padrão no Monte Negro (o actual Cabo Negro) segue avante mais mil milhas, até à Serra Parda e ali morre:
ad hunc usquemontem qui vocatur niger pervenit classis secudi regis portugalie cujus classis prefectus erat diegus canus qui in memoriam rei erexit colunam marmoreã cum crucis in signe et ultra processit usque ad Serram Pardam que distat ab mõte nigro mille miliaria et hic moritur”.
tradução:
até este monte que se chama Negro chegou a armada do rei de Portugal [João] segundo, da qual armada era comandante Diogo Cão, que erigiu uma coluna de mármore com o sinal da cruz e seguiu avante até à Serra Parda, que dista do Monte Negro mil milhas e aqui morre “.
Esta interpretação tem a seu favor certas afirmações contidas num parecer de peritos espanhóis apresentada na conferência luso-espanhola de 1524, reunida em Badajoz «.... Diogo Can.... em outro viagem desel dicho Monte Negro pasó á Sierra Parda, donde muerio» Publicado por Navarrete (Coleccion de los viages Y descubrimientos, tomo IV, pág. 343 a 355).
Outros aceitaram a leitura, segundo a qual a frase quereria dizer que aí acabava a serra. O conhecimento de um mapa do cartógrafo veneziano Pietro Coppo, datado de 1520, resolveu a questão?!: aí está escrito “reversus est in regno”, aludindo ao navegador, que  volveu ao reino do qual nunca mais houve notícia.
Pietro Coppo resolveu a questão? Se o navegador volveu ao reino,  porque motivo nunca mais houve notícia dele?! Como soube que volveu ao reino, se no ano de 1520, já tinham passado 34 anos, desde que se realizou  a última viagem, 1486!?
No globo terrestre de Martin BehaimMartinho da Boémia-, há uma legenda na costa ocidental de África
 que refere o seguinte:
globo terrestre de Martin Behaim de 1492
“Quando começava o ano de 1484? o ilustríssimo rei D. João II de Portugal mandou dois navios chamados caravelas tripulados, fornecidos e armados para três anos, além das Colunas de Hércules, em África, sempre para o meio-dia e contra o nascer do Sol, enquanto lhes fosse possível….”
Assinalando a passagem de Diogo Cão pelo Cabo Negro, marca baliza, por estas palavras:
“Aqui levantaram as colunas do rei de Portugal a 18 de Janeiro de 1485, ano do Senhor.”
Entretanto Damião Peres contesta aquela data dizendo:
“Deve entender-se que o ano de 1485 da legenda corresponde na contagem habitual moderna a 1486, tendo o autor Behaim usado ali, certamente, o estilo da Anunciação, segundo o qual os anos começam em Março e não em 1 de Janeiro”. História de Angola – 1º Volume de Ralph Delgado
Martellus Germanus, Henricus
Sobre este cartógrafo pouco se sabe, dada a escassez de dados biográficos existentes sobre o mesmo. Sabe-se ser de nacionalidade alemã, o seu nome latinizado acrescentava o aposto “germanus”. Henricus Martellus Germanus operou em Itália, na cidade de Florença, no último quartel do século XV, na oficina do gravador e impressor de cartas náuticas, Francesco Rosselli.
Alguns autores, entre os quais Roberto Almagià, admitem que Martellus tenha trabalhado em associação com Rosselli, concluindo aquele estudioso italiano que uma parte da obra cartográfica de Martellus Germanus se radica na obra de Rosselli, não obstante Armando Cortesão admitir que “apenas se pode conjecturar” a eventual associação entre os dois cartógrafos.
De importância fundamental para a história da cartografia quatrocentista, avulta o planisfério de raíz ptolomaica, da autoria de Henricus Martellus, datado de c. 1489, inserido no Insularium Ilustratum Henrici Martelli Germani, de que se conhecem quatro cópias:
no British Museum, na Biblioteca da Universidade de Leiden,
no Musée Condé de Chantilly, e
na Biblioteca Laurenziana de Florença.
