quarta-feira, 10 de março de 2010

" verdadeiras Antilhas "



 


Terra Nova, Nova Escócia e Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá.

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Há mais do cinco séculos que o mundo inteiro está convencido de que as Antilhas, também chamadas as Índias Ocidentais, estão localizadas no Mar das Caraíbas, na América Central. Este trabalho vem demonstrar que isso é um erro enorme com uma discrepância de quase duas mil milhas e 577 anos do duração!

Esta comunicação é baseada na descoberta e análise das latitudes da famosa Carta Náutica do 1424. 0 original desta Carta Náutica de 1424, feito em pergaminho, está na Colecção de James Bell Ford, na Universidade de Minnesota. Em 1954, esta Universidade pagou à Colecção de Sir Thomas Phillips de Londres, Inglaterra, muitos milhares do dólares por este documento.

0 Prof. Armando Cortesão, depois de quatro anos de investiga­ção, revelou os seus estudos num livro escrito em inglês, The Nautical Chart of 1424, publicado pela Universidade do Coimbra em 1954. Calcula se que hoje o mapa valha cerca de cinquenta milhões de dólares!

Aspecto geral da Carta Náutica de 1424. Notar as 4 ilhas em preto no cento do mapa, ou na área designada pela letra B
 
Para melhor examinarmos a Carta Náutica do 1424, tivemos dividi-la em quatro partes:

Não há ninguém que duvide da autenticidade da Carta Náutica de 1424. Este mapa é duma importância extraordinária para a estudo geográfico da Terra, porque representa, pela primeira vez na história do mundo, quatro ilhas como sendo terras americanas!

(A) Na extrema esquerda está a data do 22 de Agosto do 1424 e o nome do seu autor, o cartógrafo Zuane Pizzigano.

(B) A seguir, verticalmente, estão as quatro ilhas: ao norte está uma pequena ilha em forma de quarto crescente chamada, (1) Saya e logo por baixo uma grande com o nome de, (2) Satanazes; mais a sul, outra ilha grande denominada, (3) Antília e a ocidente destas, outra ilha pequena chamada, (4) Ymana

(C) No meio do mapa estão várias ilhas de tamanho pequeno que pertencem aos arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.

(D) E no lado direito da Carta Náutica estão muito bem delineadas, com muitos topónimos, as praias ou costas da Europa e da África, desde a Irlanda até ao arquipélago de Cabo Verde.

Na Carta Náutica de 1424 estão gravadas nitidamente a data de 22 de Agosto de 1424 e o nome do seu autor, Zuane Pizzigano, um cartógrafo italiano de Veneza. Apesar do mapa ter sido feito por um italiano os nomes das quatro ilhas — Antília, Satanazes, Soya, e Ymana — estão escritos em português a testemunhar, portanto, a ida e volta de navegadores portugueses a Terras da America, antes de 1424!

Devemos notar que Antília, ou Antilha, foi sempre uma palavra exclusivamente portuguesa. A palavra correspondente em italiano é Antiglia, mas o cartógrafo italiano, Zuane Pizzigano, usou a palavra portuguesa, certamente, a atestar que a referida ilha já era portuguesa.

A palavra Antília é composta por “ante” que quer dizer “em frente de”, mais “ilha”. Portanto, Antília é uma ilha que está em frente de qualquer coisa, neste caso do Continente Americano.

O ponto de referência mais importante é a latitude de 40 graus norte que passa pela minha aldeia no Norte de Portugal. Foi esta latitude que me deu a luz para analisar as outras latitudes na Carta Náutica de 1424 e fazer a descoberta original de que a Terra Nova e Nova Escócia são realmente as Verdadeiras Antilhas.

As Latitudes

As latitudes da Carta Náutica de 1424 nunca foram calculadas criterio­samente por nenhum historiador, nem por nenhum cartógrafo, incluindo o próprio Professor Armando Cortesão que consagrou vários anos a estudar este importantíssimo documento geográfico!

As linhas de latitude e longitude são o “cérebro” e o “coração” de todo e qualquer mapa. A Carta Náutica de 1424 só tem linhas portulanas. Vamos traçar e medir-lhe as linhas de latitudes.
 
Para medir com exactidão as latitudes da Carta Náutica de 1424, procedi da seguinte maneira:

(1) Primeiro: fiz um negativo do mapa mundial do Atlas da Sociedade Geográfica Americana, abrangendo a Europa e a África, (correspondendo à área na Carta Náutica de 1424) e incluindo também a América Central — com as Grandes e Pequenas Ilhas — assim como os Estados Unidos e o Canadá.

Sobrepondo, na câmara escura um negativo da Carta Náutica de 1424, num mapa moderno do Atlântico Norte, abrangendo a Europa e América, verifiquei que as projecções das quatro ilhas são muito mais próximas das latitudes da Terra Nova e da Nova Escócia do que das latitudes das ilhas na América Central, que ficam quase a duas mil milhas de distância ao sul!...
 
(2) Segundo: com o negativo do filme que obtive da área acima descrita, fui para a câmara escura e usando o ampliador, sobrepus exactamente os contornos das costas do mapa moderno do Atlas da Sociedade Geográfica Americana com as costas atlânticas da Carta Náutica de 1424.

Com esta simples projecção consegui fundir na mesma escala um mapa feito há 577 anos com um mapa actual. Deste modo podemos comparar não só as latitudes, os ângulos de inclinação, mas até as áreas, as baías e a configuração das ilhas da Carta Náutica de 1424, com a Terra Nova, Nova Escócia e a Ilha do Príncipe Eduardo, num mapa moderno actual do Canadá.
Latitudes dos mapas modernos

Olhando para um mapa moderno verificamos que o paralelo de latitude de 50 graus Norte passa pela ponta mais sudoeste da Inglaterra, chamada “Land’s End” ou Fim da Terra.
Este paralelo atravessando o Atlântico passa também pela costa norte da ilha da Terra Nova, no Canadá

O paralelo de latitude de 45 graus Norte que passa por Bordeaux em França ou por Génova na Itália, passa, também pelo meio da Nova Escócia, mesmo acima da cidade de Halifax.

O paralelo de latitude de 40 graus Norte que passa abaixo de Coimbra em Portugal e por baixo de Madrid em Espanha, atravessa exactamente a cidade de Filadélfia nos Estados Unidos da América.

Se medirmos as latitudes, em relação á Europa e á América, das quatro ilhas — Saya, Salanazes, Antília e Ymana — localizadas na Carta Náutica de 1424, verificamos que o paralelo que passa por cima da ilha de Saya (com o feitio dum quarto crescente) tem uma latitude de 47 graus Norte.
Este paralelo passa por baixo da cidade de Paris em França e ao sul da cidade de São João da Terra Nova.

A extremidade da ilha de Satanazes tem uma latitude de 46 graus que corresponde ao paralelo que passa na extremidade da península da Nova Escócia.

A latitude do extremo sul da ilha Satanazes é de 44 graus, igual ao paralelo que passa pelo sul da Nova Escócia.

0 cabo norte da Ilha Antília tem uma latitude de 40 graus Norte, assim como Coimbra e Madrid na Europa e Filadélfia na América. 0 extremo sul da Ilha Antília tem uma latitude de 35,5 Norte, correspondendo ao Cabo Hatteras na Carolina do Norte nos Estados Unidos e abaixo de Tanger, ao sul do Estreito de Gibraltar.

A llha Ymana tem uma latitude entre 37 e 38 graus Norte que cor­responde à latitude da área de Sevilha em Espanha e à zona do Algarve em Portugal onde existiu, há mais de 500 anos, a Escola de Navegação dos Descobrimentos Portugueses e donde originaram os Corte Reais, da Cidade de Tavira.

Nos Estados Unidos corresponde à latitude de Washington, D. C. e de Annapolis, onde funciona a Escola Naval de Cadetes da Marinha Americana.

Falsas Antilhas
Se compararmos as latitudes das quatro ilhas — Saya, Satanazes, Antília e Ymana — situadas entre 47 e 35,5 graus Norte, com as latitudes das Grandes e Pequenas Antilhas na América Central situadas entre 23 e 10 graus Norte, verificarmos que há uma diferença enorme.

A latitude que passa pela costa norte de Cuba é de 23 graus Norte e a latitude que passa pela Costa sul da ilha de Trinidade é de apenas 10 graus Norte.

Se projectarmos estas latitudes através do Atlântico verificarnos que as latitudes de 23 e 10 graus são exactamente as latitudes do Deserto do Saará , em África.

Há mais de cinco séculos e meio, todo o mundo tem localizado, erradamente, as Antilhas no Mar da América Central! Estas são as “Falsas Antilhas”, no Mar das Caraíbas!

Entre as latitudes das ilhas Saya, Satanazes, Antília e Ymana e as latitudes das Antilhas no Mar das Caraíbas, há uma diferença, ou um erro de mais de 25 graus de latitude, o que equivale a uma distância ou discrepância de mais do 1,750 milhas!

Longitude

Sabemos que antigamente os navegadores não eram capazes do medir as longitudes correctamente, mas eram muito peritos em medir as latitudes.

Servindo-se da Estrela Polar, do Sol e do horizonte, os marinheiros de outrora registaram as latitudes com tal precisão que hoje temos que admirar o seu grande poder de observação, considerando os instrumentos rudimentares que possuíam.

A medição da longitude só foi possível ser determinada com exactidão depois do aperfeiçoamento do sextante em 1730 por John Hanley na Inglaterra e Thomas Godfrey na América e do cronómetro marítimo de John Harrison em 1735 na Inglalerra. Hoje os navios e os aviões usam, como referência, os salélites que lhes dão com precisão, imediatarmente, a longitude e a latitude.

Nesta imagem podemos comparar as baías da Terra Nova e da Nova Escócia com as baías das 4 ilhas da Carta Náutica de 1424, que se metem também pela terra dentro! Notar que a ilha maior tem o nome escrito no próprio mapa: Antilha

Baías

Baseando-se na Lenda da Ilha das Sete Cidades ou Lenda da Antílha que serviu de remoto refúgio aos Sete Bispos da Península Ibérica, houve quem dissesse que as baías indicadas na Ilha Antílha desenhada na Carta Náutica de 1424, representavarn o número exacto de bispos que fugiram... E então as baías da Ilha de Satanazes (ou dos Diabos) o que é que representam?

Todas essas baías, tão bem desenhadas nas duas grandes ilhas na Carta Náutica de 1424, representam, sim, todas aquelas numerosas baías enormes, que se metem pela terra dentro e que existem hoje na Terra Nova e na Nova Escócia!

É deveras impressionante compararmos os cabos e as baías actuais da Terra Nova e da Nova Escócia com as baías e os cabos representados nas Ilhas Antília e Satanazes! Mas curioso é notarmos o pormenor de que a Ilha Satanazes, correspondente à Terra Nova, tem muito mais baías, que se metem muito mais pela terra dentro, coincidindo exactamente com as características geográficas das costas da Ilha da Terra Nova!

É muito importante compararmos os ângulos de inclinação da Terra Nova e da Nova Escócia com os ângulos de inclinação das quatro ilhas desenhadas na Carta Náutica de 1424. Coincidência extraordinária!
 

Ângulos de Inclinação

Outro lado fascinante que podemos observar na Carta Náutica de 1424, é o ângulo de inclinação formado entre a vertical e a horizontal (paralela ao equador) com o eixo do comprimento das Ilhas Satanazes e Antília.

Na Ilha de Satanazes o ângulo é de 57 graus, praticamente o mesmo ângulo de inclinação da Terra Nova que é de 60 graus.

Na Ilha de Antília o ângulo obtido com a mesma técnica é de 22 graus, mas na Nova Escócia é muito maior: 62 graus. Se há diferença numérica entre os ângulos devemos notar que há, no entanto, um denominador comum: todas as ilhas estão inclinadas para a Europa.

Com respeito á ilha de Saya estamos em crer que seja a representação da Península do Avalon, na Terra Nova, porque se não fosse o seu istmo tão estreito seria na realidade uma ilha.

Estamos em crer que a Ilha Ymana seja uma representação da actual llha do Príncipe Eduardo.

Se compararmos os ângulos do eixo de inclinação das ilhas das Grandes Antilhas — Cuba, Espanhola, Jamaica e Porto Rico — no Mar das Caraíbas, verificamos que todas elas estão deitadas no seu maior eixo de comprimento paralelo ao equador e se têm alguma inclinação é virada para América Central e não para a Europa, como estão as Verdadeiras Antilhas Portuguesas no Canadá e desenhadas na Carta Náutica de 1424.
 
