domingo, 20 de dezembro de 2020

Exploração e Conquista do Amazonas pelos Portugueses


Exploração e Conquista do Amazonas pelos Portugueses

Fonte : http://www.filorbis.pt/lusotopia/indexBRAmazonas01.html

Tratado de Tordesilhas

Após o regresso de Cristóvão Colon da América (Março de 1493), o rei de Portugal negoceia com os espanhóis um tratado de divisão do mundo, no qual garante a posse de parte do território brasileiro, incluindo o amazonas,. Ao longo dos anos são realizadas várias expedições portuguesas para reconhecimento do Brasil, como a realizada por Duarte Pacheco Pereira (1498).

Perante a ameaça espanhola de se apossar do Brasil, Pedro Álvares Cabral oficializa sua descoberta em 1500. A partir daqui intensificaram-se as viagens de exploração dos portugueses de toda a costa da América do Sul incluindo o Brasil, como está patente na cartografia da época (Mapa de Cantino, 1500). O interior do amazonas começa a ser lentamente explorado através dos seus rios.

A ocupação sistemática do Brasil só se inicia em 1534, quando Portugal decide abandonar muitas praças fortes, espalhadas pelo mundo para se concentrar apenas em algumas regiões estratégicas e com maior potencial. A crónica de recursos humanos do país a isso obrigava.


Exploração do Amazonas a partir do Perú.

Os portugueses, ao serviço da Espanha, participam activamente e em grande número na conquista do Perú, onde criam uma importante colónia. A partir de Quito iniciam a exploração de Oeste para Leste do Amazonas.

Diogo Gomes, navegador português acompanhado por um mercador espanhol, em 1538, realizou a primeira viagem entre Quito e o Maranhão.

A conhecida expedição de Francisco de Orellane, em 1541, a partir de Quito desceu o Maranhão até ao “mar do Norte”, contou com pelo menos dois portugueses: António Fernandes e Fernando Gonçalves.

Os portugueses desta forma controlam as movimentações dos espanhóis na região.

Ao longo do século XVI os portugueses realizam expedições sistemáticas no Rio Amazonas e seus afluentes, implantando povoações e fortes no seu interior.

Pedro Teixeira

A ocupação de Portugal pela Espanha, entre 1580 e 1640, é aprovado pelos portugueses para expandirem as fronteiras do Brasil, e em particular do Amazonas, para além dos limites definidos no Tratado de Tordesilhas (1494).

As guerras com os franceses, ingleses, irlandeses e holandeses são aproveitadas para expandir o Brasil, fortificar as suas costas e as entrdas fluviais. Entre 1600 e 1630 os portugueses dominam a entrada do Rio Amazonas.

Em 1616, edificam o Forte do Presépio, perto do qual surgirá Belém do Pará. Atingem o Rio Negro (1656) onde em 1669, constroem o Forte da Barra de S. José do Rio Negro, destinado a controlar a descida do Rio Orenoco, perto do qual irá surgir a futura cidade de Manaus, em pleno Amazonas.

Pedro Teixeira (Cantanhede 1570 – Belém 1641) foi um dos portugueses que melhor soube tirar partido da situação da ocupação espanhola. Em Outubro de 1637, inicia uma expedição pelo Rio Amazonas e Rio Negro, destinada a confirmar a comunicação entre o oceano Atlântico e o Perú. Levou consigo 1200 flechas índios, 70 soldados portugueses, 47 canoas. Partiu da cidade de Gurupá (Pará), tendo percorrido 10.000 quilómetros do Amazonas, alcançando Quito (Equador) em 1638.

Fundou uma cidade, Franciscana 16.08.1639, nas margens do Rio Napo, na confluência com o rio Aguarico, em território peruano, num ponro que considerou o limite entre os domínios de Portugal e Espanha. Desta forma confirmou a posse para Portugal de cinco milhões de quilómetros quadrados, equivalentes a 55%  do actual território brasileiro.

A expedição foi descrita por Maurício de Heliarte, na sai obra “ Novo Descobrimento do Grande Rio Amazonas” (Madrid, 1641, A corte espanhola mandou destruir a edição, a fim de ocultar a expedição para reclamar a posse da Amazónia, confirmada no tratado de Madrid (1750).

Alguns capitães posteriores, como António Raposo Tavares, Manuel Coelho e Francisco de Melo Palheta, passaram a percorrer o9 Amazonas, controlam o seu delta e seus afluentes, descobrem comunicações fluviais que lhes permitem atingir aldeamentos espanhóis na região oriental da Bolívia, onde recolhiam especiarias com ajuda dos nativos.

Os portugueses espanham-se pelo Amazonas, mesmo nos pontos mais recônditos. Em 1744, por exemplo, um sacerdote jesuíta, Manuel Ramón, quando explorava a partir da Venezuela o canal Cassiquiare, que interliga o rio Amazonas ao rio Orinoco, depara-se com um grupo de portugueses que há muito navegavam através destes rios.

O Problema dos Jesuítas

 A expansão dos prtugueses pelo interior do Vale do Amazonas revelou-se imparável. Os espanhóis desde o século XVI que se mostravam incapazes de compelir com os portugueses do domínio do amazonas.

É neste sentido que acabaram por confiar a defesa dos seus domínios que faziam fronteira com o Brasil aos seus jesuítas. Marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal ao perceber –se da situação tratou de expulsar a Companhia de Jesus (1750 e promover o fim das suas missões na América do Sul nas regiões onde podiam ser um obstáculo à expansão do Brasil.

Real Forte do Príncipe da Beira

Na segunda metade do século XVII, Portugal inicia a construção de um formidável sistema defensivo do Amazonas. O expoente máximo destas fortalezas é o Forte da Beira, cuja construção começa em 1776. O Forte está localizado nas margens do Rio Guaparé (actual Guajaré-Mirin), no Estado de Rondânia.

A pedra usada na sua construção foi transportada de locais situados a a mais 1.500 Km de distância, o que revela só por si o incrível trabalho que envolveu a sua edificação.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Os portugueses que se destacaram na história marítima de Portugal

 

 Os portugueses que se destacaram na história marítima de Portugal

Pedro Reinel nasceu cerca de 1462, e deu início à segunda de quatro épocas ou escolas da cartografia portuguesa, definidas por Armando Cortesão. Teve a sua oficina em Lisboa e trabalhou para os monarcas D. João II, D. Manuel I e D. João III, como mestre de agulhas e de cartas de marear.

Pedro Reinel, que teria no seu filho Jorge um continuador da sua obra, marca a transição da cartografia portuguesa do século XV para o XVI. 

A sua obra reproduziu os avanços das viagens de descobrimento dos navegadores portugueses e da evolução científica da navegação, abandonando as concepções ptolemaicas do desenho das cartas.

Pedro Reinel é o primeiro cartógrafo português de quem conhecemos a produção cartográfica porque foi o primeiro que assinou os seus trabalhos. A sua carta náutica de cerca de 1485 ainda é do tipo portulano; representando a costa ocidental do continente africano, apresenta já os resultados das viagens de exploração dos navegadores ao serviço de Fernão Gomes (1469 ‑1473) e da primeira viagem de Diogo Caão (1482‑ ‑1484), o que a torna uma referência histórica.

A obra cartográfica atribuída a Pedro Reinel é constituída por oito cartas: a carta náutica de c. 1504, assinada por Pedro Reinel, é a primeira carta náutica onde existe uma escala de latitudes e também a primeira que apresentou uma rosa‑dos‑ventos com a flor‑de‑lis indicando o Oriente.

Seguiram‑se a carta de c. 1517, duas cartas de c. 1522 e uma carta de c. 1535, todas consideradas anónimas por não estarem assinadas.

O período dos descobrimentos tinha já acabado e [...] o que agora preocupava o monarca português, D. João III, não era o envio de expedições em busca de novas terras, mas encontrar um processo para garantir a posse das que já se conheciam.