A raiz ptolemaica na obra deste cartógrafo foi observada por O. A. W. Dilke a propósito do grande mapa-múndi manuscrito, datado de c. 1490, com assinatura “Opus Henricus Martellus Germanus”, que se guarda na Biblioteca da Universidade de Yale, divulgado em 1963 por Alexandre Vietor.
Dilke deduz que o cartógrafo, ao utilizar a Segunda Projecção de Ptolomeu na execução desta carta, foi “aparentemente a primeira pessoa que optou por este procedimento”.
Na carta de Martellus, de c. 1489, encontram-se registados os resultados da segunda viagem de Diogo Cão, quando este navegador, em 1486, erigiu o seu quarto padrão em “c. de padrom”, actual Cape Cross, Namíbia e chegou a “serra parda”, bem como as consequências da viagem de Bartolomeu Dias de 1487-88, no decorrer da qual descobriu a costa africana para além do término da última viagem de Diogo Cão, dobrou o Cabo da Boa Esperança e, tendo passado pela “ilha de fonti”, aportou a “rio do Infante” em pleno Oceano  Índico.
Neste planisfério, as viagens efectuadas pelos dois navegadores portugueses são evocadas por três legendas.
Na legenda inscrita sobre o Golfo da Guiné, diz-se: “Hec est Uera forma moderna affrice secundum discripcione Portugalesium Jnter mare Mediterraneum et oceanum meridionalem”.
Esta legenda é bastante elucidativa da moderna configuração do continente africano, entre o Mediterrâneo e o Índico.
Uma segunda legenda elucida-nos sobre a colocação do referido quarto padrão no Cabo do mesmo nome, quando da última viagem de Diogo Cão, e refere: “Ad hunc usq; montem qui vocatur niger per venit classis secundi regis portugalie cuia classis perfectus erat diegus canus qui in memoriam rei erexit colunam marmorea cum crucis ab mõte nigro et hic moritur”.
A terceira e última inscrição, diz respeito à dobragem do Cabo e à chegada de Bartolomeu Dias à “ilha de fonte” e observa a data de 1489, portanto, imediatamente a seguir à viagem deste navegador.
Reza a legenda: “ Hunq usq ad Ilha de fonti pervent ultima navegatio portugalesium. anno. d. ni. 1489,
O monumento cartográfico da autoria de Henricus Martellus inscreve-se num grupo de cartas vulgarmente designadas por “luso-ptolemaicos”, que procuram conciliar uma cartografia de natureza prática, que tem por base a observação directa dos lugares e uma cartografia de raiz erudita e humanística, que ainda prevalecia nas oficinas dos cartógrafos onde Ptolomeu era modelo a observar.

O facto de Martellus Germanus ter elaborado o seu mapa-múndi a partir de originais portugueses desaparecidos, realça o seu excepcional valor, dada a escassez de monumentos cartográficos portugueses executados no século XV. Dada a abundante presença de estrangeiros na corte de Lisboa, interessados no comércio das nossas espécies cartográficas, o pretenso cuidado dos monarcas portugueses teve limitados ou nulos efeitos. Segundo Armando Cortesão, baseado em estudos de H. Winter e E. G. Ravenstein, Martim Behaim ter-se-á inspirado no mapa de Martellus na construção do seu Globo. “A Cartografia Portuguesa dos Séculos XV e XVI”, in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, vol. II, Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa, 1986, pp. 1061-1084. CORTESÃO, Armando, Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos Séculos XV e XVI, Lisboa, Seara Nova, 1935. IDEM, História da Cartografia Portuguesa, vol. II, Lisboa, 1970, pp. 204-209. GUERREIRO, Inácio, “A viagem de Bartolomeu Dias e os seus reflexos na Cartografia Europeia Coeva,”, in A Viagem de Bartolomeu Dias e a Problemática dos Descobrimentos, Actas do Seminário realizado em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, de 2 a 7 de Maio de 1988, pp. 133-143.

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