Áreas

É interessante compararmos a área de Portugal Continental com as áreas das ilhas Satanazes, Antília, Terra Nova e Nova Escócia.

A área de Portugal Continental é de 34,340 milhas quadradas ou 88,940Km2. A área da Nova Escócia é dé 21,425 milhas quadradas ou 55,490km2 e da Terra Nova é do 43,359 milhas quadradas ou 112,299km2.

É óbvio que os primeiros descobridores portugueses da Terra Nova e da Nova Escócia, ou seja das ilhas Satanazes e Antília, observaram muito bem que se tratava de ilhas de grande tamanho e portanto muito maiores do que as outras ilhas pequenas conhecidas no Atlântico tais como Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.

Devemos notar também que o nome de Satanazes ou Ilha dos Diabos dado à Terra Nova, foi um nome bem escolhido pelos portugueses, porque descreve as condições diabólicas que ainda hoje ali existem para a navegação marítima, devido aos nevoeiros cerrados, marés extremas (de 60 pés!) e as perigosíssimas montanhas de gelo ou “icebergs”, capazes de afundar navios como aconteceu ao maior paquete mundial, o “Titanic”.

Quatro Investigadores

Que saibamos, há apenas quatro investigadores que estudaram a Carta Náutica de 1424:

(1) Armando Cortesão da Universidade de Coimbra; (2) Eva Taylor da Universidade de Londres; (3) Karc Prylz de Homar, Noruega, (4) Manuel Luciano da Silva, do Centro Médico de Bristol, R.I., U.S.A.

Em 1954, Armando Cortesão disse na página 101 do seu livro acima citado: “Seria muito fácil para nós dizermos quais das Ilhas Antilhas (ele referiu-se às Antilhas na América Central) que aparecem desenhadas (na Carta Náutica de 1424) ou até se o Continente Americano estaria ali representado: Haiti, Cuba, Jamaica, Porto Rico, algumas das Bahamas, Trinidade ou algumas das Pequenas Antilhas, Florida ou até a Gronelândia? Mas não temos nenhum guia seguro para tentarmos algumas dessas identificações...”

Armando Cortesão não encontrou nenhum guia seguro porque ele não descobriu as linhas de latitudes na Carla Náutica de 1424!

Em 1964, Eva Taylor, Professora de Geografia na Universidade dc Londres, publicou um artigo, na revista “The Geographical Journal”, Vol. 130, March 1964, intitulado “Imaginary Islands: Problem Solved”. (Ilhas Imaginárias: Problema Resolvido).
Esta professora britânica também falhou em calcular as linhas de latitudes na Carta Náutica de 1424. No referido artigo ela faz até uma observação crassa a respeito dos marinheiros do século XV: “Os marinheiros de então não compreendiam, nem usavam instrumentos para determinarem a latitude.” Isto é uma declaração que não corresponde a verdade!

Em 1984, Kare Pryiz de Homar, na Noruega, escreveu Lykkelige Vinland, Ashehoug, Oslo, mas também não descobriu as latitudes. Andou nas bordas!...

Fez o diagnóstico das quatro ilhas que aparecem na Carta Náutica de 1424, com os nomes portugueses, de Saya, Satanazes, Antília e Ymana, como sendo respectivamente a Nova Escócia e o litoral dos Estados de Connecticut, New York, New Jersey até à Carolina do Sul, nos Estados Unidos da América.

Não incluiu a Terra Nova! Se tivesse contado com Terra Nova tinha acertado em cheio com o diagnóstico certo.

Coube a mim fazer o diagnóstico completo das Verdadeiras Antilhas! Foi no dia 7 de Novembro de 1986, numa sexta-feira, 3 minutos para a meia noite, que calmamente, na minha biblioteca, tracei as linhas de latitude na Carta Náutica de 1424.

Devo dizer que um facto muito simples contribuiu para esta descoberta original.

Saber que a aldeia onde eu nasci, Cavião, Vale de Cambra tem uma latitude norte de aproximadamente de 40 graus. Com este dado eu pude observar que as quatro ilhas na Carta Náutica de 1424, nunca podiam estar dentro das latitudes de 10 a 23 graus, como acontece com as ilhas de Cuba e Trinidade, na América Central. Nunca!

Escrevi então duas monografias, uma em português e outra em inglês, intituladas “As Verdadeiras Antilhas” ou “The True Antilles”, que foram registadas com copyright na Biblioteca do Congresso, em Washington, no dia 12 de Janeiro de 1987.

Depois disso este trabalho foi consagrado com a sua publicação na revista “Massachusetts Maritime Academy Magazine”, Vol II, No.1, revelando ao mundo marítimo americano que:

Na palmas das nossas mãos:

Se representarmos as latitudes da Terra Nova e Nova Escócia pela palma da nossa mão esquerda e as latitudes das 4 ilhas desenhadas na Carta Náutica de 1424, pela palma da nossa mão direita e depois deslizarmos um pouco para baixo a nossa palma direita, verificamos que AMBAS as latitudes estão contidas nas superfícies de ambas as palmas!!!

Sendo assim poderemos até bater as palmas pela descoberta das mesmas latitudes em dois mapas, -- o moderno e a Carta Náutica de 1424,-- feitos com um intervalo de 577 anos!!!

1) Não existem absolutamente nenhumas dúvidas sobre a veracidade e autenticidade da Carta Náutica de 1424.

(2) A Carta Náutica de 1424 é o documento geográfico mais importante e mais antigo que se conhece, mostrando, pela primeira vez, Terras da América.

(3) Na Carta Náutica as Verdadeiras Antilhas estão desenhadas a noroeste dos Açores.

(4) As Antilhas da América Central doravante devem ser chamadas as “Falsas Antilhas” e estão a sudoeste dos Açores.

(5) A revelação cartográfica de que as Verdadeiras Antilhas são a Terra Nova, Nova Escócia e a Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, vai, finalmente, dar a primazia da descoberta da América antes de 1424, aos navegadores portugueses, isto é, mais de quarenta anos antes de Colombo ter nascido!

(6) Agora compreendemos bem por há centenas de anos existem mais de uma centena de nomes (topónimos) portugueses nas costas atlânticas do Canadá!

E também compreendemos melhor, se a Pedra de Dighton está a uma latitude de 40 graus Norte, encontra-se dentro do âmbito das navegações que os nossos navegadores pioneiros fizeram para a América do Norte, há mais de cinco séculos e meio!

Pedra de Dighton, quando ainda estava na margem do Rio Taunton em 1959, com as inscrições portuguesas decalcadas a giz para melhor didáctica.

terça-feira, 9 de março de 2010

"mapa dito de Cantino de 1502"


O chamado "Planisfério de Cantino" é um dos mais antigos mapas da era dos descobrimentos.

É uma cópia do "padrão real" e foi desenhado por um cartógrafo Português, da casa da Guiné e da Mina(mais tarde Casa da Índia) em 1502. Demonstra o elevado grau científico com que os portugueses trabalhavam durante os descobrimentos. Foi obtido clandestinamente por um espião chamado Alberto Cantino.

Esta personagem pagou 12 ducados de ouro ao cartógrafo e enviou-o para Itália, para Hércules d' Este, Duque de Ferrara. 

É o primeiro mapa que apresenta a costa do Brasil a costa da América do Norte com a Flórida, a Groenlândia e a Terra Nova, Madagáscar, Índia, Malásia e Golfo da Tailândia. 

Foi a primeira vez que estão representadas num mapa as linhas do Equador e do tratado de Tordesilhas. A África está espantosamente bem desenhada, tendo em conta que só tinha sido circum-navegada por três vezes (mas a última armada - a de João da Nova- ainda não tinha regressado a Lisboa). No entanto a Europa, em relação à África, não está desenhada correctamente, está mais curta. 

Deve-se ao facto de, na altura, se utilizarem medidas comprimento diferentes:

Na Europa  cada grau era medido duma maneira e na África foi utilizada outra medida.

No séc. XVI as escalas eram de 18 léguas por grau ou de 20 por grau.

Na escala de 18 cada légua media 6173 metros (cada grau eram 111.114 metros).

Na escala de 20 cada légua media 5.555 metros( cada grau media 111.100 metros)
O mapa está desenhado em três escalas diferentes das que eram habituais; 18,5 ; 22,5 ; e 24.

Apresenta ainda outros enigmas que são falados nas fotos de pormenor.

O mapa encontra-se na biblioteca Estense, em Modena, Itália.  

Planisfério "Cantino": uma história de espiões.

No contexto político do princípio do século XVI, com a Europa suspensa nos descobrimentos ibéricos, o segredo era um imperativo.

Qualquer informação geográfica fornecida pelos navegadores portugueses, era tratada com grande confidencialidade por cartógrafos. A quebra de sigilo era considerada como traição ao reino e assim punida, no reinado de D. João II, com a pena de morte.

Mesmo assim, o diplomata -espião, Alberto Cantino, sediado em Lisboa, recolhe informações acerca das descobertas feitas pelas coroas ibéricas, para o Duque de Ferrara, representante de uma poderosa linhagem de comerciantes italianos.

Quando este último exprime a vontade de ter um mapa ilustrativo das viagens, Cantino procura responder à exigência ducal, recorrendo a um cartógrafo ou copista, ainda hoje anónimo.


O mapa exigiu dez meses de trabalho, entre Dezembro de 1501 e Outubro do ano seguinte, documentados por correspondência entre o espião e o Duque.

É provável que Cantino tenha tido o cuidado de entrevistar pilotos, obtendo assim mais informação, o que explica os escritos adicionais.

Em Setembro de 1502, Cantino, já em Roma, informa o Duque do sucesso da empreitada.


O mapa já se encontra em Génova e havia custado em Portugal doze ducados de ouro, um preço elevado que denuncia a dificuldade e o secretismo da encomenda.

Composto por três grandes folhas manuscritas coladas, o planisfério foi construído no sistema de rosa-dos-ventos, sobre o qual estão representados o Equador, os trópicos e a linha de Tordesilhas. As bandeiras representam as nações soberanas, incluindo o Império Otomano em Constantinopla.

Marcos com o brasão português denotam os portos tocados pelas expedições de Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama.

Mesmo sem a escala graduada de latitudes, a carta ilustra, com grande exactidão, as linhas de costa dos continentes, especialmente a África que, pela primeira vez, surge em todo o seu perímetro, com cordilheiras verdejantes e nativos exóticos.

  linha imaginária  traçada a 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do Arquipélago de Cabo Verde, por exigência do Rei D. João II. 
Repare-se na minúcia dada à fortaleza portuguesa que demonstra a importância da força militar.
Na Ásia, onde as naus portuguesas ainda se aventuravam timidamente, descreve-se com menos precisão a Índia, a China (pela primeira vez, representada num mapa ocidental, como “Terra dos Chins”) e a Indochina.

Presume-se que, em relação a estes territórios, a sua concepção obedeça ainda a antigos mapas portulanos arábicos e a fontes secundárias.

Uma das inovações mais importantes respeita à grande redução da extensão longitudinal do continente asiático, o que demonstra a profundidade de conhecimentos dos cosmógrafos portugueses.

Uma inscrição em latim no reverso do mapa afirma “Carta de navigar per le Isole nouam trovate in le parte de India: dono Alberto Cantino al S. Duca Hercole”: esta carta náutica, de ilhas recentemente descobertas na região das Índias, foi apresentada ao Duque de Ferrara, Ercole d’Este, por Alberto Cantino.

O mapa permaneceu na biblioteca do duque até 1592, altura em que a colecção é transferida pelo papa Clemente VIII para um palácio de Modena, onde se mantém até meados do século XIX.

É alvo de pilhagem, sendo recuperado por Giuseppe Boni, director da Biblioteca Estense de Modena, quando (já mutilado) serve de cortina num talho da cidade.

Pelo seu grande significado, o planisfério de Cantino é especialmente representativo de uma época fervilhante em descobertas e conquistas não só geográficas, como científicas.

De uma enorme abrangência, este mapa inclui na sua representação do mundo, os territórios recém -achados do Brasil e Terra Nova.

Constitui, por isso, um dos raros exemplares sobreviventes de convulsões políticas e económicas, sendo um testemunho importante do passado.

A maior mentira do mapa Cantino!