Um documento, datado de 10 de Fevereiro de 1528, refere uma carta de mercê, em que D. João III concede a Pedro Reinel uma tença de 15 000 reais anuais. Faleceu em 1542, mas a sua obra foi continuada por seu filho Jorge.

Jorge Reinel nasceu em Lisboa cerca de 1502, filho do também cartógrafo Pedro Reinel, e foi um dos mais importantes cartógrafos portugueses. Das suas obras mais conhecidas destacamos: Oceano Índico (1510), carta actualmente na Biblioteca Herzog August em Wolfenbüttel; Planisfério (1519), desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial do Arquivo de Munique; Oceano Atlântico (1540), a única assinada, actualmente na Biblioteca Nacional de Florença. O seu traçado mostra, com rigor, o conhecimento geográfico da época.

O período dos descobrimentos tinha já acabado e o conhecimento do litoral dos chamados Novos Mundos estava suficientemente estudado. O que agora preocupava o monarca português, D. João III, não era o envio de expedições em busca de novas terras, mas encontrar um processo para garantir a posse das que já se conheciam.

1485, carta de Pedro Reinel para a Europa Ocidental e África 

Estas preocupações reflectiram‑se também na cartografia e a carta de 1540 tem desenhadas pequenas bandeiras para afirmar a soberania de Portugal relativamente a numerosas parcelas da costa africana e do litoral Nordeste do Brasil.

D. João III concedeu‑lhe, por carta de mercê de 10 de Fevereiro de 1528, uma tença anual de 10 000 reais. Jorge Reinel aparece também como assistente de Pedro Nunes nos exames para mestres de cartas de marear, a que se submeteram os cartógrafos António Martins (1563), Bartolomeu Lasso e Luís Teixeira (1564). Também nos Livros de Verea‑ ção da Câmara Municipal de Lisboa, existem dois autos de ajuramentação, datados de 29 de Agosto de 1551 e 29 de Novembro de 1554, em que surgem Jorge Reinel e Lopo Homem como exemjnadores darte de navegar.

Os Reinéis foram considerados os melhores cartógrafos do seu tempo, ao ponto de o imperador Carlos V os querer a trabalhar na sua corte. Em 1524 [...] ofereceram‑lhes, para esse efeito, uma avultada quantia, [...] mas os dois cartógrafos mantiveram‑se ao serviço de Portugal. 

Em 1519, na sequência de uma contenda com o padre Pedro Enes, o cartógrafo refugiou‑se em Espanha, tendo vivido em Sevilha, onde, segundo parece, terá continuado a trabalhar na sua profissão. Seu pai deslocou‑se àquela cidade para o trazer de volta a Portugal, mas antes teve de o auxiliar a terminar algumas cartas que Jorge se tinha comprometido a executar para a expedição de Fernão de Magalhães. Estes factos são confirmados pela carta, de 18 de Julho de 1519, enviada a D. Manuel I pelo feitor português em Sevilha, Sebastião Álvares, onde se afirma que «… a terra de Maluco eu vy asentada na poma e carta que ca fez o filho de Reynell, a qual nõ era acabada quando caa seu pay veo por ele, e seu pay acabou tudo e pos estas terras de Maluco e per este padram se fazem todalas cartas…».

Bartolomé Leonardo de Argensola, citado por Armando Cortesão e Teixeira da Mota, também se refere ao facto de Magalhães, a fim de obter o apoio de Carlos V para a sua viagem, ter utilizado “vn Planisferio dibujado por Pedro Reynel“, no qual as Molucas estariam representadas a leste da linha de demarcação estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, celebrado entre Portugal e Espanha, portanto dentro do hemisfério espanhol.

Os Reinéis foram considerados os melhores cartógrafos do seu tempo, ao ponto de o imperador Carlos V os querer a trabalhar na sua corte. Em 1524, durante as negociações da chamada Junta de Badajoz-Elvas, ofereceram‑lhes, para esse efeito, uma avultada quantia, conforme Diogo Lopes de Sequeira e António de Azevedo Coutinho informaram D. João III, em carta datada de 9 de Junho de 1524. Mas os dois cartógrafos mantiveram‑se ao serviço de Portugal. Jorge Reinel faleceu, com 70 anos de idade, em 1572. A chamada Escola dos Reinéis, assegurou à família Reinel um lugar importante na cartografia portuguesa pelo rigor, pela qualidade técnica e pelo valor artístico das suas cartas.

1517-Terra Brasilis", parte do Atlas Miller por Pedro e Jorge Reinel, Lopo Homem e António de Holanda

Lopo Homem foi o cartógrafo a quem, em 1517, o monarca D. Manuel I atribui, por alvará, o privilégio de fazer e reparar todas as agulhas dos navios. Outra pessoa que executasse essa tarefa teria de pagar, a Lopo Homem, vinte cruzados.

Em 1524, D. João III renovou o alvará de 1517 e nomeou‑o para participar na Junta de Badajoz‑Elvas, comissão estabelecida pelos monarcas de Portugal e Espanha para tentar demarcar os limites a oriente do Tratado de Tordesilhas, sobre cuja posição exacta não havia acordo entre os dois Estados, dando origem à chamada Questão das Molucas. Este diferendo seria resolvido pelo Tratado de Saragoça, em 1529.

Em 1531, foi‑lhe atribuída uma tença vitalícia de 20 000 reais, aumentada, no ano seguinte em mais 5000. A obra mais antiga que se conhece deste cartógrafo é um planisfério desenhado em 1519. O mapa encontra‑se rodeado pelos quatro ventos, nos cantos, e tem uma nomenclatura, em latim, muito escassa; em África estão identificadas apenas a Líbia, a Etiópia e a Guiné. A América é identificada como Mundus novus Brazil, e apresenta‑se ligada à Ásia por um continente imaginário identificado como Mundus Novus.

Diogo Homem nasceu em 1520 ou 1521 e, ainda muito novo, cometeu um crime de homicídio [...]. Fugiu para Inglaterra e parece que nunca mais regressou ao Reino.

Além desta, destacam‑se ainda as seguintes obras de sua autoria:

Terras Brasilis (1519), mapa integrado no chamado Atlas Miller e atribuído a Lopo Homem e aos Reinéis. É uma carta manuscrita, sobre pergaminho, apresentando uma nomenclatura em latim muito detalhada (mais de 146 nomes); mostra‑nos toda a costa do Brasil, desde o Maranhão até ao Rio da Prata. Este mapa destaca‑se pelos detalhes do território, menos de vinte anos depois da sua descoberta.

O Atlas Miller onde se integra este mapa, também conhecido por Atlas Lopo Homem-Reinéis, é uma obra constituída por dez cartas ricamente ilustradas desenhadas cerca de 1519. É um trabalho conjunto dos cartógrafos Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, ilustrado por António de Holanda. Estão ali representados o oceano Atlântico Norte, a Europa do Norte, o arquipélago dos Açores, Madagáscar, o oceano Índico, a Insulíndia, o mar da China, as ilhas Molucas, o Brasil e o mar Mediterrâneo. Terá sido oferecido por D. Manuel I ao monarca francês Francisco I.

Planisfério (1524).

Carta Marítima (sem data). Pertenceu ao rei D. Carlos.

Foi pai do cartógrafo Diogo Homem e faleceu em 1565.

Mapa do Mundo por Lopo Homem (1554)

Diogo Homem nasceu em 1520 ou 1521 e, ainda muito novo, cometeu um crime de homicídio, pelo que foi condenado a uma pena de degredo numa praça de Marrocos. Fugiu para Inglaterra e parece que nunca mais regressou ao Reino, apesar dos esforços do seu pai para que lhe fosse concedido um perdão.

Diogo Homem foi um cartógrafo de grande qualidade técnica e artística e produtor de numerosos atlas e cartas‑portulano. O seu portulano, desenhado c. 1566 é, possivelmente, a sua obra de maior interesse. Existe também um portulano de 7 cartas datado de Veneza, 1572.

A carta de Diogo Homem, de 1557, é a mais antiga carta portuguesa assinada e datada que se conhece. Diogo Homem [...] foi, ao que se julga saber, o mais produtivo de todos os cartógrafos portugueses.