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Agosto 25, 2003

Os historiadores e cartógrafos de todo mundo conhecem bem o chamado Planisfério de Alberto Cantino, presentemente guardado na Biblioteca Estense, na cidade de Modena, localizada ao norte de Bolonha, na Itália, Modena é célebre por causa dos carros de corrida fabricados nos seus arrabaldes com as famosas marcas Ferrari e Maserati.

Esta cidade hoje com 175 mil habitantes desenvolveu-se muito culturalmente quando os Duques d’ Este se mudaram da cidade de Ferrara para ali, em 1598.

A Biblioteca Estense possui muito livros raros e também uma colecção magnífica de mapas originais, entre eles o Planisfério de Alberto Cantino.

Este mapa é considerado anónimo mas hoje sabemos que foi feito por um cartógrafo português em Lisboa em 1502. No canto esquerdo inferior tem uma legenda que diz o seguinte: “Dono Alberto Cantino, ao Sr. Duque Hércules”. Isto é o princípio da atribulada história deste mapa.

É agora do conhecimento geral que Alberto Cantino era um espião italiano em Lisboa nos fins do século XV e princípio do século XVI. Ele era um espião tão esperto e eficiente que, chegou a ser secretário particular do Rei D. Manuel I.

O facto mais demonstrativo são as duas cartas de espionagem que ele escreveu para o Duque d’ Este, então Duque de Ferrara, descrevendo todos os detalhes da viagem de regresso que Gaspar Corte Real fez a Terra Nova em 1501.

Nestas cartas datadas em Lisboa em 17 e 18 de Outubro de 1501, o próprio Cantino afirma em ambas que ouviu tudo directamente porque “estava na presença ao Rei“ quando Gaspar Corte Real fez a sua apresentação ao monarca português!

Pois foi este mesmo Alberto Cantino, agente secreto de Hércules d’ Este, ao tempo, Duque de Ferrara, que tinha sido enviado para Lisboa para colher informações sobre os descobrimentos portugueses porque já naquele tempo tinham muita fama e causavam muita inveja por toda a Europa.
Com o pretexto de vir a Lisboa negociar em cavalos, Cantino conseguiu subornar um cartógrafo português que, lhe fez uma carta náutica com toda a informação geográfica secreta nos arquivos da Casa da Índia em Lisboa. Pagou um elevado preço pelo planisfério: doze ducados em ouro!
Sabemos por outra carta assinada por Cantino que ele enviou este mapa ao seu patrão, Duque de Ferrara, no dia 19 do mês de Novembro de 1502, a qual terminava da seguinte forma: “ a carta (o mapa) é di tal sorte, et spero che in tal manera piacerà a V. Exa.” Tradução “Este mapa é de tal qualidade que eu espero venha a ser de muito agrado a Vossa Excelência”.

O Planisfério de Cantino esteve durante cerca de 90 anos na Biblioteca Ducal até que o Papa Clemente VIII o transferiu para outro palácio em Modena. Mas este mapa teve pouca sorte porque devido aos motins de 1859 desapareceu até ser encontrado a servir de forro num anteparo duma salsicharia na mesma cidade de Modena. O Director da Biblioteca Estense foi chamado ao local e levou-o então para a sua Biblioteca onde se encontra desde 1868 até ao momento actual.

O Planisfério de Cantino de 1502 é hoje considerado uma obra prima da cartografia portuguesa e como carta geográfica é uma das mais importantes do mundo. É a primeira carta que representa o planisfério duma maneira mais completa: desde a Europa, América do Norte, Central e Sul, toda a África, a Ásia até ao Oriente.

É uma carta rica e com muito pormenor em topónimos. Mas a parte que nos interessa mais é a parte mais ocidental dos Açores, isto é, que diz respeito às Terras Americanas. Nesta região vemos ao centro uma linha perpendicular que é a Linha do Tratado de Tordesilhas de 1494 a dividir o mundo entre Portugal e Espanha.

Esta linha imaginária foi traçada a 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do Arquipélago de Cabo Verde, por exigência do Rei D. João II. O Tratado de Tordesilhas foi assinado em 2 de Julho de 1494.

A cidade de Tordesilhas fica em Espanha, entre Valhadolide e Salamanca. Os Reis Católicos, D. Fernando e D. Isabella de Espanha, queriam que a Linha de Tordesilhas fosse 100 léguas, de combinação com o Papa Alexandre VI que era de origem espanhola, mas o Rei D. João II exigiu que fosse 370 léguas e ganhou.
Neste mapa vemos que a Terra Nova e o Brasil estão incluídos no hemisfério oriental, a metade da terra que pertencia a Portugal. Hoje sabemos que o Rei D. João II comeu as papas na cabeça aos espanhóis -- ludibriou-os -- porque eles não sabiam da existência da Terra Nova nem do território que originou mais tarde o Brasil. Vamos agora a analisar o planisfério de Cantino no espaço das Terras Americanas.

Fig. No. 1 –
(1) Representa a Groenlândia com uma bandeira de Portugal com as Cinco Quinas.
(2) 'Terra Del Rey de Portugall,' representando a Terra Nova com os pinheiros do Canadá.
(3) Linha de Tordesilhas dividindo a esfera da terra entre Portugal e Espanha
(4) Açores
(5) Portugal Continental
(6) África
(7) Arquipélago Cabo Verde
Fig. No. 2-
Nesta secção do Mapa de Cantino vemos:
(8) Ilha Hispaniola, hoje Haiti e S. Domingos.
(9) Ilha de Cuba
(10) Península da Flórida. Notar que neste mapa português com a data de 1502 já vemos a Florida bem desenhada. Porque é que na América se ensina que foi Ponce de Leão que descobriu a Flórida quando ele chegou lá ONZE anos mais tarde em 1513, à procura da Fonte do Elixir da Longa Vida!...
(11) 'Las antilhas del Rey de castella'. Notar que nesta frase o nome antilhas está escrito bem claro em português e não em espanhol antilles.


Fig. No. 3 – (12) América do sul (13) Brasil com 3 papagaios.
Onde está a Grande Mentira no mapa Cantino?

Fig. No 4
A Grande Mentira está no nome Antilhas -- por cima do (11). Estas ilhas no Mar das Caraíbas não são as Verdadeiras Antilhas. São as Falsas Antilhas. As Verdadeiras Antilhas são a Terra Nova, Nova Escócia e Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, quase a duas mil milhas mais para o norte!

O cartógrafo que fez o Planisfério de Cantino em 1502, ao baptizar as ilhas das Caraíbas de Antilhas, ENGANOU a humanidade inteira, durante mais cinco séculos, especialmente historiadores, incluindo os cartógrafos portugueses entre eles o Armando Cortesão!!!


As Verdadeiras Antilhas estão desenhadas na Carta Náutica de 1424. Este documento foi profundamente analisado em pormenor pelo Professor Armando Cortesão e publicado num livro em inglês “The Nautical Chart of 1424”, editado pela Universidade de Coimbra em 1954.

De mil exemplares existe o exemplar No. 232 na minha Biblioteca-Museu em Cavião, Vale de Cambra, Portugal.


Aqui está uma secção da Carta Náutica de 1424 mostrando as quatro ilhas: duas em azul e outras duas em vermelho. Os seus nomes são à Saya, Satanazes, Antilia e Ymana. O original deste mapa está na Biblioteca da Universidade de Minnesota, na Colecção de James Ford Bell.
Foi feito em 22 de Agosto de 1424, por Zuanne Pizzigano, um cartógrafo de Veneza.


Fig. No 5. (1) Data 1424, Agosto 22. (2) Saya (3) Satanazes (4) Antilha (5) Ymana (6) Portugal Continental

Para conhecer em pormenor a minha análise total da Carta Náutica de 1424 veja na minha Internet os artigos intitulados:



Neste diagrama vemos mais claramente os nomes próprios das 4 ilhas, mas também outros nomes que estão escritos dentro dos lagos nas ilhas Satanazes e Antilia.

Curioso que Armando Cortesão, considerado o maior especialista mundial em cartografia, nas suas conclusões no livro “The Nautical Chart of 1424” não consegui diagnosticar que estas 4 ilhas representam as Verdadeiras Antilhas na costa marítima do Canadá!
Aqui está a confissão de Armando Cortesão no seu livro “The Nautical Chart of 1424”:

“The Documentary proof that such a voyage or voyages (by the Portuguese), either willing or unwilling, took place is provided by the representation of the Antilia group of four islands in the 1424 Chart. Several islands of the Antilles were no doubt seen during one or more of these voyages. The newly acquired knowledge confirmed what was already presumed from ancient tradition and more or less recent and more or less positive information, and the first cartographer who got hold of that information, though rather vague, represented it as well as he could in his map. We do not know whether the 1424,Chart is the first one in which Antilia was figured; we only know that it is the earliest extant in which it appears.” “ It would not be easy to say which of the Antilles islands are depicted by the Antilia group, or if the American Continent itself is represented there. Haiti, Cuba, Jamaica, Porto Rico, some of the Bahamas, Trinidad or some of the Lesser Antilles, Florida or even Greenland? There is no sure guide for any such tentative identification. The only certainty is that several of these lands were seen, but the identification of their cartographical representation is as uncertain as the meaning of the seven mysterious names which, following the legend of the Island of the Seven Cities, were written on Antilia and probably influenced the idea of writing the no less mysterious five names on the Satanazes” .

Tradução:

“A prova documentária de que tais viagem ou viagens (pelos portugueses) quer voluntária ou involuntariamente, se realizaram, é demonstrado pela desenho do grupo das quatro Antilhas na carta Náuticas de 1424. Várias ilhas do grupo das Antilhas, sem dúvida nenhuma, foram vistas durante uma ou mais destas viagens. Os conhecimentos recentes confirmam o que já era uma tradição antiga, baseada em mais ou menos informação positiva, e que o primeiro cartografo que obteve essa informação, embora vaga, registou-a o melhor que ele pode neste mapa.
Nós não sabemos se a Carta Náutica de 1424 é a primeira carta, na qual as Antilhas estão desenhadas; só sabemos que esta é a mais antiga carta existente o qual as Antilhas aparecem.”


“ Não é fácil dizermos quais das Antilhas é que, estão representadas neste grupo ou até o próprio Continente Americano.

Haiti, Cuba, Jamaica, Puerto Rico, algumas das Bahamas, Trinidade ou algumas das Antilhas Menores, Florida ou até a Gronelândia? Não temos nenhum guia seguro que nos ajude a tentar tal identificação.
A única certeza que temos é que várias destas terras foram vistas, mas a sua identificação é tão incerta como o significado dos sete nomes misteriosos que aparecem na Lenda das Sete Cidades e estão escritos na Antilha e provavelmente influenciaram também a escrita de sete nomes misteriosos nas ilha de Satanazes” .

O que faltou a Cortesão


O GUIA QUE FALTOU ao Armando Cortesão foi descobrir as linhas de latitude na Carta Náutica de 1424.

Ele andou lá muito perto, mas não teve sorte . Foi pena porque ele bem merecia.


Um Homem que passou toda a sua viva a estudar e analisar mapas antigos. O seu maior monumento certamente é, a sua grande participação na criação da Monumenta Cartográfica Henriquina.

Eu falei pessoalmente várias vezes no Instituto de Cartografia da Universidade de Coimbra com o Professor Armando Cortesão, por quem tinha muita admiração, durante o período em que fui estudante na Faculdade de Medicina na Universidade de Coimbra entre 1952 a 1958.

Mas naquele tempo, porque eu me tinha que me preocupar intensamente com as anatomias e patologias para conseguir notas distintas, não tive tranquilidade para descobrir as linhas de latitude na Carta Náutica de 1424, como fiz no sossego da minha casa, em Bristol, Rhode Island, E. U. A., no dia 7 de Novembro de 1986, dois minutos para meia noite!

Tenho muita pena do Dr. Armando Cortesão não estar vivo para saber da minha descoberta original das latitudes na Carta Náutica de 1424 porque ele passou quatro anos a estudá-la e a decifrá-la

O que é muito triste é que depois de Armando Cortesão morrer, tanto o ‘homem mais pequenino’, entre os professores da Universidade de Coimbra, Damião Peres e o seu colega de história, Luiz de Albuquerque, ambos criticaram negativamente o livro escrito pelo Armando Cortesão -- “the naúticas UART of 1424”. Não apresentaram nenhuma interpretação da Carta de 1424. Só olharam para ela como burros para um palácio!...