A sua obra cartográfica foi produzida, maioritariamente, entre 1556 e 1576 e dela se destaca o chamado Atlas de Diogo Homem, com 29 cartas manuscritas em pergaminho iluminado. Este magnífico exemplo da cartografia náutica do século XVI, datado de 1556, é uma das mais brilhantes obras deste cartógrafo. Dele são conhecidas ainda as seguintes cartas:

América Meridional (1558), exibe a América do Sul e as Antilhas.

América do Sul (1558), caracteriza‑se pela grande imprecisão do traçado da região Sul do Brasil que está muito estendida para leste. Encontram‑se assinalados o mar das Antilhas, o Peru, a Argentina, a Terra dos Incas e o estreito de Magalhães.

América do Sul II (1568), é constituída por duas folhas. Tem uma inscrição Mvndnvs, que significa Mundo Novo, e designa a América do Sul. As outras legendas referem‑se a Brasilis e Terra Argentea, a primeira com as armas de Portugal e a segunda com as armas de Castela.

América do Sul III (1568), apresenta‑nos um escudo e duas bandeiras com as armas de Castela indicando o domínio espanhol sobre a região ocidental daquele continente. Da costa do oceano Pacífico apresenta já as posições espanholas situadas entre o actual México e o Chile, bem como as posições da região dos Andes e da bacia do Rio da Prata. Está ainda representada a cordilheira dos Andes e o sinuoso rio Amazonas.

1563 - Carta do Mar Mediterrâneo por Diogo Homem 

A carta de Diogo Homem, de 1557, é a mais antiga carta portuguesa assinada e datada que se conhece. Diogo Homem faleceu em 1576 e foi, ao que se julga saber, o mais produtivo de todos os cartógrafos portugueses ou, pelo menos, aquele de quem se conhecem maior número de trabalhos.

André Homem foi outro cartógrafo português de cuja vida pouco se sabe. Pensa‑se que poderá ser irmão (ou primo) de Diogo Homem. Sabe‑se que esteve em Paris em 1565 e em Londres dois anos depois.

A “Universa ac Navigabilis Terrarum Orbis Descriptio“, confeccionada sobre pergaminho, em 1559, para o soberano de França, é a sua obra mais conhecida. Uma carta deste cartógrafo, datada de 28 de Fevereiro de 1565, e endereçada ao embaixador de Portugal em Paris, continha um planisfério que foi muitas vezes citado nas discussões sobre limites entre o Brasil e a Guiana Francesa para favorecer as posições francesas.

Esta família de cartógrafos portugueses iniciou‑se com Pero Fernandes e continuou com Luís Teixeira, a que se seguiram os seus filhos, João Teixeira Albernaz (I) e Pedro Teixeira Albernaz. Além de Estêvão Teixeira, integra também esta família João Teixeira Albernaz (II), neto do seu homónimo. A actividade desta família exerceu‑se de meados do século XVI até ao final do século XVII.

Pero Fernandes terá nascido na primeira metade do século XVI e foi nomeado mestre de fazer cartas de marear, em 23 de Maio de 1558. Apenas se conhecem duas obras suas:

Pertenceram ao espólio da Sächsische Landesbibliothek de Dresden e foram destruídas durante os bombardeamentos dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Pero Fernandes teve três filhos: Domingos Teixeira, Luís Teixeira e Marcos Fernandes, todos cartógrafos. Domingos Teixeira exerceu a sua actividade na segunda metade do século XVI. Teve um filho, Pero Lemos, também cartógrafo.

[Luís Teixeira] fundou, na segunda metade do século XVI, uma nova escola de cartografia. [...] As suas qualidades proporcionaram‑lhe grande fama no Norte da Europa, onde foram publicadas e vendidas muitas cartas de sua autoria.

Pouco sabemos da sua actividade, mas o Livro de Lançamentos da Câmara de Lisboa refere‑se a um Domingos Teixeira que, em 1565, fazia cartas de marear. A relação da viagem da nau São Pantaleão, em 1595, refere que as cartas que existiam a bordo tinham sido desenhadas pelos irmãos Luís e Domingos Teixeira, o que nos leva a concluir que os dois irmãos trabalhariam juntos.

São conhecidas, apenas, duas cartas da sua autoria: A Carta Atlântica, sem data, da Biblioteca de Bodlein, em Oxford; O Planisfério de 1573, da Biblioteca Nacional de França, em Paris.

Luís Teixeira é o mais ilustre representante desta família, pois os seus trabalhos apresentam, além de uma qualidade superior e pormenores excepcionais, um estilo muito próprio. Ao nível internacional, colaborou com Abraham Ortelius no Theatrum Orbis Terrarum. Considera‑se que este cartógrafo fundou, na segunda metade do século XVI, uma nova escola de cartografia. Foi pai de João Teixeira Albernaz e Pedro Teixeira Albernaz, também cartógrafos.

A sua carta de ofício foi passada a 18 de Outubro de 1564, permitindo‑lhe desenhar cartas de marear, construir instrumentos náuticos e fazer regimentos de altura e declinação do Sol.

As suas qualidades proporcionaram‑lhe grande fama no Norte da Europa, onde foram publicadas e vendidas muitas cartas de sua autoria. Em 1569, foi nomeado para fornecer, aos navios da Coroa, todas as cartas e instrumentos náuticos que fossem necessários.

São conhecidos 15 mapas de sua autoria, que não correspondem, de modo nenhum, à totalidade dos seus trabalhos; foi pioneiro na cartografia das ilhas dos Açores.

Enumeram‑se alguns dos seus mais importantes trabalhos: Roteiro de todos os sinais, conhecimentos, fundos, baixos, alturas, e derrotas que há na costa do Brasil desde o cabo de Santo Agostinho até ao estreito de Fernão de Magalhães, elaborado entre 1573 e 1578, e actualmente na Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa; Fragmento de Planisfério, c. 1586, que se encontra no Museu de Marinha de Lisboa; Carta do Japão, publicada em 1595.

Domingos Teixeira manteve intensos contactos com cartógrafos holandeses, como Jodocus Hondius e Abraham Ortelius, com quem contactou desde 1582.

Numa carta datada de 2 de Fevereiro de 1592, Teixeira enviou a Ortelius duas peças com as descrições da China e Japão, cujas fontes foram possivelmente os trabalhos dos jesuítas. Apareceram na Holanda várias gravuras com cartas de sua autoria. Uma delas foi a carta da Guiné, de 1602, que apresenta, como originalidade, a representação do interior da Senegâmbia e da Costa do Ouro.

Marcos Fernandes, filho de Pero Fernandes, teve carta de ofício datada de 1592.

João Teixeira Albernaz conhecido também como João Teixeira Albernaz I ou João Teixeira Albernaz, o Velho, para o distinguir do seu neto e homónimo, é um dos cartógrafos de quem se conhecem mais obras publicadas.

Nasceu em Lisboa no último quartel do século XVI, filho do cartógrafo Luís Teixeira, e faleceu cerca de 1662. São conhecidos 19 atlas da sua autoria, totalizando 215 cartas. Apresenta nos seus trabalhos uma variedade enorme de temas, de que se destacam as explorações marítimas, terrestres e fluviais do Brasil.

Terá aprendido a arte da cartografia com seu pai Luís Teixeira e iniciado os seus trabalhos já no século XVII. Recebeu Carta de Ofício de mestre em fazer cartas de marear, astrolábios, agulhas e balestilhas, a 29 de Outubro de 1602, sendo seu examinador o cosmógrafo‑mor do Reino João Baptista Lavanha. Em 1605, foi nomeado cartógrafo do Armazém da Guiné e Índia (também chamada Casa da Mina e Índia), onde trabalharia até ao final da sua vida.