Não sei quem é agora o responsável pelo Departamento de Cartografia da Universidade de Coimbra, se é que ainda existe depois do Armando Cortesão ter morrido, porque foi ele que o criou.

Infelizmente ainda hoje existem muitos historiadores e cartógrafos por esse mundo que não querem aceitar a veracidade da Carta Náutica de 1424, porque não sabem, nem querem TRAÇAR as linhas de latitude neste mesmo mapa! Mas este mal continua a infestar todos os professores das universidades e liceus de Portugal.

A parte que me satisfaz e que me tranquiliza é que estou a deixar escrito em monografias, revistas e livros e também gravado e espalhado por meio da Internet, esta minha descoberta original das latitudes na Carta Náutica de 1424, para que gerações vindouras possam realmente apreciar esta descoberta tão simples e tão singela.

Estou a consolar-me com as novas técnicas de comunicação. Os chamados ”professores” já não podem mais bloquear as minhas descobertas nem os meus escritos usando a “conspiração do silêncio”.

Agora até fogem de mim! São uns infelizes cheios de vaidades fúteis. Por isso não vão deixar marca nenhuma positiva na História! Vão receber o que realmente merecem: Zero!

segunda-feira, 8 de março de 2010

" o alentejano que descobriu a América " por: Pedro Laranjeira


Continua........ fonte: http://laranjeira.com/artigos/080126-alentejano_america.shtml . Na parte final do texto: onde se lê "Quando partiu a 11 de Novembro...." deve ler-se "Quando partiu a 11 de Março...."

quarta-feira, 3 de março de 2010

" comentário sobre o reino do Congo "


Quando a guarnição de Diogo Caão chegou à foz do rio Zaire em Abril de 1483 e contactou pela primeira vez o mani Nsoyo, chefe da localidade na qual aportara, o Congo era um reino forte e estruturado, cuja chefia máxima cabia ao Mani Congo, residente em M'Banza Congo.

Formado por grupos de etnia bantos, especialmente os bakongo, abrangia grande extensão da África Centro - Ocidental e se compunha de seis estados, que os portugueses denominavam de províncias e que eram.

Mpemba, onde ficava encravado o território do Congo propriamente dito, com a capital em MBANZA Congo, a São Salvador cristã, onde residia o rei.

Mbamba, que ficava a sul, confinando com os Ambundos.

Mbata, a mais oriental.

Nsundi, a nordeste, ultrapassando a margem direita do Zaire.

Mpangu, encravada entre as de Mbata, Mpemba e Nsundi.

NSoyo (Sonyo) ou Sonho na tradução portuguesa da época, situada a norte de Mbamba, banhada pelo oceano Atlântico e pelo Zaire. Nesta ficava o porto de Mpinda, onde desembarcaram os portugueses.

 
 Estados que compunham o reino do Congo
Todas os estados eram governadas por parentes do rei do Congo, com excepção da província de Mbata, que gozava do privilégio de ter um descendente dos antigos senhores da terra, impondo-se-lhe, porém, a obrigação de casar a filha mais velha na casa real do Congo.

O estado de Nsundi era, por tradição, governada pelo herdeiro do rei do Congo.

O rei do Congo considerava ainda vassalos, ou, pelo menos, amigos, alguns reinos situados na margem direita do Zaire, como o de Ngoio ou Angoy, em o de Cacongo, estendendo-se a sua influência até ao reino de Luango (actual Congo Brazaville)

Para o interior destes, e confrontando com o estado de Nsundi, ficava a Anzicana, povoada por povos antropófagos e que ora se comportavam como amigos, ora como inimigos do Congo. A fronteira sul que confrontava com os Ambundos, também sofria oscilações.
  
 Algumas delas, como as de Nsoyo, Mbata, Wandu e Nkusu, eram administradas por membros de uma nobreza local que assumiam os cargos de chefia há gerações, sendo o controle político mantido por uma mesma linhagem, enraizada no local.
troço fluvial da foz rio Zaire a Matádi, RDCongo
Outras províncias eram administradas por chefes escolhidos pelo rei dentre a nobreza que o cercava na capital.

A unidade do reino era mantida a partir do controle exercido pelo Mani Congo, cercado por linhagens nobres que teciam alianças principalmente por meio do casamento, mas era também fortalecida pelas relações comerciais e políticas entre as diversas regiões.

O centro de poder localizava-se na capital, mbanza Kongo, de onde o rei administrava a confederação juntamente com um grupo de nobres que formavam o conselho real, composto provavelmente por 12 membros, divididos em grupos com diferentes atribuições: secretários reais, colectores de impostos, oficiais militares, juízes e empregados pessoais. A centralização político - administrativa, ao mesmo tempo que conferia estabilidade ao sistema, deseja intensas e frequentes disputas pelo poder.
estuário rio Zaire
A formação do reino parece datar do final do século XIV, a partir da expansão de um núcleo localizado a noroeste de Mbanza Kongo.

Os mitos de origem registados no século XVII referem-se à conquista do território por um grupo de estrangeiros, chefiados por Nimi a Lukeni, que teria subjugado as aldeias da região do Congo e imposto a sua soberania pela supremacia guerreira.

Nos séculos XVI e XVII, após o contacto com os portugueses, o direito do rei colectar impostos e tributos estaria ideologicamente fundamentado na conquista efectivada pelos antepassados das linhagens governantes, o que nem sempre era aceite pacificamente.

A divisão fundamental na sociedade congolesa era entre as cidades – Mbanza –
e as comunidades de aldeia – lubata. A tradição representava esta divisão como entre povos que vieram de fora e os nativos, submetidos àqueles.

Os estrangeiros seriam os membros da nobreza, os habitantes da capital, os governantes das províncias indicados pelo rei, isto é, os que ocupavam as posições superiores do reino. A lubata era dominada pela Mbanza, que podia requisitar parte do excedente aldeão.

Os chefes de aldeia – Nkuluntu – faziam a ligação entre os sectores, recebendo o excedente agrícola e repassando parte deste para os representantes das cidades, reconhecidos como superiores políticos.

Nas comunidades rurais, a apropriação do excedente era justificada pelo poder de mediação com o sobrenatural do kitomi, ou pelo privilégio do mais velho, o Nkuluntu.

Como nelas a produção supria apenas as necessidades básicas, não havia um acúmulo de bens que permitisse sinais exteriores de status para os chefes.

 Enquanto nas aldeias os chefes não tinham controle sobre a produção, baseada na estrutura familiar e na divisão sexual do trabalho, nas cidades eram os nobres – as linhagens governantes – que controlavam a produção, fruto do trabalho escravo no cultivo de terras controladas pela nobreza.

As diferenças básicas que distinguiam as cidades das aldeias eram a maior concentração da população e a administração da produção por parte da nobreza, que se apropriava de parte do trabalho escravo.


De todo modo, as características da escravidão existente no Congo confirmam a tipologia elaborada por João Reis em artigo sobre a África pré – colonial.

1. No reino do Congo havia, de um lado, a escravidão doméstica ou de linhagem, na qual o cativeiro era resultante de sanções sociais ou mesmo da captura em guerras, integrando-se o escravo à linhagem do senhor.

Cativeiro em que se destacavam as escravas concubinas, que geravam filhos para o clã masculino, ao contrário dos casamentos entre linhagens, nos quais os filhos ficavam ligados à família da mãe (matrilinearidade).

Mas ao lado da escravidão de linhagem, mais amena e mitigada, existia o que João Reis chamou de escravidão ampliada ou esclavagismo propriamente dito: um tipo de escravidão comercial ligada à produção agrícola ou à exploração de minas, a qual seria consideravelmente estimulada e desviada para o Atlântico após o contacto com os portugueses.

São Salvador, nome atribuído a Mbanza Kongo após a conversão dos reis congoleses ao cristianismo em 1491, chegou a ter cerca de 60.000 habitantes no século XVII, sendo que de 9 a 12.000 desses não estavam directamente engajados na produção.

 Desde antes do contacto com os portugueses, até meados do século XVII, a capital foi um imã que unia as diferentes linhagens nobres, e a base da solidez do Congo, pois mesmo quando eram travadas lutas sucessórias entre as chefias, tudo se resolvia em função da centralização política em São Salvador, antiga Mbanza Congo.

(1) - João Reis. “Notas sobre a escravidão na África pré – colonial”. Estudos afro-asiáticos, n.14, Rio de Janeiro, pp.5-21.

As diferentes linhagens sempre preferiam aderir ao grupo que no momento dominasse a política da capital, a tentar a separação.

Quando os portugueses chegaram ao Congo, encontraram ali grandes mercados regionais, nos quais produtos específicos a certas áreas como sal, metais, tecidos e derivados de animais eram trocados por outros, e um sistema monetário, no qual conchas chamadas nzimbu, colectadas na região da ilha de Luanda, serviam de unidade básica.

O estreitamento das relações com os portugueses intensificou o comércio regional e o internacional e aumentou a importância dos comerciantes, muitos deles não congoleses.

O Congo não era uma nação voltada para o comércio, exercido em grande parte pelos naturais de Loango, e posteriormente controlado pelos portugueses de São Tomé e de Angola e pelos holandeses.

Mas eram o comércio, principalmente de escravos, e o controle das minas, sempre aquém das expectativas, os principais interesses dos portugueses no Congo quando ali chegou Diogo Cão.

Conversão e canonização


D. João II enviou Diogo Cão, no ano de 1482, numa expedição marítima que foi dar ao estuário do rio Zaire em Abril de 1483.

Instruídos para estabelecer contactos pacíficos e acompanhados de intérpretes conhecedores de línguas africanas, os enviados do rei português tomaram conhecimento da cidade real no interior do continente e para lá enviaram emissários.

Como estes demorassem a voltar, retidos na corte congolesa pela curiosidade que despertou o que contavam, os navios portugueses, recusando-se a esperar, zarparam sem eles, levando alguns reféns.

Em Portugal esses foram tratados como amigos e aprenderam um pouco dos hábitos, da religião e da língua do reino.

Conforme o prometido, nova expedição trouxe de volta os congoleses capturados, agora “ladinos”, juntamente com uma embaixada e presentes para o Manicongo, retorno amplamente festejado.
região da missão católica de M'Pinda, Soyo, Angola
2 - Disposto a abraçar a fé de Cristo, o Manicongo enviou, em 1488, uma embaixada para o rei português, que foi presenteado com tecidos de palmeiras e objectos de marfim, formalizando seu desejo de se converter ao cristianismo e pedindo o envio de clérigos, assim como de artesãos, mestres de pedraria e carpintaria, trabalhadores da terra, burros e pastores.

Junto com os pedidos, deixou claro, segundo Rui de Pina, cronista que registou o evento, seu desejo de que doravante os dois reinos se igualassem nos costumes e na maneira de viver, solicitando que alguns jovens, enviados com a embaixada, fossem instruídos na fala, escrita e leitura latinas, além dos mandamentos da fé católica.

E, com efeito, durante todo ano de 1489 e1490 os enviados do rei do Congo permaneceram em Portugal, aprendendo o português, os mandamentos da fé católica e os costumes da sociedade portuguesa.

Em 19 de Dezembro de 1490, nova expedição foi enviada ao Congo, a qual, em 29 de Março de 1491, chegou à foz do rio Zaire, por eles chamado de rio do Padrão por lá ter sido colocado um padrão indicador de que o rei de Portugal havia sido o descobridor daquelas terras, em nome do seu reino e de Cristo.
Igreja da Missão do Pinda, Soyo, Sazaire, Angola
(2) - Rui de Pina. “Relação do Reino do Congo”. In: Radulet, Carmem. O cronista Rui de Pina e a Relação do Reino do Congo. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1992, p.101.

A província de Nsoyo (Sonho ou Sono nos relatos portugueses), na qual se encontrava a foz do rio Zaire, era governada por um irmão da mãe do rei do Congo, o mais respeitado dentre os chefes provinciais.

Ao receber os portugueses em M’ Pinda, o chefe local mandou que todos viessem recepcionar os enviados do rei de Portugal.

Rui de Pina deixou-nos um detalhado relato desses primeiros contactos entre portugueses e congoleses, aludindo aos festejos e reverências com que foram recebidos os portugueses e à pompa do Manisoyo, que veio trazendo carapuça na cabeça com uma serpente “mui bem lavrada d’ agulha”.

Regista o cronista – e isto se reveste de máxima importância –, que as “mulheres dos fidalgos” locais se fartaram de saudar os estrangeiros, dizendo que seus maridos haviam de fazer o melhor de si para o serviço del Rei de Portugal, “a que eles chamavam Zarpem - Aponho, que entre eles quer dizer Senhor do Mundo.