No Arquivo das Índias, em Sevilha, existem documentos que comprovam a sua presença em Madrid, juntamente com o seu irmão Pedro, e a execução de cartas náuticas representando o estreito de São Vicente e o estreito de Magalhães. Numa relação da viagem dos irmãos Bartolomeu e Gonçalo Nodal à América austral, consta uma carta de Pedro desenhada com a colaboração de João.

Em 1622, o cartógrafo apresentou uma petição para ser provido no lugar de cosmógrafo‑mor, mas foi preterido a favor de Valentim de Sá, com quem, no ano seguinte, viria a colaborar como membro do júri que passou a Carta de Ofício a João Baptista de Serga.

A obra de João Teixeira Albernaz é de grande interesse pela sua amplitude, variedade e pelo assentamento das explorações portuguesas nomeadamente no Brasil. A obra está reunida em 19 atlas, um conjunto de quatro cartas, duas cartas isoladas e uma outra incluída num atlas de origem diferente. Existem ainda oito cópias de dois dos seus 19 atlas, num total de 215 cartas, e mais duas cartas gravadas.

Pedro Teixeira Albernaz (c. 1595‑1662) nasceu em Lisboa, tendo desenvolvido a sua actividade maioritariamente em Espanha, para onde partiu em 1619, com seu irmão João, a fim de cartografarem os locais que constavam da relação de viagem dos irmãos Nodal.

João Teixeira Albernaz II é neto de Albernaz I. [...]. Uma das suas cartas foi usada na Conferência de Badajoz [...] afirmando os seus membros que João Teixeira Albernaz II era conhecido em toda a Europa.

João Teixeira Albernaz regressou a Portugal, como já vimos, e Pedro permaneceu em Madrid, onde viria a falecer em 16629. A sua produção cartográfica que chegou até à actualidade é muito escassa, mas sabe‑se que terão desaparecido numerosas cartas deste cartógrafo.

Dedicou‑se especialmente a executar levantamentos topográficos, julga‑se que por influência de João Baptista Lavanha (1555‑1624), cosmógrafo‑mor e professor de Matemática de D. Sebastião e do príncipe e futuro rei de Espanha D. Filipe IV.

Das cartas desaparecidas, referiremos uma que continha a representação do delta do rio Amazonas e outra, em várias folhas, com a descrição das costas de Espanha; desta existem várias cópias da sua descrição, mas sem as cartas. Em 1623 fez parte, como seu irmão João, do júri de exame a João Baptista de Serga.

João Teixeira Albernaz II foi um cartógrafo português do século XVII, neto e sucessor do outro cartógrafo com o mesmo nome. Pouco ou nada se sabe da vida deste cartógrafo e, por vezes, os seus dados são confundidos com os do seu avô.

1630 -"Taboas geraes de toda a navegação" para a Ásia, por João Teixeira Albernaz I 

Manuel Pimentel indica que João Teixeira Albernaz II é neto de Albernaz I, afirmando também que fazia cartas com perfeição. Sabemos igualmente que ainda se encontrava vivo em 1699.
Na sua obra, é patente a influência que recebeu do seu avô, que foi o seu mestre, mas os traçados das letras e as iluminuras são menos rigorosas. Os Atlas do Brasil repetem, embora com alguns progressos, os que o seu avô tinha desenhado, mas possuem o mérito de terem influenciado a cartografia holandesa daquela região. A sua obra considerada mais importante é o Atlas de África de 1665, trabalho único no género, que terá sido encomendada por um francês, o que mostra a procura e o valor que a cartografia portuguesa tinha, ainda nessa época, no estrangeiro. Uma das suas cartas foi usada na Conferência de Badajoz (1681), a propósito da questão da Colónia do Sacramento, afirmando os seus membros que João Teixeira Albernaz II era conhecido em toda a Europa, razão pela qual foi por todos escolhida uma das suas cartas.

É bastante vasta a sua produção cartográfica, sendo o cartógrafo de que chegaram maior número de cartas até à actualidade. Para além das cartas isoladas, vários Atlas são da sua autoria. Os três Atlas do Brasil que lhe são atribuídos são muito semelhantes, abrindo com uma carta geral, a que se seguem depois as particulares, e utilizam, genericamente, o padrão desenhado por seu avô, João Teixeira Albernaz I.

Pedro e Jorge Reinel (at.1504-60) Dois cartógrafos negros na corte de D. Manuel de Portugal (1495-1521)


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Navegando com as agulhas de marear


22.06.17

fonte: Lusitanian Express de Luís D. Lopes, Cabo das Tormentas

Eis o trabalho do Sr. Luís D. Lopes:

João de Lisboa foi um dos grandes pilotos portugueses na época em que viveu, e atendendo às datas e factos conhecidos da sua vida terá seguramente nascido na segunda metade do século XV, muito provavelmente entre 1470 e 1480. Ficou imortalizado na História dos Descobrimentos Portugueses por ser o autor de um livro de Marinharia que continha o célebre Tratado da Agulha de Marear de 1514. A datação do Livro de Marinharia constitui um enorme desafio visto conter mapas cujas datas de publicação são consideravelmente posteriores a 1514.

Existem bons indícios que terá participado na expedição à costa brasileira, em 1501, capitaneada por Gonçalo Coelho. A sua passagem por terras brasileiras é quase uma certeza pois em várias cartas do século XVI se encontra referenciado, no norte do Brasil, um rio com o seu nome.

Em 1506 João de Lisboa terá partido para o Oriente, não se sabe se pela segunda vez, na armada de Tristão da Cunha.

Em data incerta (1513?) foi nomeado piloto-mor de Portugal e participou, na expedição contra Azamor, comandada pelo duque de Bragança, D. Jaime.

Após a elaboração do Tratado em 1514, parte novamente para a Índia em 1518, na armada que transportou o governador Diogo Lopes de Sequeira.

Entre 1521 e 1525 terá feito outras viagens à Índia, tendo sido nomeado piloto mor da navegação da Índia e mar oceano, com a morte de Gonçalo Álvares por carta de 12 de Janeiro de 1525. Voltou a embarcar para o Oriente onde provavelmente faleceu, em 1526, isto pelo facto de o seu cargo ter sido entregue, em 15 de Novembro desse mesmo ano, a Fernão de Afonso.

A leitura do “Tratado da Agulha de Marear” de João de Lisboa, incorporado num documento mais extenso, o Tratado de Marinharia, oferece sérias dificuldades na compreensão da linguagem técnica utilizada, não esquecendo as dificuldades resultantes dos erros que foram sendo introduzidos e acumulados por sucessivos copistas deste Tratado.

A participação de João de Lisboa na elaboração do Tratado de Marinharia parece estar mais focada no papel de compilador de diversas fontes, sendo forte a possibilidade de João de Lisboa ter trabalhado sobre um conjunto de documentos mais antigos que estariam incompletos, associando o seu nome apenas ao Tratado da Agulha de Marear.

Sendo um documento de grande importância e significado, a mais antiga versão que se dispõe data de meados de Quinhentos quando o tratado é de 1514, o que significa que existirão diversas cópias entre o original e a cópia mais antiga que dispomos. A obtenção de um texto tanto quanto possível mais próximo do original deve-se em grande medida ao extraordinário esforço do Prof. Dr. Luís Albuquerque, através de comparações entre cópias existentes e a leitura de outros manuscritos que reproduzem, com variações e alterações, parágrafos ou capítulos inteiros da obra. Este trabalho terá permitido recuperar capítulos omissos em cópias mais antigas.

Na página 26 do Tratado de Marinharia surge a primeira indicação sobre a sua data:

Aqui se começa o tratado da agulha de marear achado por João de Lisboa no ano de 1514 - pelo que se pode saber em qualquer parte que homem estiver quanto é arredado do meridiano verdadeiro pelo variar das agulhas.
Trat1.png
Muito provavelmente, João de Lisboa, durante o processo de elaboração do seu Tratado, poderá ter tido acesso a documentos mais antigos e incompletos, pelo que é muito provável que sejam diversos os inspiradores do texto do tratado, nomeadamente o piloto Perô Anes e um cosmógrafo alemão conhecido por Mestre Diogo. A contribuição de Perô Anes no Regimento do Cruzeiro do Sul (incorporado no Tratado de João de Lisboa) é normalmente considerada como indiscutível.