3. Ao olhos dos congoleses, o rei português passava, pois, a ser assimilado a Zambem-apongo, divindade suprema dos povos banto, senhor que reinava no mundo dos mortos, pois, vale dizer, a festa era também para João da Silva (Caçuta), congolês baptizado e embaixador do rei do Congo morto na viagem de regresso em Cabo Verde.

Igreja Católica da Missão do Pinda, Sazaire
Senhor do Mundo, porque senhor dos mortos, o Zambem-apongo dos congoleses foi entendido pelos observadores portugueses como sendo o rei de Portugal, D. João II especificamente.

Doravante, e por muito tempo, portugueses e congoleses passariam a traduzir noções alheias para sua própria cultura a partir de analogias que permitiam supor estarem tratando das mesmas coisas quando na verdade sistemas culturais distintos permaneciam fundamentalmente inalterados.

Depois da confraternização, o chefe congolês, provavelmente associando as coisas extraordinárias trazidas pelos lusitanos à sua linguagem cultural, pediu para ser baptizado sem mais demora.

Assim foi erigida uma igreja de madeira, devidamente paramentada com os objectos trazidos de Portugal para nela realizar o baptismo do Manisoyo.
 
  de Jorge Vidal, Igreja católica da Missão do Pinda - Sazaire
Conta-nos Rui de Pina que, apesar de outros nobres expressarem o desejo de serem baptizados, o Manisoyo só permitiu que ele e seu filho mais velho o fossem antes do rei do Congo, primazia que sua destacada posição permitia, não permitindo aos “fidalgos de sua Casa” que sequer entrassem na igreja.

No dia 3 de Abril, dia de Páscoa, o Manisoyo recebeu o nome de baptismo de Manuel, tal qual o irmão da rainha de Portugal, duque de Beja e ao seu filho chamou-se de D. António, inaugurando um padrão analógico que regeria os primeiros tempos das relações entre os dois povos.

local de baptismo do príncipe D. Manuel -manysoyo, M 'Pinda, Soyo Angola em 04 de Abril 1491


Local de Baptismo do Príncipe D. Manuel e outros Kongoleses (03 - 04 - 1491)
Local do baptismo do Príncipe do Soyo, D. Manuel e sua esposa. Posteriormente, este local serviu para local de baptismo de autóctones que seriam embarcados como escravos para trabalhar na Europa e nas Américas. Ai se vê a inscrição “In memoria primum baptismus”, dia 3 de Abril de 1491.
placa com a inscrição “In memoria primum baptismus”.em M'Pinda, Soyo Sazaire
Este supostamente constitui o ponto de entrada do cristianismo no Kongo. Existem autores que contradizem esta ideia, afirmando que antes da chegada dos portugueses já existia a crença em Deus e consequentemente em Jesus Cristo, isto pelos testemunhos de Nkimpa Vita (Jeanne d´Arc Kongolesa) que foi queimada viva pela inquisição portuguesa e outros mártires.
Há alguns metros deste local, também encontra-se o local de embarque de escravos para Europa e América, o antigo Porto do Mpinda (Século XVI-XVIII), situado a 17 quilómetros da Vila do Soyo.
Fonte de água mineral - Malu ma madia
Em língua Kikonga, significa pés de Maria (a mesma Santa que se recusou a partir para Europa, preferindo ficar com o seu povo e continuar a praticar as suas curas). Esta fonte de água límpida tem sido contaminada pelos derivados de petróleo, nasce no Zombo e vai até Kifumua.
A cerca de 3 kilómetros do antigo porto de Mpinda, encontram-se a Igreja da Missão de Santo António do Sonho (Mpinda), a Associação dos escuteiros de Angola e Agrupamento Santo António 122, um cemitério e uma maternidade. Ao longo do caminho que liga esta localidade á cidade do Soyo existem várias capelas de várias denominações religiosas (Católica, Protestante, Simão Toko, Simão kimbangu, etc.)
Outro local histórico de interesse é Forte do Soyo, o Monte Yalala onde depois de chegar a foz do Rio Zaire e ter assinalado o local com o padrão de São Jorge, Diogo Cão subiu ao norte do rio numa aventurosa hipótese de encontrar as terras do Preste João, cuja aliança permitiria surpreender os muçulmanos. Na sequência disto encontrou um afloramento rochoso onde gravou algumas inscrições. Este local situa-se entre a República de Angola e a República Democrática do Congo) e o padrão dos descobrimentos.
Nessa altura, a narrativa de Rui de Pina deixa bastante clara a relação imediatamente percebida pelos congoleses entre fé e poder.

O baptismo foi reservado aos maiores do reino, numa certa ordem de hierarquias. Principalmente não podia ser usufruído antes que o rei o recebesse, facto percebido pelo Manisoyo que respondeu negativamente aos nobres que pediram para também serem baptizados, justificando o seu próprio baptismo antes do Manicongo por ser tio do rei e mais velho que ele.

Após a cerimónia do baptismo, seguiram-se festejos, os padres acompanharam o Manisoyo até sua casa em procissão com cruz erguida, discursaram contra as idolatrias e superstições e Manuel mandou que todos os ídolos e templos fossem destruídos.
(3) - Idem.
 
residência dos reis do Congo em S. Salvador
Rezas e missas sucederam-se antes que seguisse a expedição para a capital real, dispondo de 200 homens cedidos por Manuel para carregarem os presentes e carga, além dos que levavam os mantimentos e garantiam a segurança.

Demorariam 23 dias para chegar à corte, sendo recepcionados no caminho pelos chefes locais.

Ao se aproximar de Mbanza Congo, dia 29 de Abril, a expedição foi recebida por um membro da família real que levou presentes para o embaixador.

O cronista descreve a recepção da embaixada lusitana pelo rei congolês, usando terminologia familiar aos europeus e que pareciam aos observadores aplicáveis à realidade com que se deparavam pela primeira vez.

Assim, o Manicongo e os chefes que o cercavam foram imediatamente identificados como o rei e sua corte; os nobres congoleses associados aos fidalgos portugueses e os cargos administrativos e honoríficos foram chamados pelos equivalentes europeus.

Conforme as descrições do evento, o Rei ordenou que todos os fidalgos e toda a sua Corte saíssem com arcos, lanças, trombas, tímbales e muitos outros instrumentos que eles usavam, e quando os cristãos chegaram à capital, foram recebidos com grandes estrondos e logo hospedados em umas “casas grandes honradas e novas” providas em tudo do que por eles cumpria.
 
foto de Jorge Vidal, túmulos dos reis do Congo em Banza Congo [ex- S. Salvador] Angola
E chegaram ante El-rei “que estava em um terreiro de seus paços”, acompanhado de grande multidão e posto em um estrado rico ao seu modo, nu da cinta para cima, com uma carapuça de pano de palma lavrada e muito alta, posta na cabeça, ao ombro um rabo de cavalo guarnecido de prata, da cinta para baixo coberto com uns panos de damasco presenteados por El-Rei de Portugal e no braço esquerdo um bracelete de marfim.

4.Enquanto isso as pessoas festejavam, levantando as mãos em direcção ao mar e gritando em louvor a Deus e ao rei lusitano, ou pelo menos assim o entenderam aqueles que deixaram o registo do dia.

Foram iniciados os trabalhos de construção de uma igreja, que seria consagrada à Virgem Maria e demoraria um ano para ser levantada. Enquanto isso os clérigos iam falar ao rei sobre as “maravilhosas obras de Deus, para que, com sua agradável conversação, o conduzissem ainda mais à fé de Cristo”.
5. Este não mais quis esperar pelas maravilhas do baptismo e pediu para ser baptizado imediatamente, no que foi atendido. Preparou-se um cómodo, de uma casa escolhida, ergueram-se altares, acenderam-se tochas e velas, prepararam-se bacias cheias d’ água, e aí o Manicongo foi baptizado, tomando o nome do rei de Portugal e os outros fidalgos, nomes de fidalgos da “Casa d’ le - Rei de Portugal”, seguindo na linha analógica predominante desde o começo das relações entre os dois povos.

O embaixador português foi, enfim, fartamente presenteado e deixou no Congo quatro clérigos, os ornamentos da igreja usados nos cultos e “um negro que conhecia as duas línguas e que, igualmente, era experimentado nas letras de uma e da outra língua, negro que começou a ensinar a muitos fidalgos e a seus filhos e a muitos homens honrados e virtuosos”
N’ Kulu M’ Bimbi, a primeira igreja católica construída em M’ Banza Congo – ex -S. Salvador. Construção iniciada  em 06 de Maio  1491, concluída em 01 Julho do mesmo ano

6.Idealmente a igreja deveria servir de posto avançado no percurso da expansão portuguesa. O retorno da expedição lusitana seguiu com uma embaixada do Manicongo agradecendo os presentes e favores recebidos, comunicando seu baptismo e intenção de multiplicar os conversos (para o que pedia mais padres), oferecendo-se como súbdito em troca do apoio militar recebido e finalmente expressando sua intenção de enviar um embaixador directamente a Roma, a modo de prestar obediência ao chefe maior da Igreja, mas deixando claro que devia a sua fé à acção do rei de Portugal.
(4) – Idem.
(5) – Idem.
(6) – Idem.
E, com efeito, entrevendo boas possibilidades de comércio com o reino do Congo e da expansão do catolicismo – as duas faces inseparáveis da expansão ultramarina lusitana –, Portugal iniciou então uma intensa relação comercial com o reino do Manicongo capitaneada pela difusão da fé cristã.
túmulo rei do Congo
Morto D. João I do Congo, e após uma luta sucessória e fratricida na qual não faltaram tentativas, da parte de algumas facções nobres, em remover o cristianismo de que haviam sido excluídos, ascendeu ao trono D. Afonso I, o mais importante rei da história luso – congolesa, chefe político e espiritual da Catolização do reino do Congo. Isto porque, na verdade, seu pai, D. João I, não obstante convertido, logo abandonaria o cristianismo, pressionado por sectores da nobreza que não aceitavam a nova religião.

Para eles, ela não se mostrou eficaz contra os infortúnios que então assolavam o reino. Além disso, o rei e os nobres resistiam a aceitar a monogamia imposta pelos padres, um dos temas mais polémicos na aceitação da nova religião, uma vez que a extensão da rede de solidariedades tecida pelos casamentos era peça fundamental nas relações de poder tradicionais.

Com a morte de João I e a deflagração da luta sucessória, subiu ao trono um outro filho seu que não seguia os preceitos do cristianismo, apoiado pelos nobres defensores das tradições congolesas.

Mas Afonso conquistou o trono depois de lutas com seu irmão e reinou por trinta e sete anos, de 1506 a 1543, sendo as bases do cristianismo no Congo estabelecidas em seu reinado. Era profundamente dedicado ao catolicismo, impressionando os missionários com o seu saber e com a sua dedicação aos estudos. 

 
 foto Jorge Vidal - N’ Kulu M’ Bimbi, a primeira igreja católica construída em M’ Banza Congo – ex -S. Salvador. Construção iniciada  em 06 de Maio  1491, concluída em 01 Julho do mesmo ano
 7. Seu filho Henrique chegou a ser consagrado bispo (1518- 1531), o que não foi visto com bons olhos pelo clero e pela coroa portuguesa, pois dessa forma diminuía o controle exercido pelo Estado por meio do monopólio da religião.

Mas não foi apenas o cristianismo que floresceu sob o reinado de Afonso I.

Antes de tudo, D. Afonso promoveu um autêntico “aportuguesamento” das instituições políticas do reino, em consonância com D. Manuel, rei de Portugal, que a isto o estimulou.

Assim, a justiça do Estado passou a se guiar pela normas portuguesas, a partir da embaixada de Simão da Silva, portador do Regimento de 1512, e os antigos chefes de linhagem das províncias passaram a intitular-se de condes, marqueses, duques.
Trata-se de matéria riquíssima que não temos condições de desenvolver aqui, mas vale o registo de que, sob a inspiração política e institucional portuguesa, o Estado congolês foi perdendo as características tradicionais de confederação ou chefatura pluritribal para assumir, ainda que no plano das instituições e da etiqueta política, aspectos da monarquia ocidental, centralizando-se mais nitidamente – traço que sobreviveria ao reinado de Afonso I, perdurando até o século XVIII, não obstante as dilacerantes crises políticas que o reino atravessou no século XVII

(7) - John Thornton. “The Development of an African Catholic Church in the Kingdom of Kongo, 1491-1750”,
Journal of African History, n.25, 1984, p.155.