No Tratado da Agulha de Marear, João de Lisboa tenta sustentar a (falsa) teoria segundo a qual as linhas isogónicas teriam uma correspondência directa com os meridianos terrestres. Segundo esta teoria, a declinação magnética estava directamente relacionada com a longitude através de uma simples regra de proporcionalidade de acordo com o desvio para nordeste ou noroeste que as agulhas apresentavam em relação ao meridiano dos pólos, o meridiano “vero”, a linha agónica, linha que une todos os lugares onde a declinação magnética é nula. Na defesa desta teoria, João de Lisboa aborda temas como a Agulha de Marear, a esfericidade da Terra, não esquecendo os processos astronómicos que permitiam identificar o Norte Geográfico, destacando-se neste conjunto de processos o Regimento do Cruzeiro do Sul

Como já referimos, conhecida a direcção do norte geográfico e se a declinação magnética local fosse diferente de zero, era possível verificar que a agulha não “estava fixa” nos pólos, o norte geográfico não se encontrava na mesma direcção da agulha. Isto significa que as agulhas “noroesteavam” (desviavam para oeste) ou “nordesteavam” (desviavam para leste) em relação à flor-de-lis (ferros fora da flor-de-lis) ou em relação ao norte geográfico (ferros na flor-de-lis).

Recordemos a seguinte regra: se a declinação é leste então o norte geográfico está para leste do norte magnético, se a declinação for oeste então o norte geográfico está para oeste do norte magnético.

Afirma João de Lisboa logo no início do Tratado da Agulha:

 ““Primeiramente hás-de saber que as agulhas todas, assim genovezas como flamengas, nordesteam e noroesteam segundo o lugar onde estão…porém hás de saber que umas [agulhas] fazem mais afastamento que outras, por serem feitas umas mais orientais e outras mais ocidentais

Vejamos o que João de Lisboa pretende transmitir (para ferros fixos fora da flor-de-lis):

“……. feitas umas mais Orientais” (nordesteam)    
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 “……feitas outras mais Ocidentais” (noroesteam) 
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João de Lisboa parece estar-se a referir a agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis quando diz por serem “feitas umas mais orientais e outras mais ocidentais”, além de as definir como sendo genovesas ou flamengas, ora sabemos que as agulhas com esta origem utilizavam os ferros fixos fora da flor-de-lis.

Uma agulha de ferros ferrados na flor-de-lis noroesteava, em 1500, cerca de 9º (Leste), se estivesse em Génova. Se viajasse para Lisboa essa mesma agulha continuaria a noroestear, mas por cerca de 5º (Leste), valor estimado para a declinação de Lisboa na época.
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Fig. nº26 – Saindo de Génova para Sul
Assim sendo, se uma embarcação saísse de Génova a navegar por um rumo inicial na rosa de 180 º (figura nº 26), na realidade o seu rumo verdadeiro seria de 189 º (+ 9º Este).

Ao aproximar-se de Lisboa (figura nº 27), se navegasse pela agulha para norte (360º) na realidade estava a navegar por 005º (+ 5º Leste).
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Fig. nº27 – Chegando a Lisboa
O mesmo já não se passa com as agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis. O afastamento que apresentam em qualquer momento é sempre igual ao valor da correcção que foi aplicada no local de construção e montagem da agulha (apontando a flor-de-lis na direcção dos pólos nesse local), daí João de Lisboa afirmar que existem agulhas que “fazem mais afastamento que outras por serem feitas umas orientais outras ocidentais”.

Repliquemos então a mesma situação anterior agora para o caso de agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis (agulha genovesa com um factor de correcção oposto à declinação local que é de 9º leste).

Neste caso, se uma embarcação saísse de Génova a navegar por um rumo inicial na rosa de 180 º (figura nº 28), na realidade o seu rumo verdadeiro seria também de 180º, situação que se manteria enquanto a declinação magnética se mantivesse igual a 9º leste (isto porque o efeito de correcção permanente igual a -9 graus tinha sido aplicado).
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Fig. nº28 – Saindo de Génova para Sul
Ao aproximar-se de Lisboa (figura n. 29), se navegasse pela agulha para norte (360º) na realidade estava a navegar por 356º (+ 5 graus Leste – 9 graus correcção = - 4 graus).
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Fig. nº29 – Chegando a Lisboa
No quadro seguinte tentamos representar, numa versão muito simplificada, uma hipotética viagem de Génova para Lisboa comparando os rumos verdadeiros para cada um dos dois tipos de agulha.

Nota:
Ferros na flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W)
Ferros fora da flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W) + factor de correcção (-9)
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Da comparação do quadro anterior concluímos de imediato o seguinte: a diferença nos rumos verdadeiros entre as agulhas com ferros na flor-de-lis e as agulhas com ferros fora da flor-de-lis é exactamente igual (como é evidente) ao factor de correcção ou ângulo permanente entre os ferros e a flor-de-lis.

A afirmação de João de Lisboa segundo a qual existem agulhas que “fazem mais afastamento que outras por serem feitas umas orientais outras ocidentais” fica assim perfeitamente justificada.

Quando João de Lisboa fez esta afirmação o fenómeno do noroestear e do nordestear das agulhas já era perfeitamente conhecido, não se conheciam as razões para a sua existência mas o fenómeno era conhecido.
Ao contrário das agulhas com os ferros na flor-de-lis, as que tinham os ferros afastados da flor-de-lis de acordo com a declinação magnética que se observava no local de construção das mesmas agulhas ou onde estas eram cevadas, eram orientais ou ocidentais de acordo com o sinal da correcção (E ou W) implementada. Logo o afastamento observado ao longo das viagens seria obviamente afectado por esta correcção.

Nas agulhas com os ferros na flor-de-lis o afastamento era nulo quando se navegava em zonas de declinação magnética nula, mas nas agulhas com os ferros fora de flor-de-lis, na mesma situação o afastamento seria exactamente igual ao factor de correcção.
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Fig. nº30 – Agulha com os ferros fora da flor-de-lis em Génova (ano 1500)
Na figura nº 30 está representada a agulha com o factor de correcção para cancelamento da declinação magnética em Génova. Na figura nº 31 está representada a mesma agulha mas numa zona de declinação magnética nula (linha agónica). O afastamento observado é de facto igual à correcção implementada no lugar de construção e montagem da agulha.
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Fig. nº31 – A mesma agulha numa zona de declinação nula

Alguma razão, ou um somatório de várias razões, terá contribuído para a opção adoptada pelos Portugueses, eventualmente ainda no século XV, pela utilização de agulhas de marear com os ferros fixos na rosa. Estamos profundamente convencidos que a generalização da utilização do Sol na navegação astronómica terá tido um papel preponderante nesta opção dos construtores portugueses de agulhas de marear.

Vejamos o que diz o espanhol Alonso de Santa Cruz, famoso cartógrafo espanhol do Século XVI que visitou Portugal em 1545, na sua obra “Libro de Longitudes” (publicada em 1555) sobre o facto de os pilotos espanhóis utilizarem agulhas com ferros ferrados fora da flor-de-lis ao contrário dos pilotos portugueses que utilizavam agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis.

“ [comparando com os portugueses] lo que no hacen los pilotos [espanhóisque navegan el poniente, por llevar los hierros debaxo da la rosa media quarta más al levante de la flor de lis de las 32 em que está repartida el aguja que es la diferança que la aguja hace hacia al nordeste de Sevilla”.

Alonso de Santa Cruz diz que os pilotos espanhóis que navegavam para as Índias Ocidentais [poniente] com agulhas com ferros ferrados fora da flor-de-lis, iniciavam as suas viagens (de Sevilha, Huelva, etc.) com a ponta norte da agulha a apontar [por llevar los hierros debaxo da la rosa] para levante (leste, oriente, nascente) com um desvio em relação à flor-de-lis (norte do cartão da rosa-dos-ventos) igual a cerca de 5,625 graus [media quarta más al levante de la flor de lis de las 32 em que está repartida el aguja]. Este ângulo seria o valor da declinação magnética (5,625 graus Leste) que seria observado em Sevilha naquela época, por quem montava ou cevava as agulhas de marear naquela zona.