Por outro lado, Afonso I recebeu grande ajuda dos portugueses para incrementar o comércio de cobre extraído em regiões ao norte do Congo que, trazido para a capital, tornou-se um meio valioso com o qual o rei podia adquirir mercadorias europeias.
M'Banza Congo, S.Salvador, Angola
Essas importações e o incremento no comércio, ao aumentar a riqueza do rei, permitiram assegurar a lealdade de nobres importantes, construindo a base de um longo e memorável reinado.

de todo tráfico da África ocidental, e até mesmo ao Benin.

8.Quando o comércio de pessoas fugiu do controle do rei, com mercadores desrespeitando as rotas estabelecidas e o monopólio real, Afonso I escreveu ao rei português reclamando que até mesmo nobres congoleses estavam sendo capturados em guerras inter provinciais para serem vendidos como escravos.

O comércio de escravos era antigo naquela região, mas as regras tradicionais estavam sendo violadas. Não apenas prisioneiros de guerra ou pessoas endividadas estavam sendo negociadas, mas as rotas tradicionais, controladas pelos chefes locais, estavam sendo ignoradas em prol de novos caminhos que burlavam o controle real.

Tudo isso ameaçava o poder real com a evasão de tributos que lhe seriam devidos pelos privilégios tradicionais e o enriquecimento de chefes e comerciantes abalava as bases de seu poder.
residência em M'Banza Congo, S, Salvador
 Somando-se a isso, a região do N’ Dongo (futura Angola), começava a atrair o interesse dos comerciantes portugueses que buscavam justamente fugir aos monopólios existentes no Congo, concorrendo com o tráfico de escravos controlado pelo rei congolês e pelos comerciantes autorizados pelo rei lusitano.

De todo modo, quando os portugueses chegaram à foz do Zaire, o Congo, assim como outros reinos da região, estava em processo de franca expansão, como os registos de guerras frequentes atestam.

A escravização das populações conquistadas permitia aos reis ampliar sua riqueza pessoal assim como fortalecer exércitos e o corpo administrativo composto por dependentes directos, além de aumentar o volume de tributos recebidos dos territórios ocupados. Assim, a expansão permitia o acúmulo de riqueza e um reforço da centralização política.

Quando os portugueses chegaram àquela parte da África, portanto, não só encontraram uma grande população cativa, como as condições necessárias para sustentar um amplo mercado de escravos, no qual havia espaço para os estrangeiros recém-chegados.

No caso congolês, o próprio processo de centralização e fortalecimento das cidades frente às aldeias estava baseado na crescente existência de escravos, concentrados principalmente em Mbanza Kongo, cujo trabalho era apropriado pelos membros das linhagens nobres que, assim, incrementavam sua riqueza, seu poder, seus sinais de status.
Não só no Congo, mas em vários estados da África centro – ocidental os escravos eram resultado das guerras de expansão, sendo fundamentais na centralização e reforço das lealdades.

(8) - Wyatt MacGaffey. “Dialogues of the deaf: europeans on the Atlantic coast of Africa”. In: Stuart
Schwartz, (org). Implicit Understandings. Cambridge, Cambridge University Press, 1994, p.259; Kenny
Mann. Kongo, Ndongo, West Central Africa. New Jersey, Dillon Press, 1996, pp.51-53.

9.Afonso I reinou nesse período, e apesar dos problemas que seu reinado enfrentou, expandiu as fronteiras do reino, fortaleceu a centralização do poder real, desenvolveu a capital, disseminou o cristianismo e a educação formal, valorizando sobremodo a leitura e a escrita. Não seria exagero ver em seu reinado, sobretudo do ponto de vista religioso e político - institucional, o processo que Serge Gruzinski chamou de ocidentalização, estudando o México na mesma época.

10. Lembrado até hoje como o mais poderoso rei da história do Congo, Afonso I, esse defensor implacável da fé cristã, assemelha-se em muitos aspectos ao ideal de rei missionário e cruzado, rei que combate os infiéis com a ajuda de forças divinas, amplia e consolida as fronteiras da cristandade.

As bases do catolicismo congolês fincaram raízes profundas no seu reinado, que se prolongou até quase meados do século XVI.

Catolicismo que, não obstante, foi incapaz de remover por completo as tradições religiosas locais, do que resultou um complexo religioso original, híbrido, a um só tempo católico e banto. 

Crise congolesa: Mbwila e a fragmentação política 

11. As relações luso -congolesas estabelecidas no reinado de Afonso I entraram em lento mas progressivo colapso a partir da segunda metade do século XVI e, sobretudo no século XVII, após a morte de Álvaro II, em 1614.

Na verdade, não obstante a retórica da Coroa portuguesa de que o rei do Congo não era vassalo de Portugal, senão um “irmão em armas de seus reis”, como dele disse D. João IV, o fato é que Portugal sempre viu no Congo uma possibilidade de expandir a fé católica e garantir o tráfico de escravos em partes d’ África.

Portugal atendeu muito pouco às reivindicações dos monarcas congoleses, como se percebe na correspondência entre as duas Coroas no período, e acabaria deslocando seus interesses no tráfico para Angola.

A deterioração das relações luso -congolesas só fez crescer no século XVII, a ponto de, no reinado de Garcia Afonso II (1641-1663), o Congo ter se aproximado dos holandeses, que haviam tomado Luanda anos antes.

Garcia II desenvolveu, na verdade, uma política ambígua, cortejando e deixando-se cortejar pelos batavos, porém, recusando a pressão holandesa para abandonar o catolicismo romano. Desatendeu, por outro lado, as exigências do padroado da Coroa Portuguesa, admitindo no reino capuchinhos italianos e espanhóis, embora tenha ratificado um tratado que garantia importantes concessões territoriais a Portugal na vizinha Angola.
(9) - John Thornton. Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400-1680, Chicago, The
University of Chicago Press, p.108-109.
(10) - Serge Gruzinski, . La colonisation de l’imaginaire - l’ occidentalisation dans le Méxique. Paris, Gallimard, 1988.
(11) - Charles Boxer. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1973, pp.287 e segs.
placa de identificação da área histórico cultural do antigo porto do Mpinda
Apesar das cautelas de parte a parte, Congo e Portugal seguiriam doravante caminhos distintos, quando não opostos, até o frontal embate de 1665.

Referimo-nos à batalha de Mbwila ( Ambuíla ), quando os congoleses foram derrotados pelos portugueses, seguindo-se um período de guerras internas ligadas à sucessão real.
caminho ao antigo  porto fluvial de M'Pinda
Portugueses e congoleses enfrentaram-se em Mbwila em relativa igualdade numérica, mas, enquanto o exército congolês era formado principalmente por camponeses recrutados, o exército português era composto em sua maioria por guerreiros imbangalas ( gagas ), povo criado na tradição guerreira.

A guerra ocorreu em torno a uma disputa sucessória em Mbwila, importante região do N'dembo, estando os portugueses interessados em controlar o território que seria passagem para as cobiçadas minas de ouro e prata.

Na batalha morreram milhares de congoleses, muitíssimos nobres e o rei António I teve sua cabeça cortada e enterrada em Luanda, enquanto sua coroa e seu ceptro, emblemas reais, foram remetidos a Lisboa à guisa de troféus.

Junto com o rei, haviam morrido os principais candidatos ao trono, abrindo-se então um complicado processo sucessório que fortaleceu a posição de Nsoyo.

Depois da batalha, São Salvador (Mbanza Congo) foi à ruína com as linhagens nobres
fugindo das guerras sucessórias para outras províncias.

De todo modo, a maioria dos autores que se detiveram na história congolesa deste período atribuem a desestruturação do reino a causas externas, localizando no aumento do número de escravos traficados, na intensificação das guerras regionais e na alteração do equilíbrio entre os poderes tradicionais os principais motivos das guerras civis que assolaram o Congo até o início do século XVIII.

John Thornton é de opinião diferente, desvendando os mecanismos internos que levaram às guerras civis e ao longo período de lutas sucessórias após a derrota de Mbwila.

Com o enriquecimento das linhagens governantes do Nsoyo, não só devido ao grande aumento do comércio que passava por M’ Pinda, seu porto, mas principalmente com o aumento da riqueza produzida na cidade devido à concentração de escravos e tributos, surgiu uma alternativa de aliança entre as linhagens em disputa, que não dependiam mais apenas da linhagem então reinante.

No seu entender, o poder centralizado do Congo foi destruído pelas rivalidades entre Nsoyo e São Salvador – agudizadas no “período holandês” –, pela derrota em Mbwila e pelas lutas entre as linhagens nobres.

Depois de Mbwila, toda a nobreza transferiu-se para as províncias, que se tornaram mais autónomas e passaram a escolher seus administradores, independentemente do poder central, pelo qual, no entanto, a disputa era constante.

Cada chefe local cercou-se de um grupo de auxiliares, reproduzindo nas províncias a estrutura da corte real e escolhendo seu sucessor. As rivalidades entre as linhagens provocaram guerras permanentes que empobreceram a população em consequência de recrutamentos forçados, destruição de plantações e escravização dos derrotados, vendidos para os comerciantes de Luanda ou para a Loango dos mercadores.

Nsoyo, a mais forte província, cuja capital teve a população dobrada entre 1645 e 1700, quando contava com cerca de 30.000 habitantes, desenvolveu-se muito nesse período, beneficiando-se dos escravos trazidos de São Salvador, em ruínas.

A intenção de Nsoyo era manter um rei fantoche no poder, servindo aos interesses da nobreza local, e, para tal, apoiava algum pretendente ao trono o suficiente para lá colocá-lo, mas não o suficiente para que se fortalecesse no cargo.

No entanto, a crise política, qualificada por alguns como verdadeira “anarquia”, tomou conta do reino congolês. Entre 1665 e 1694, houve nada menos do que 14 pretendentes à coroa do reino, alguns com sucesso, outros nem tanto, e muitos deles assassinados.

No final dos seiscentos, o Congo possuía três reis, sendo D. Pedro IV o mais poderoso deles, aparentemente, e talvez o único capaz de levar adiante um projecto de reunificação congolês.

Kimpa Vita e a ressurreição imaginária

 Foi neste contexto de crise e fragmentação que irrompeu o antonianismo, movimento que, seja em termos religiosos ou políticos, fornece-nos importantes pistas para compreender as complexas relações entre catolicismo e monarquia na África banto.

A fundadora da “seita” foi a jovem aristocrata Kimpa Vita, nascida de família nobre congolesa na década de 1680, baptizada Dona Beatriz, mulher que fora sacerdotisa do culto de Marinda (nganga marinda), embora educada no catolicismo.

Kimpa Vita contava entre 18 e 20 anos quando, cerca de 1702-1703, acometida de forte doença, disse ter falecido e depois ressuscitado como Santo António. E seria como Santo António que Kimpa Vita pregaria às multidões do reino – daí o movimento ter ficado conhecido como antonianismo –, seguindo o rastro de outras várias profetisas que lhe precederam na mesma tarefa, como a Matuta, em meio à crise que assolava o reino.

A pregação de Kimpa Vita possuía forte conotação política. Preconizava o retorno da capital a São Salvador e a reunificação do reino, chegando mesmo a envolver-se nas lutas facciosas da época. Melhor exemplo disso ocorreu quando de sua chegada a São Salvador, onde encontrou Pedro Constantino da Silva, nobre militar enviado por D. Pedro IV, a quem proclamou “Rei do Congo” em troca de sua adesão ao antonianismo.

Assegurou-se ainda, por meio de vários acordos, da aliança de famílias nobres adversárias de D. Pedro, a exemplo dos grupos de Kimpanzu, especialmente da família Nóbrega, enraizada no sul da província de Nsoyo.

As alianças estabelecidas por Kimpa Vita, metamorfoseada em Santo António, não eram porém resultado de mero cálculo político. Ancoravam-se numa cosmologia complexa e peculiar que, se formos resumir em poucas palavras, vale seguir o que disse Ch. Boxer sobre o movimento: “uma modalidade remodelada e completamente africanizada do cristianismo”

12. Com efeito, o movimento anotado confirma, antes de tudo, o êxito do processo de canonização do Congo inaugurado no século XV e cristalizado sob o reinado de Afonso I na primeira metade do século XVI.