Na figura nº 32 tentamos ilustrar esta situação não respeitando a escala face ao ângulo (meia quarta) para tornar a figura mais legível.
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 Fig. Nº32 – À saída de Sevilha

Mas Alonso de Santa Cruz disse mais ainda:

es que los portugueses traen más verdad y que lo han notado más curiosamente, porque llevan los hierros cebados debajo da la flor de lis de la rosa del aguja u asi há lugar de hacerse mejor las consideraciones…

Alonso de Santa Cruz basicamente diz que os portugueses, por utilizarem os ferros ferrados na flor-de-lis, obtinham melhores resultados com a utilização das suas agulhas, isto em comparação com os marinheiros espanhóis. Em que se baseava o espanhol para fazer esta afirmação?

Seguidamente apresentamos uma tabela que tenta representar uma hipotética viagem com a duração de 30 dias de Sevilha a um porto das Caraíbas em meados do século XVI. Considerámos a declinação à saída de Sevilha como sendo igual a seis graus Oeste, e utilizámos os valores estimados para a declinação magnética da época ao longo da travessia do Atlântico. Os rumos da agulha são absolutamente hipotéticos, não considerando as normais singraduras dos navios da época, assim sendo tentámos utilizar valores médios para os rumos. Fizemos a comparação dos rumos verdadeiros caso tivéssemos optado entre utilizar uma agulha com os ferros na flor-de-lis ou uma agulha com ferros fora da flor-de-lis (como era o caso dos navios espanhóis).
Nota:
Ferros na flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W)
Ferros fora da flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W) + factor de correcção (-6)
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Como se pode facilmente observar, após uma fase inicial de menor erro, a agulha com os ferros fora da flor-de-lis começa a apresentar erros de grandeza muito superiores aos apresentados pela agulha com os ferros na flor-de-lis, isto porque houve uma mudança de sinal, ou seja a declinação que era Leste à saída de Sevilha passou a ser de Oeste a partir de certa altura durante a travessia do Atlântico. Nos primeiros dias os erros nos rumos acabam por se anular entre si mas mudando o sinal da declinação então os erros das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis passam a ser muitos mais significativos.

Como conclusão, podemos afirmar que as agulhas de ferros fora da flor-de-lis eram muito eficazes enquanto a declinação não variasse ou variasse pouco quando comparada com a declinação magnética do local de construção/montagem, o factor de correcção implementado anulava a declinação magnética, daí resultando a navegação por rumos verdadeiros. No entanto, assim que a declinação variasse significativamente ou de sinal, os resultados deterioravam-se rapidamente com consequências bem visíveis para a navegação estimada.

Em termos práticos, à saída de Sevilha os pilotos espanhóis verificavam que as agulhas apontavam correctamente em direcção ao Norte mas, nos seus destinos nas Caraíbas, as agulhas “afastavam-se” do Norte (noroesteavam) em mais de uma quarta, o dobro do que se observava nas agulhas com os ferros na flor-de-lis.

Esta situação era muito visível nas travessias do Atlântico com destino às Caraíbas, dada a contínua alteração da declinação magnética ao longo dessa travessia, pensamos que seja esta a razão principal para a afirmação es que los portugueses traen más verdad ……… asi há lugar de hacerse mejor las consideraciones…”.

Tratado da Agulha de Marear de João de Lisboa

Regressemos ao Tratado da Agulha de Marear no ponto em que João de Lisboa apresenta o seguinte raciocínio:

“…e porque os antigos não sentiram esta variação, andavam mudando os ferros das agulhas fora da flor de liz, para que naqueles meridianos onde as cevavam fossem fixas nos pólos do mundo; e por esta razão achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas”.

Esta afirmação de João de Lisboa é composta por várias componentes. Identifica a existência de uma variação, fala das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis e identifica-as como causadoras de erros na qualidade da cartografia da época.

No capítulo VII do Tratado da Agulha de Marear, “Regra para saberes cevar a tua agulha de marear”, destacamos a seguinte afirmação:

saberei que para cevar a agulha perfeitamente, conforme aos padrões de Portugal, há-de ter os ferros da rosa no meio da flor-de-lis, e não afastados dele coisa alguma, como tem algumas que se fazem em Flandres, que não são certas…..”

É interessante a observação que o João de Lisboa faz sobre a existência de “padrões de Portugal” em relação aos ferros da rosa, facto confirmado em absoluto pelo espanhol Alonso de Santa Cruz quando afirma “lo que no hacen los pilotos [espanhóis]”.

Variação

variação aqui identificada por João de Lisboa é descrita também pelo mesmo desta forma:

“…se forem do meridiano vero [suposto meridiano onde a declinação magnética seria zeropara o oriente fazem conhecimento para nordeste tanto quanto vos dele afastais seguindo do meridiano para o ocidente fazem conhecimento para noroeste… a isto se chama noroestear e nordestear”.

Esta afirmação contém o suporte fundamental da (falsa) teoria de João de Lisboa segundo a qual a longitude estaria directamente relacionada com os desvios que as agulhas sofriam em relação ao norte geográfico (pólos fixos). Ora, segundo João de Lisboa, os antigos não sentiram esta variação, continuando a utilizar agulhas de marear com ferros fora da flor-de-lis.
João de Lisboa parece dar uma indicação que o conhecimento do fenómeno do noroestear e nordestear das agulhas esteve directamente relacionado com a ideia que então surgiu em Portugal, de ferrar os ferros de forma a estes ficarem coincidentes com a flor-de-lis.

Para João de Lisboa, as agulhas com os ferros fora da flor-de-lis invalidavam a utilização da sua (falsa) teoria sobre o cálculo da longitude.

As agulhas com os ferros fora da flor-de-lis cancelavam o efeito da declinação local quando era efectuado o cevar das agulhas, originando a navegação por rumos verdadeiros enquanto a declinação magnética se mantivesse constante. Com a variação da declinação magnética com o local e com a data, o noroestear e nordestear das agulhas também se detectava, mas os rumos verdadeiros estavam afectados pela correcção inicial (umas mais ocidentais, outras mais orientais) que era efectuada na operação de construção e montagem da agulha (a flor-de-lis ficava a apontar para o norte geográfico), pelo que os resultados da navegação estimada dos pilotos eram forçosamente diferentes.

Nas agulhas de ferros fixos ou ferrados na flor-de-lis, o noroestear e nordestear era em relação à flor-de-lis, e segundo João de Lisboa era possível através de leitura directa destes desvios calcular a longitude. Para João de Lisboa, com a utilização de agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis, o cálculo da longitude era simples e directo, bastava medir a variação local apresentada pela agulha.

 Para João de Lisboa a conclusão era simples e óbvia: 

Nas agulhas de ferros fixos ou ferrados na flor-de-lis, após a operação de cevar, se a agulha noroesteasse ou nordesteasse em relação aos pólos fixos, então a longitude onde se encontrava a embarcação estava proporcionalmente afastada do meridiano Vero, se pelo contrário a agulha estivesse fixa nos pólos então a embarcação estava no meridiano Vero. Esta regra mantinha-se ao longo do tempo em que se utilizava a agulha na navegação da embarcação, até nova operação de cevar.

Nas agulhas com os ferros fora da flor-de-lis, a rosa-dos-ventos era orientada de forma que a flor-de-lis apontava em direcção ao norte geográfico com um ângulo face à agulha que respeitava o desvio (declinação) observado localmente no local de construção e montagem da agulha (ou onde os ferros eram magnetizados), o cálculo da longitude ficava comprometido.