O Deus dos antonianos era, sem dúvida, o Deus cristão, o Deus dos missionários, com o qual Kimpa Vita dizia jantar todas as sextas-feiras, após “morrer”, para “ressuscitar” no dia seguinte.

Santo António, por outro lado, santo mui valorizado na missionação realizada no Congo, era a persona assumida pela profetisa, por ela chamado de “segundo Deus”.

Africanizando o catolicismo, “a Santo António congolesa” dizia que Cristo nascera em São Salvador, a verdadeira Belém, e recebera o baptismo em Nsundi, a verdadeira.

(12) - Charles Boxer. A Igreja e a expansão ibérica. Lisboa, Edições 70, 1981, p.132.
Nazareth.
cruz à entrada da missão católica de M'pinda
Afirmava ainda que a Virgem Santíssima era negra, filha de uma escrava ou criada do Marquês de Nzimba Npanghi e que São Francisco pertencia ao clã do Marquês de Vunda.

O catolicismo do movimento antoniano era, portanto, muitíssimo original, implicando uma leitura banta ou bakongo da mensagem cristã. Modelava-se, em vários aspectos, na acção pedagógica dos missionários, mas condenava o clero oficial, sobretudo os missionários estrangeiros, aos quais acusava de “haverem monopolizado a revelação e o segredo das riquezas para exclusiva vantagem dos brancos” em prejuízo dos “santos negros”.

Rejeitou, igualmente, boa parte dos sacramentos católicos: o baptismo, a confissão, o matrimónio, ao menos no tocante à liturgia e aos significados oficiais, abrindo caminho, no caso do matrimónio, para a restauração legitimada da poligamia.

Adaptou, ainda, certas orações católicas, a exemplo da Ave -Maria e sobretudo do Salve Rainha. Proibiu, ainda, a veneração da cruz, esse grande nkisi católico -bakongo, em razão de ter ela sido o instrumento da morte de Cristo.

Kimpa Vita prometia a todos os que aderissem à sua pregação uma próxima “idade de ouro”, e não apenas no sentido figurado, pois dizia que as raízes das árvores derrubadas converter-se-iam em ouro e prata e que das ruínas das cidades surgiriam minas de pedras preciosas.

Prometia, ainda, tornar fecundas as mulheres estéreis e outras mil bem-aventuranças, granjeando imenso apoio popular. Não se escusava, porém, de ameaçar os reticentes com as piores penas, incluindo a de transformá-los em animais.

Organizou para tanto uma verdadeira igreja antoniana, um clero, onde pontificavam outros santos, como São João, e uma plêiade de sacerdotes denominada de “os antoninhos” que saíam a pregar a excelência da nova igreja e o poder taumatúrgico e apostólico “da Santo António” que a chefiava.

Kimpa Vita despertou obviamente a ira dos missionários capuchinhos e das facções nobres adversárias do antonianismo e postulantes do poder real.

O próprio D. Pedro IV, de início cauteloso e hesitante em reprimir o movimento, terminou por ceder às pressões dos capuchinhos italianos, ordenando a prisão da profetisa e de São João, “o anjo da guarda” da profetisa que os frades diziam ser seu amante.

O estopim ou pretexto que levou à prisão de Kimpa Vita teria sido a acusação de que tinha um filho recém-nascido, cujo choro teria sido ouvido enquanto ela o amamentava em segredo, do que resultara o seu desmascaramento como “falso Santo António”.

Kimpa Vita foi presa, arguida pelo capuchinho Bernardo Gallo16 e condenada a morrer na fogueira como herege do catolicismo. A sentença foi executada em 1708 e na fogueira arderam Kimpa Vita e seu “anjo da guarda” – o Santo António e o São João do catolicismo congolês 

Um importante estado africano feudal...

 O Reino do Congo era um verdadeiro Estado feudal, englobando a actual República do Congo – Brazzavile (ex- Congo francês), o Baixo -Congo até Kinshasa, capital da actual República Democrática do Congo (ex- Congo belga, ex-República do Zaire...), e uma parte do norte de Angola.
Uma lenda a desfazer é a de que esse reino banto teria sido sempre hostil aos europeus, o que contraria a verdade histórica.
Os reis negros, longe de se entregarem a um nacionalismo xenófobo, desde os primeiros contactos, em sua maioria, multiplicaram suas atenções quanto ao relacionamento com os "brancos".
Pediram missionários, mestres de ofícios, mercadores, enviaram embaixadas a Portugal e ao Vaticano, mau grado as dificuldades de comunicações marítimas, solicitando intercâmbio.
O Rio Zaire ou Congo – "Rio Poderoso" – ou simplesmente "RIO" (ZAIRE) impressionaria profundamente os seus descobridores, comandados por Diogo Cão.
Aquela torrente de água doce a penetrar, por alguns quilómetros, pelo mar dentro, era suficiente testemunho de sua extraordinária pujança e importância.  
Os Portugueses não conheciam coisa que se assemelhasse a isso, seu Tejo pátrio ficava muito aquém da majestade africana do "Zaire".
Rumores corriam, conforme uma velha tradição europeia, de que devia existir um meio de comunicação com o lendário Reino do Preste João (afinal, este viria a revelar-se na Etiópia com seu cristianismo copta, mais tarde). Seria por ali o caminho?

Diogo Cão chega ao reino do Congo...início da aculturação lusófona – Padrão de São Jorge...

1485- O audacioso navegador português Diogo Cão encontrou no Reino do Congo, um país política e administrativamente bem estruturado, dividido em províncias, confiadas a sobas vassalos, próspero e totalmente independente.

Diogo implantou o Padrão de S. Jorge (Abril de 1483) situando-o na margem esquerda do citado grande curso fluvial. Por contactos estabelecidos com os íncolas ribeirinhos, souberam os Portugueses da existência, no interior, dum poderoso rei. Aquele capitão Português enviou ao potentado Negro mensageiros e presentes. Mas não se deteve no local, prosseguiu viagem para sul.

Só decorridas 15 luas arribou novamente ao Congo, trazendo consigo 4 Negros que havia tomado à chegada, os quais enviou ao rei, vestidos já à portuguesa, bem alimentados, falando a língua portuguesa.

Foram esses os primeiros embaixadores da civilização lusitana.

Ficou o monarca encantado, ao ouvir da boca dos seus súbditos já meio ocidentalizados notícias precisas a respeito dos estrangeiros. E assim se encetaram amistosas relações entre portugueses e congueses...

Foi em 1575, quase um século depois de ter Diogo Cão assinalado com os seus padrões toda a costa de Angola (1482 - 1486), do Zaire a Cabo Negro, que Paulo Dias de Novais, Primeiro Governador e Capitão - Mor das conquistas do Reino de Angola desembarcou na Ilha de Luanda, aqui fronteira, com cerca de 700 homens, 350 dos quais homens de armas, padres, mercadores e servidores, estabelecendo o primeiro núcleo de portugueses, aqui entrou, além de alguns portugueses, muita gente que nela vivia, toda, no dizer dos cronistas, «muito bem disposta ao cristianismo».

Um ano depois, reconhecendo não ser «o lugar acomodado para a capital da conquistas», funda em terra firme a vila de S. Paulo de Loanda, e logo a igreja de S. Sebastião, no morro de S. Miguel, (Museu das Forças Armadas). A sua volta foi crescendo a Vila e irradiando depois, tomou foros de cidade, em 1605, no governo de Manuel Cerveira Pereira.

Entretanto, estenderam-se as conquistas ao interior de Luanda e fundaram-se os presídios de Massangano (1583), Muxima (1599) e Cambambe (1604), de que restos ainda hoje se encontram ao longo do rio Kwanza.

A Câmara de Luanda deve ter início ao estabelecer-se em terra firme a Vila. Não há documentos precisos da sua fundação; mas sabe-se que Paulo Dias de Novais logo «criou os cargos e ofícios necessários ao governo da nova Colónia»; em algumas descrições se assinala a sua presença em actos solenes, desde 1595 e em 1611 é já
a Câmara que, com o Bispo e Nobreza, elege o novo governador Bento Banha Cardoso, por morte repentina do antecessor.

Por várias vezes teve o Senado da Câmara intervenção directa na governação da colónia, de 1667 a 1669, e de 1702 a 1704, foi-lhe o governo confiado e confirmado por cartas régias.

Depois desta época, passam os Ouvidores a presidir ao Senado da Câmara; é criado também o lugar de «Mestre de Campo» para substituir os governadores, e não volta, senão acidentalmente, e por poucos dias desempenhar tão altas funções, (1732).

No entanto, a colaboração que sempre dispensou aos governadores, quer em auxílios materiais quer morais, fazem salientar, como já foi publicado, a sua «útil e leal acção» na defesa da colónia e a favor da colonização, se atentarmos sobre tudo no contraste do procedimento de outras «câmaras ultramarinas» nessas épocas, e de que as descrições de Lopes de Lima nos dão conta.

As primeiras perturbações causadas pelas investidas holandesas têm lugar em 1624;
Em 1633 armam-se em Luanda 5 navios de guerra para combater as suas naus que na costa de Benguela ameaçavam o comércio.

O sossego não volta até ao aparecimento, na baía, da Grande Armada, do comando do Almirante Pedro Houtebeen, no dia 24 de Agosto de 1641 em que os portugueses, o governo, alarmados, abandonaram precipitadamente a cidade a caminho do Bengo, para se acolherem ao presídio e vila de Massangano.

Seguem-se sete anos em que os portugueses em Angola escreveram as mais dolorosas páginas da sua história.
Capelinha do Kintamby
situada a S 06º17,23’ e E 012º22,27’, esta capela foi erguida na época colonial. Ainda é frequentada pelas populações locais, inclusive o Soba local.
Salvador Correia de Sá e Benevides, que ao serviço de Portugal vinha no Brasil governando, depois de feitos militantes, em terra e mar, é encarregado pelo rei D. João IV, ao regressar de uma das viagens comerciais que, por sua determinação, comboiava e protegia da restauração de Angola, caída em poder dos holandeses.

Acompanhado de 1.200 homens de armas e de uma frota de 12 navios, se faz ao mar em 12 de Maio de 1648, fundeando em 12 de Agosto na baia de Quicombo.

A inclemência do mar fez perder a nau Almirante e os 300 homens que continha, levantando-se (Cardonega) «uma tormenta de marés tão fortes, coisa não vista de outros navegantes naquela paragem».

Mas, mesmo sem ela e sem esses homens, Salvador Correia de Sá chega à baía de Luanda, ante o pasmo da gente holandesa, que convencida pensa tratar-se apenas de simples guarda avançada de grande esquadra.

Apressadamente se refugiam os de terra na Fortaleza de S. Miguel (Museu das Forças Armadas).

Mas o desembarque faz-se na manhã seguinte, 15 de Agosto, e em assalto bem conduzido, rendem-se os holandeses dominados por menos de metade de homens portugueses.

Por alvarás régios de 28 de Setembro e 9 de Dezembro de 1662, aos oficiais da Câmara da cidade de Luanda e seus moradores foram concedidos os mesmos privilégios dos cidadãos da cidade do Porto, em consideração aos serviços prestados à Restauração de Angola.

O seu brasão de armas fica para sempre registado nos arquivos da Torre do Tombo, entre os das cidades e vilas portuguesas.

Como que um novo período começa; pretende-se apagar da memória o pesadelo do condomínio; a cidade muda o seu nome passando a ser S. Paulo de Assunção de Luanda, por ser aquele o dia da Assunção da Virgem que no seu brasão passa a figurar, (15 de Agosto).

Antes da invasão holandesa e segundo a descrição de Dapper e a sua gravura que acompanha a edição francesa da sua Obra (1686), na cidade existiam já as fortalezas de S. Miguel (1638), no mesmo local em que hoje se encontra, do Penedo, Santa Cruz e algumas outras desaparecidas, várias igrejas (seis), conventos dos Jesuítas, dos Terceiros Franciscanos, Hospital da Misericórdia e casario diverso principalmente na baixa da cidade.

Mas a cidade, depois de reconquistada, teve de ser construída de novo (Cardonega), restauradas as casas dos habitantes sem tectos, sem portas, as igrejas desbaratadas, mostrando por toda parte a ruína; concederam-se «chãos de sesmaria» aos moradores para novas casas e arimos (Lopes de Lima).