Costas Falsas

Voltaremos a este assunto mais adiante neste trabalho mas gostaríamos de abordar este tema utilizando o que João de Lisboa diz no capítulo I do Tratado.

e em a flor de lis se hão de pôr os ferros sem tomar de nordeste nem de noroeste; porque costumavam alguns, como dito é, fora da flor de liz por uma quarta ou duas ou mais, segundo era fora do meridiano fixo

João de Lisboa identifica agulhas de marear cujos ferros chegavam a estar ferrados fora da flor-de-lis em ângulos superiores às duas quartas. Esta e outras observações irão ser alvo de um estudo mais detalhado.

Concluímos, dizendo que no último quartel do século XV, em relação aos Descobrimentos Portugueses e às agulhas de marear, parece ter existido uma sequência de eventos que podemos resumir da seguinte forma:
detecção de que as agulhas noroesteavam e nordesteavam com a navegação em longitude, nomeadamente durante as navegações efectuadas no Atlântico Norte pelos marinheiros portugueses;
(falsa) percepção que a longitude estaria proporcionalmente relacionada com o noroestear e nordestear; e,
utilização generalizada da agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis de forma a evitar as deficiências das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis.

13.06.19

Na segunda metade do Século XV, já era evidente para os navegadores que o norte das agulhas de marear e o norte geográfico não eram coincidentes na maior parte dos casos. A identificação do momento da culminação do Sol, condição fundamental para o cálculo da latitude, permitiu evidenciar de forma clara este facto. A culminação teria que se verificar a norte ou a sul do local de observação, e isso não se verificava. Mais tarde, os navegadores da época começaram sistematicamente a medir a diferença entre os dois pólos, obtendo desta forma o valor da declinação magnética local (sem que conhecessem a sua existência).

No Tratado da Agulha de Marear, Capítulo VIII - Que declara a causa e noroestear a nordestear das agulhas,  João de Lisboa escreve o seguinte:

Convém saber: o mundo é redondo, como ele mesmo se mostra e por muitas experiências é sabido, e os pólos sobre que estes céus se movem são dois, pólos árctico e antárctico.
E temos sabido que a dita agulha de marear tem um ferro de norte e sul; e sendo este ferro cevado na pedra de cevar, assim o pólo norte como o pólo sul são tão sujeitos aos pólos árctico e antárctico do mundo, pelo dito cevamento da pedra, por Nosso Senhor influir nela uma tão singular virtude, que em nenhuma parte repousa nem descansa, senão quando direitamente com a flor de lis se enfiam (*) em direito com os ditos pólos do mundo".
(*) - os ferros

Ainda no mesmo capítulo VIII, continua João de Lisboa :
  
E quando a dita agulha se acha em parte onde se diante põe a redondeza da terra e mar entre a agulha e pólo, pelos desejos naturais que tem o dito pólo, se inclina aquela onde lhe é mais propínquo (*) o que lhe causa o seu noroestear e nordestear........e se no Cabo das Agulhas, que está junto do Cabo da Boa Esperança, 28 léguas a leste dele, e no Cabo de São Agostinho [nota-Recife, Brasil], e em outra alguma parte a dita agulha está com os pólos o mundo fixa, é porque ali está recebendo o seu descanso....."
(*) - próprio

No Tratado da Agulha de Marear, João de Lisboa tenta sustentar a teoria segundo a qual as linhas isogónicas teriam uma correspondência directa com os meridianos terrestres. Segundo esta teoria, a declinação magnética estava directamente relacionada com a longitude através de uma simples regra de proporcionalidade de acordo com o desvio para nordeste ou noroeste que as agulhas apresentavam em relação ao meridiano dos pólos, o meridiano “vero”, a linha agónica, linha que une todos os lugares onde a declinação magnética é nula. 

No Tratado da Agulha de Marear, Capítulo IX - Em que se declara onde havemos de tomar este meridiano vero, e assim a quantidade da quarta; e depois das outras, começando da equinocial(*) para os pólos do Mundo,  João de Lisboa escreve o seguinte:
(*) - equador

Hás-de saber que este meridiano vero, onde as agulhas verdeiramente ferem (*) o pólo do mundo árctico, divide a Ilha de Santa Maria e a Ponta da Ilha de São Miguel, que são nas Ilhas dos Açores; e divide a esfera em duas partes iguais,e passa entre as Ilhas de Cabo Verde, por cima da Ilha de São Vicente, e assim passa entre o Cabo da Boa Esperança e o Cabo Frio [nota-Rio de Janeiro, Brasil]. E aqui neste meridiano, achei sempre as fixa no pólo do mundo......"
(*) - fazem, indicam

É desta forma que João de Lisboa identifica geograficamente o meridiano vero, ou linha isogónica. Como facilmente se pode verificar, João de Lisboa desconhecia que os lugares que ele identificava como fazendo parte do meridiano vero, na realidade não se encontravam no mesmo merididiano.

No capítulo VI, é identificada a regra de proporcionalidade de acordo com o desvio para nordeste ou noroeste que as agulhas apresentavam em relação ao meridiano dos pólos, o meridiano “vero”.

"......aquela é a diferença da tua agulha, e assim verás o afastamento; se é para o oriente ou para o ocidente; e assim verás o paralelo em que estás, para saberes quanto hás-de dar por quarta, porque as quartas não são iguais em léguas, por respeito da estreitura da esfera.
Estes são os paralelos, e quanto vale cada quarta da agulha que te noroestear ou nordestear:

Na equinocial (*) vale a quarta....................................................350 léguas
A cinco graus da equinocial vale a quarta......................................347 léguas
A dez graus da equinocial vale a quarta........................................342 léguas
A quinze graus da equinocial vale a quarta....................................336 léguas
A vinte graus da equinocial vale a quarta......................................329 léguas
A vinte e cinco graus da equinocial vale a quarta............................320 léguas
A trinta graus da equinocial vale a quarta.....................................304 léguas
A trinta e cinco graus da equinocial vale a quarta...........................280 léguas
A quarenta graus da equinocial vale a quarta.................................264 léguas
A quarenta e cinco graus da equinocial vale a quarta.......................249 léguas
A cinquenta graus da equinocial vale a quarta................................226 léguas
A cinquenta e cinco graus da equinocial vale a quarta......................203 léguas
A sessenta graus da equinocial vale a quarta.................................175 léguas
A sessenta e cinco graus da equinocial vale a quarta.......................164 léguas"
(*) - equador

Em 1500, a declinação magnética em Lisboa era aproximadamente igual a 5ºleste, as agulhas nordesteavam. Sendo a latitude de Lisboa aproximadamente igual a 38º Norte (a 38 graus da equinocial) , e consultando a tabela supra, podemos considerar a quarta como igual a 270 léguas. Como 5º (valor do desvio) é um pouco menor que metade de uma quarta, podemos então considerar que de acordo com esta teoria, Lisboa estava cerca de 130 léguas para leste do meridiano vero, quando a distância real é um pouco menor que 800 milhas.

Incoerências do próprio Tratado 
Como já referido, a mais antiga versão que se dispõe do Tratado da Agulha de Marear data de meados de Quinhentos quando o tratado é de 1514, o que significa que existirão diversas cópias entre o original e a cópia mais antiga conhecida. Como teremos oportunidade de verificar, no capítulo X do Tratado, são atribuídos ás quartas valores diferentes dos que são identificados no capítulo VI, o que demonstra que o Tratado sofreu diversas alterações ao longo dos anos.

No Capítulo X - Para saberes quantas léguas estás arredado do meridiano vero,  João de Lisboa escreve o seguinte:

 "  Se quizeres saber quanto estás arredado do meridiano vero dos pólos fixos, a saber, de 30 graus até aos 45 de entre ambos os pólos, saberás que em qualquer quarta que vai fora do meridiano, releva por quarta 250 léguas; e assim vai em todas as quatro quartas que não é mais larga nem baixa, nem para leste nem para oeste, que as ditas 250 léguas, e isto desde o meridiano até chegar às quatro quartas, quer para a parte de leste quer para a parte de oeste, porque só chega às quatro quartas, e logo torna a buscar seu meridiano de grau em grau..............as quatro quartas é o mais alto, e dali logo vai buscar o seu meridiano e desfaz o que subiu......."

O que é afirmado no parágrafo anterior, pode ser representado desta forma:
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Como primeiro facto a realçar, destaque para a regra das 250 léguas por quarta entre os paralelos 30 e 45. O segundo facto digno de nota é que o autor do referido parágrafo usa como base de raciocínio uma rosa dos ventos dividida em 16 quartas, o que coloca sérias dúvidas sobre a data original desta porção do texto.

A reforçar esta nossa convicção, vejamos o parágrafo seguinte, no mesmo Capítulo X:

"  e há deste meridiano a este pólo movível 2000 léguas, e deste meridiano até o outro meridiano há 4.000 léguas por esta altura dos 30 graus até os 45 graus...................."
JL_cap X_2.PNG
 Não se pode ter a certeza absoluta que tenha sido João de Lisboa o responsável pela divulgação desta teoria, que estabelecia uma relação directa e proporcional entre a declinação magnética e a longitude. D. João de Castro, ao abordar esta teoria em 1538, após ter concluído, após diversas observações, que o desvio magnético não tinha relação com as diferenças de meridiano, chegou mesmo a referir que o facto de Ptolomeu ter feito passar pelas Canárias o meridiano para o início da contagem das longitudes, poderia estar na origem desta falsa teoria pois

"do que me parece que naceo o engano de alguns pilotos cuidarem que, na parajem destas ilhas, não varião as agulhas cousa alguma"

Apesar de D. João de Castro ter negado a veracidade da teoria identificada no Tratado da Agulha de Marear em 1538, muitos pilotos continuaram a utilizar a teoria proposta por João de Lisboa até meados do século XVII.


13.06.19


No Tratado da Agulha de Marear, João de Lisboa tenta sustentar a teoria segundo a qual as linhas isogónicas teriam uma correspondência directa com os meridianos terrestres. Segundo esta teoria, a declinação magnética estava directamente relacionada com a longitude através de uma simples regra de proporcionalidade de acordo com o desvio para nordeste ou noroeste que as agulhas apresentavam em relação ao meridiano dos pólos, o meridiano “vero”, a linha agónica, linha que une todos os lugares onde a declinação magnética é nula.
Como sabemos, João de Lisboa desconhecia em absoluto a existência do fenómeno da declinação magnética, através do seu Tratado, ele apenas tentava relacionar o "noroestar" e o "nordestear" das agulhas com o afastamento geográfico em relação ao meridiano "vero", onde supostamente a diferença entre o norte das agulhas magnéticas e o norte geográfico seria nulo.

Um dos mecanismos cujo conhecimento chegou aos nossos dias e cuja utilização associada à agulha de marear permitia a determinação mais rigorosa do momento da passagem pelo meridiano do lugar de um determinado astro, era constituído por uma semicircunferência de arame que era montada sobre a caixa da bússola, com as suas extremidades colocadas em pontos opostos, com o objectivo de que o plano da semicircunferência ficasse perpendicular ao da rosa-dos-ventos, ou seja coincidente com o plano vertical que continha a agulha de marear.

Mantendo a base da caixa da agulha em posição horizontal, esta devia ser orientada (rodada) de modo que o plano da semicircunferência coincidisse com o círculo vertical do astro em observação. Esta operação tinha a designação de bornear a agulha. Nesta posição era possível comparar o azimute da estrela com o valor indicado pela agulha, sendo o ângulo obtido directamente através da leitura na rosa-dos-ventos. De facto, nesta posição e caso o astro observado estive a culminar, o plano vertical da semicircunferência de arame era o meridiano do lugar e o ângulo observado era o valor da declinação magnética local. A estrela Polar e a constelação do Cruzeiro do Sul, foram intensivamente e durante muitos anos utilizadas neste processo.

A operação de bornear era delicada pois a caixa da agulha de marear tinha de ser mantida numa posição que garantisse que a sua base estivesse horizontal. A própria leitura do ângulo observado era difícil de efectuar para quem rodava em simultâneo a agulha de marear, existem vários relatos que demonstram de forma inequívoca que esta operação era feita por duas pessoas. Por outro lado, quanto mais elevado estivesse o astro em relação a horizonte, maior era o erro do processo, isto porque a caixa também teria que ser colocada numa posição mais elevada para permitir o "bornear" do astro.

É fácil concluir que deverá ter existido um número elevado de variantes deste mecanismo. Pensamos que em alguns casos a semicircunferência em arame (figura nº.15) possa ter sido constituída por duas semicircunferências, paralelamente ajustadas entre si para que existisse um pequeno intervalo (ranhura) entre os dois arames que facilitasse o correcto alinhamento visual com o astro a observar. 
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.Fig. nº15 – Utilização da semicircunferência em arame
João de Lisboa, no capítulo VI – “em que se declara como hás-de ter a agulha nas mãos” -  do Tratado da Agulha, e quando se debruça sobre o Regimento do Cruzeiro do Sul (que não iremos abordar mas que era o equivalente aos Regimentos da Polar mas no hemisfério Sul), faz a seguinte descrição da aplicação de um aparelho ou artefacto que permitia medir a declinação da agulha :

 “Ao tomar esta agulha na mão, hás-de olhar que a tenhas sempre ao nível (*), porque estando acostada (*) é falsa, e não se fará a verdadeira conta. E assim mesmo hás-de ver que o seu circulo não jaza acostado (*), mas antes do zénite dela caia uma linha com chumbo pelo meio da rosa (*); e, vindo assim, então está para se fazer verdadeira operação ”
(*) – preocupação em garantir a horizontalidade e estabilidade da agulha de marear
  
Prossegue João de Lisboa:

Então bornearás pelos furos do semi-circulo o pé do Cruzeiro (*) , até que seja metido pela abertura; então verás onde aponta a flor-de-lis da agulha …

(*) - estrela Crucis

Quando se afirma "bornearás pelos furos" significa que a caixa da agulha seria rodada até que os furos estivessem alinhados. Esse alinhamento deveria coincidir com o alinhamento do astro no plano vertical do semi-circulo...."até que seja metido pela abertura; então verás onde aponta a flor-de-lis da agulha …”.
Só nesse preciso momento é que a operação era considerada como concluída, "então verás onde aponta a flor-de-lis da agulha …”. Posteriormente era efectuada a comparação entre o valor observado na agulha magnética para o Sul magnético e o valor obtido através da aplicação do regimento do Cruzeiro do Sul. A diferença, a existir, identificava o nível de afastamento entre os pólos geográficos e magnéticos no local das observações.

A utilização deste tipo de aparelho teve início na segunda metade do Século XV, quando já era evidente para os navegadores que o norte das agulhas de marear e o norte geográfico não eram coincidentes na maior parte dos casos. Recorrendo à Polar ou ao Cruzeiro do Sul, com o intuito de medir a diferença entre os dois pólos, obtendo desta forma o valor da declinação magnética local, os navegadores da época começaram a perceber que as diferenças observadas variavam não apenas entre os diversos locais por onde navegavam mas também com o passar do tempo.

A construção e montagem a bordo deste tipo de mecanismos de leitura de azimutes e de sombras surge com o início da utilização do Sol na navegação astronómica. O conhecimento do momento da passagem meridiana do Sol era um factor crítico para o cálculo da latitude. No caso da Polar e do Cruzeiro do Sul, se as condições atmosféricas o permitissem, os respectivos regimentos eram aplicados através de uma simples observação dos céus, não era necessário qualquer tipo de leitura mais ou menos rigorosa de azimutes.

A aplicação de aparelhos de sombras nas agulhas já seria prática relativamente comum, mais antiga, e que era feita para identificar a passagem meridiana do Sol, tendo esta operação com o tempo evoluído para a avaliação dos ângulos associados à declinação magnética, passando a ser feita utilizando a Polar e o Cruzeiro do Sul, com a intenção de medir o "afastamento entre os pólos".