Entre as construções mais notáveis do fim do mesmo século, existem, ainda muito bem conservadas, a ermida de Nossa Senhora da Nazaré, que o governador André Vidal de Negreiros iniciou em 1664, aproveitando-se para comemorar a batalha do Ambuíla (1665), dos mais repugnantes feitos de armas da história de Angola e reproduzido num quadro de azulejos da época, na capela-mor, a igreja do Carmo e a Cerca, restos do Convento das Carmelitas (1663), com (belos azulejos também), e ainda a fortaleza de S. Miguel (Museu das Forças Armadas) completada na época, com recinto fechado, de terra batida e alvenaria.

São do século XVIII o acabamento da fortaleza de S. Pedro da Barra, de S. Francisco, no antigo lugar forte do Penedo, e de outras obras de vulto como o Quartel de Infantaria (1754), agora demolido, o Palácio do Governo (1761) o Terreiro Público (1765), a Alfândega (1770), passeio Público da Nazaré (1771).
Pouca era, porém a casaria da cidade ainda nos meados do século XIX, que só então começa a desenvolver-se rapidamente. Das construções mais importantes desse período são o mercado da Quitanda (1818), o primeiro cemitério (1806) e, já no fim do século, o hospital de D. Maria Pia, notável ainda hoje pelo seu plano e grandeza e que as obras de vulto dos últimos anos melhoraram consideravelmente.
A análise sucinta da evolução geral urbana em Angola, permite-nos observar um grande número de factos, testemunhado a aplicação de critérios urbanísticos, consentâneas as épocas económicas ou políticas.

As características da urbanização de Luanda tomam aspectos diferentes, conforme a civilização e os conhecimentos de cada época.

Até meados do século XVIII a urbanização é subordinada há razões de ordem política, económica – geográfica.

A seguir esta época aperfeiçoa as práticas, urbanísticas, em resultado da expansão colonial. Entram em função outros factores urbanos, com o saneamento e a estética, melhoram-se os meios defensivos coloniais e o abastecimento e distribuição de alimentos.

Depois do segundo quartel do século XIX, a urbanização de Luanda avança mais um grande passo.
No meio deste século, o progresso urbano, orientado pela técnica moderna não tem paralelo.

Os primeiros missionários nessas áreas foram os navegadores e mercadores ainda ligados à ideia das Cruzadas. Não raros, esses navegadores utilizaram-se do recurso de levar nativos para Portugal para prestarem informações e serem catequizados.

De volta às suas terras, esses homens podiam servir como intérpretes, auxiliando os portugueses na sua empresa. Mas, para J. F. Marques, também, só muito escassamente foi bem – sucedida a evangelização na Guiné, Senegal e Benim, por causa da influência muçulmana.

Só a partir das duas últimas décadas do século XV a cristianização da África negra conheceu medidas e resultados consistentes. Com D. João II e D. Manuel I, o esforço apostólico da Coroa portuguesa passou dos actos isolados à adopção de uma política assentada, em traços gerais, na conversão dos reis gentios e na formação de um clero nativo (Riley, 1998:162).

Assim, ao lado das feitorias e dos interesses mercantis, seguiram a construção de igrejas e capelas e a educação na fé católica de crianças e jovens, transformando-os, posteriormente, em missionários em suas terras de origem. No Senegal, chegou-se a construir o convento de S. Vicente do Cabo, destinado à formação de clero negro.

A terceira zona identificada por J. F. Marques abrangia o reino do Congo e a ponta meridional costeira da África. A chegada ao Reino do Congo, depois de meio século de investidas para o reconhecimento da costa ocidental da África e do golfo da Guiné, revelou aos portugueses uma área na qual não havia a influência islâmica.
em M'Banza Congo, a árvore que sangra
Em fins do século XV, D. João II mandou a primeira expedição, sob o comando de Diogo Cão, que saiu do Tejo em direcção à feitoria da Costa da Mina.

Após curta estada, Diogo Cão rumou para o Sul e alcançou a foz do Rio Congo. Desembarcou na margem esquerda e erigiu na moita Seca, o padrão de S. Jorge, 10 km de Mpinda, porto de desembarque que seria de passagem obrigatória nos séculos XV e XVI.

Ali, entrou em contacto com Nsoyo, chefe da localidade e soube que no interior ficava a Corte do Manicongo, Nzinga-a-Nkuwu, chefia máxima do reino.

O reino do Congo, naquela época, abrangia grande parte da África centro-oriental e se dividia em províncias, como a de Nsoyo, administradas por linhagens nobres. Mbanza Kongo era a capital, centro de poder de onde o Manicongo administrava a confederação juntamente com um grupo de nobres que formavam o conselho real (Vainfas & Souza, 1998:97).

Diogo Cão enviou emissários portugueses rio acima, levando, segundo a crónica de João de Barros, um presente ao rei da terra. Como não regressaram dentro do prazo, Diogo Cão voltou ao Reino português levando alguns nativos como reféns.

De volta ao Congo, esses homens foram integrados em uma embaixada de D. João II ao Manicongo. Segundo a famosa crónica de Garcia de Resende, do século XV, o rei português ofertava sua amizade e convidava o rei congolês à fé cristã, recomendando-lhe que deixasse os "ídolos e feitiçarias" que adoravam em seu Reino.

Diogo Cão desceu em terra os congoleses que levara para Portugal e recolheu os portugueses que tinham ficado da sua primeira viagem. As informações obtidas pelos dois lados facilitaram a ulterior recepção do Manicongo tendo cumprido aí papel importante os reconduzidos reféns congoleses.

Assim, para Julieta Araújo e Ernesto dos Santos (1993:642), dois aspectos marcam o início da exploração da região. Por um lado, a penetração fluvial com a exploração do estuário do Zaire.

Diogo Cão subiu o curso do rio até as cataratas do Yelala, atingindo o extremo navegável do rio. Por outro, a penetração terrestre em direcção a Mbanza Kongo, que mais tarde seria rebaptizada de São Salvador.

Na volta a Portugal mas já com Bartolomeu Dias no regresso da descoberta do Cabo de Boa Esperança, passando por M´ Pinda, foi a vez de o Manicongo mandar sua embaixada a D. João II.

Junto dos presentes, pedia "que lhe mandassem logo frades e clérigos e todas as coisas necessárias para ele e os de seus reinos recebessem a água do baptismo", solicitando igualmente o envio de pedreiros, carpinteiros e lavradores que ensinassem em seus reinos a tratar da terra, mulheres para ensinarem a amassar pão, "porque levaria muito contentamento por amor dele que as coisas do seu reino se parecessem com Portugal" (ibidem:643).

Em Dezembro de 1490, partiu para o Congo uma expedição sob o comando de Gonçalo de Sousa, na qual retornou a comitiva congolesa, assim como foram enviados os primeiros missionários. A expedição chegou ao porto de Mpinda e foi recebida pelo chefe da província de Nsoyo, tio do Manicongo.

Ele e seu filho foram os primeiros a serem baptizados, recebendo o nome de Manuel, o mesmo do irmão da rainha de Portugal.

Com isso, abria-se o caminho para a conversão. Dali partiu a expedição para a capital real. O Manicongo quis ser baptizado imediatamente, no que foi atendido e, seguindo
o padrão analógico dos primeiros tempos da relação entre os dois reinos, recebeu o nome do rei de Portugal.

D. João I, no entanto, logo abandonaria o cristianismo, pressionado por certa facção da nobreza apegada às tradições bakongo e receosa de perder suas posições com a "nova ordem cristã" que se avizinhava.

Foi com seu filho, Afonso, que reinou entre 1506 e 1543, que as bases da catolização foram sedimentadas. Ainda durante o reinado de seu pai, D. Afonso entrou em conflito com seu irmão, governador de Panga, que rejeitara a fé católica e tinha muitos seguidores.
em M'Banza Congo, S.Salvador, Angola
A luta ganhou intensidade com a sucessão no poder. Restabelecida a paz, D. Afonso mandou erigir a igreja de Santa Cruz, templo no qual foram baptizados muitos súbditos.

D. Afonso ordenara ainda aos governadores que entregassem todos os objectos que pudessem lembrar as antigas crenças. "O monarca mandou queimar tais objectos, distribuindo em seguida imagens de santos, cruzes, rosários, etc. Mandou, além disso, erigir três igrejas: a de São Salvador, a da Virgem Maria e a de São Jaime" (idem:651).

Diante das dificuldades e do precário contingente de missionários, Afonso I pediu ajuda à Coroa portuguesa. O rei D. Manuel mandou, então, formar um grupo de moços no convento de Santo Elói de Lisboa, o primeiro seminário europeu para o clero indígena.

Entre esses rapazes estava o filho de D. Afonso I, Henrique, que mais tarde seria consagrado bispo titular de Útica.

Em seu reinado, a conversão dos senhores do Congo e seus súbditos significou não só mudanças na vida espiritual, mas também em aspectos materiais, incluindo desde a alimentação, vestuário e construções, até a reforma administrativa do Reino, que se reorganizou à semelhança do de Portugal.
igreja em M'Banza Congo
Segundo A. Custódio Gonçalves (1992:533), com a tentativa de transformar o Congo em um reino cristão, "ponta de lança da conquista espiritual da África", acreditou-se que a introdução de novos modelos culturais através da acção missionária o tornaria uma réplica do reino português.

A missionação, a par das deficiências, facilitou a abrangência da educação e a entrada dos modelos de organização política, administrativa e judicial, com a instituição da nobreza, cortesãos e dignatários, insígnias e distintivos de todos os graus hierárquicos, criando no Congo a Corte de São Salvador, cujo rei se dizia irmão do monarca português.

Anterior ao achamento do Brasil e ao domínio da Índia, a descoberta de um espaço geo -humano, tão vasto e receptivo como o oferecido pelo Congo, proporcionaria a possibilidade de materializar um eficaz projecto de aculturação jamais acenado ainda a Portugal. (Marques, 1992:131)

A colonização do território de Angola teve sua base inicial nos contactos com o reino do Congo. A ex-província Ngola, após sua independência do reino do Congo, mandou uma embaixada a Portugal pedindo missionários para instruírem o reino de Angola na fé cristã.

Segundo Araújo & Santos (1993:653), entretanto, mais que o interesse na conversão, o soberano de Angola, reconhecendo a importância que as relações com Portugal conferiam ao rei congolês e buscando afirmar sua independência, tentava, com a embaixada, reatar o tráfico de escravos na região e com isso ganhar poder económico e político em relação ao rei do Congo.
Em 1559, foi enviada uma missão chefiada por Paulo Dias de Novais para, entre outros fins, converter o rei angolano e suas gentes.

Embora ao longo de todo o século XVI os portugueses continuassem a enviar escravos a partir do porto de Mpinda e do Loango, via S. Tomé, depois da fundação de Luanda, em 1575-76, Angola tornou-se o principal fornecedor de escravos.

No Congo, como em Angola, a missionação esteve presente junto aos primeiros esforços colonizadores, mas encontrou muitas dificuldades com o passar dos anos. E não se pode deixar de enfatizar que o maior problema da missionação, sem dúvida, foi a escravatura, da qual os religiosos não puderam passar ao largo.

Notas

1. Segundo A. C. Gonçalves, os cronistas João de Barros, Rui de Pina e Garcia de Resende não estão de acordo quanto às datas e número de expedições de Diogo Cão. "A primeira viagem teria sido 1482 — 83 e a segunda, na qual subiu o rio Congo até as cataratas do Yelala, em 1484 — 85" (Gonçalves, 1992:525).

2. "Até as ilhas de Cabo Verde, a armada foi comandada por Gonçalo de Sousa. Mas, tendo falecido este, assumiu o comando Rui de Sousa [...]" (Araújo & Santos, 1993:646)


3. "A que Ordem pertenceriam estes três primeiros missionários? Surgem diferentes possibilidades. João de Barros, na sua Década Primeira, capítulo III, quando refere a educação, no convento dos Lóios (frades de São João Evangelista) dos jovens naturais do Congo e do seu baptismo, antes de serem entregues aos cuidados de Gonçalo de Sousa para os restituir à pátria, diz que foi escolhido um dominicano. Os Lóios, por sua vez, reivindicam para a sua obra a primazia da acção apostólica empreendida e mencionam como superior frei João de Santa Maria, religioso de grandes letras e virtudes, bem como Frei João de Portalegre, Frei António de Lisboa e o 'Manicongo', Frei Vicente dos Anjos, assim chamado por ter sido um dos mais notáveis missionários da evangelização do Congo" (Araújo & Santos, 1993:648).